O crescimento da Frente Nacional de Marine Le Pen e as eleições presidenciais de 2012 na França

Tatiana Coutto   

Em 20 e 27 de março, os franceses foram às urnas para escolher os conselheiros gerais da metade dos mais de 4 mil cantões existentes no país. Apesar do baixo índice de comparecimento (média nacional de 44%), as “cantonais” dão o tom das presidenciais de 2012. Cada vez menos fiel ao partido, o “eleitor-consumidor” quer sobretudo um produto que resolva os dilemas relacionados à migração, ao desemprego e a uma certa ideia de identidade nacional.

A eleição nos cantões reflete a queda de popularidade do presidente Nicolas Sarkozy e da União por um Movimento Popular (UMP), bem como as divisões internas do Partido Socialista (PS). Os números comprovam a popularidade da Frente Nacional (FN), partido de extrema direita fundado em 1972 por Jean Marie Le Pen, conhecido por suas posições polêmico-circenses em relação aos direitos dos franceses “da 2ª divisão” –  descendentes de estrangeiros – e ao Holocausto. Sua filha Marine é a principal arquiteta do “retrofit” político da FN: destaque à área econômica, discurso firme em relação à imigração, reafirmação da identidade judaico-cristã da Europa. Algo entre maquiagem e renovação.

Se a presença de Le Pen no 2º turno é dada como certa pelas pesquisas, o nome do outro candidato permanece indefinido. O que isso significa? Em primeiro lugar, a decepção dos eleitores com Sarkozy. Segundo, a dificuldade da esquerda de se articular em torno de um único nome. Terceiro, o cansaço dos franceses em relação à política, e a importância dos eleitores de “intolerância moderada”, como ocorre na Bélgica e na Holanda.

Em 2007, Sarkozy elegeu-se com o apoio da “direita descomplexada” com a promessa de preparar a França para enfrentar a crise econômica e a falta de perspectivas futuras, principalmente entre os jovens. Entretanto, em vez de avançar as reformas econômicas e sociais que envolvem, direta ou indiretamente, a questão da migração e do Islã na França, Sarkô optou pelo discurso do medo que cativa os eleitores FN. Ao tentar se equilibrar entre reforma e ideologia instrumental, arca com o custo político das medidas impopulares porém necessárias… sem tê-las, contudo, implementado.

O PS, fragmentado por disputas internas, encontra dificuldade em propor ao algo além do debate. Na ausência de propostas concretas, o eleitor não se mobiliza. Ou não vai votar, ou vota nos candidatos que acenam com soluções “práticas” (ainda que não sejam cumpridas). O futuro candidato socialista – Strauss-Kahn (ex-diretor do FMI, nome mais forte na disputa), Martine Aubry (filha do ex presidente da Comissão Europeia Jacques Delors,), François Hollande (ex-primeiro secretário do PS) ou Ségolène Royal (candidata em 2007) – terá que concentrar esforços em domar/conviver/obter apoio de outros setores do partido.

Os Verdes podem ter papel relevante na formação de uma coalizão que se oponha à FN, mas tampouco definiram seu candidato – a eurodeputada franco-norueguesa Eva Joly, ou o repórter-ambientalista Nicolas Hulot. Com a “legitimidade” para inserir agendas ambientais no debate político, os verdes podem mobilizar o eleitorado mais jovem e roubar votos da direita – fatores que podem fazer diferença já no 1º turno em 2012.

A FN tem sido apontada como grande beneficiária dessa situação. Batendo na tecla da imigração, no futuro do welfare (bem-estar social) francês e no euroceticismo, e evitando pontos polêmicos como o Holocausto, Marine Le Pen resgata os eleitores ex-Jean Marie, ex-Sarkozy. O sucesso da FN é, contudo, o principal obstáculo para que Marine se torne a primeira presidenta da França.

O alto índice de rejeição à candidata favorece tremendamente Sarkozy, caso chegue ao 2º turno, a exemplo de Chirac em 2002. No caso de um 2º turno entre FN e PS, a situação é mais complexa; apesar das declarações do secretário Jean-François Copé (“nada de Frente Nacional nem de Frente Republicana”), não é possível prever a distribuição de votos dos “futuros ex-eleitores” de Sarkozy. As primárias do PS em outubro são tão importantes para o futuro da UMP quanto para as presidenciais 2012.

Tatiana Coutto é cientista política
e assistente de pesquisa junto à
Fundação Getúlio Vargas (FGV)

 

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