O desabafo do ex-porta-voz não é a voz isolada do general, pois tem um alcance muito maior

Rêgo Barros tornou-se porta-voz de muitos militares

William Waack
Estadão

Foi já para lá da metade de 2018 que os altos oficiais das Forças Armadas encantaram-se com a popularidade de alguém que surfava a onda disruptiva, que oferecia a oportunidade de se alterar os rumos do País. Hoje levanta-se a tese se houve mesmo uma alternância entre “esquerda” e “direita” em 2018, pois o que se percebe é a prevalência de um sistema pelo qual os donos do poder descritos já há tantos anos continuam acomodando interesses setoriais e corporativos às custas dos cofres públicos, sem visão de conjunto ou de Nação – tanto faz o nome ou o partido.

Além da bem amarrada ou não agenda econômica proposta por Paulo Guedes, foram os militares formados em academias de primeira linha que trouxeram para Bolsonaro o que se poderia chamar, com boa vontade, de “elementos de planejamento” num governo que, logo de saída, titubeou entre entregar a coordenação dos ministérios para uma ala “política” (enquanto se recusava a praticar a “velha” política) ou depositá-la no que era a esperança dos generais: um dos seus como chefe de “Estado-Maior” (a Casa Civil).

GOVERNO SEM EIXO – Hoje se constata que era o primeiro sinal inequívoco do que acabou virando a marca do governo: sem eixo, sem saber como adequar os meios aos fins (supondo que “mudar o Brasil” seja o objetivo final) num espaço de tempo definido (um mandato? Dois mandatos?). Portanto, sem estratégia.

Os militares de alta patente no governo carregaram consigo uma aura de respeito e credibilidade e, em alguns ministérios, de eficiência e competência, mas não estão usufruindo disso.

Ao contrário, a reputação deles como grupo está sendo moída em casos como o da Saúde, área na qual o presidente interfere como se entendesse alguma coisa disso, e da Amazônia, com um “governo do B” entregue a quem conhece a área (o general Hamilton Mourão) enquanto o enciumado Bolsonaro deixa que Meio Ambiente e Relações Exteriores pratiquem o “fogo amigo”.

CONFORTÁVEL MUDEZ – Dois fatores políticos levaram os militares à “confortável mudez” à qual se refere o ex-porta-voz do governo, general Rêgo Barros, na destruidora descrição que fez do esfarelamento da autoridade dos militares num governo que eles nunca controlaram.

É “subserviência”, diz o ex-porta-voz, que impede a prática da “discordância leal” (coisa de fato complicada para quem cresceu em hierarquias). O primeiro fator político era a consolidada noção de que governar o Brasil se tornara impossível por culpa de outros Poderes, como Legislativo e Judiciário. Caberia ao grupo militar “defender” o Executivo.

O segundo componente político é mais amplo e difuso. Tem a ver com 2018 e o medo do esgarçamento do tecido social.

MANTRA DE BOLSONARO –  Os militares “compraram” em boa medida o mantra repetido por Bolsonaro, segundo o qual “as esquerdas”, sorrateiramente postadas atrás da esquina, só estão esperando maus resultados econômicos, crise ainda maior de saúde pública e aumento de criminalidade para promover a baderna que colocará de joelhos o governo e, portanto, o projeto de “mudar o Brasil”. Fugiria tudo ao controle.

Ironicamente, Bolsonaro acabou encontrando seu porto seguro não tanto nos militares, de cuja coesão e capacidade de articulação desconfia (como desconfia de tudo ao redor). O presidente acomodou-se no conforto do Centrão e na capilaridade que esse conjunto de correntes políticas, desde sempre empenhadas em controlar o cofre e a máquina pública, exibe em todas as instâncias decisivas no Legislativo e também do Judiciário, onde acaba de ser colocado no topo um ministro para o Centrão chamar de seu.

“Jair preocupou-se mais com seus filhos e reeleição do que com o País”, queixou-se, confidencialmente, um dos militares que chamam o presidente pelo primeiro nome. O desabafo do general Rêgo Barros não é simplesmente o de um indivíduo decepcionado. É de um grupo desarticulado.

10 thoughts on “O desabafo do ex-porta-voz não é a voz isolada do general, pois tem um alcance muito maior

  1. E o dolar sobe, o arroz falta, e a nossa esperança se esvai. Que aprendamos a lição: energúmeno não pode ser presidente.

    • E o Rego Barros só viu quem é Bolsonaro, agora?
      Menos ruim, que sua ficha caiu tarde, mas caiu.
      Pior são os demais generais qua se acham os tais e fingem não desconfiar de nada, e ainda pior é a cara do General Heleno que desconfia mas não quer falar.
      Uma das poucas reservas morais do país está indo água abaixo.
      A imoralidade chegou de fininho e tomou conta de tudo.

  2. Como eu já venho falando aqui no TI as alas divididas das FFAA irão se enfrentar.

    2 alas dividem as FFAA:

    a) Ala nacionalista
    b) Ala entreguista

    A ala entreguista estão compondo o governo junto com o Bozo, como por exemplo: general de pijama Heleno, Mourão, Luiz Ramos, Pazuello,…

    A besta do Bozo ainda deu para atacar militares entreguistas que o apoiam, mas que agora caiu em desgraça. Como é o caso do Otávio do Rêgo Barros.

    O passado indigno do Bozo nas FFAA fez com que ele não tivesse escolha a não ser se aliar a ala entreguista das FFAA.

    Mas para burrice estratégica do Bozo, a ala entreguista das FFAA são insignificantes dentro da corporação militar.

  3. CRONOLOGIA DOS FATOS
    CAUSA E EFEITO (RESUMO)

    1) O movimento esquerdista no Brasil vem muito antes da intervenção militar de 1964.

    2) Os militares pós 1964,combateram a luta armada com total sucesso,porém,deixaram que a REVOLUçÃO GRAMSCIANA (TOMADA DO PODER,NÃO PELA LUTA ARMADA,MAS POR DENTRO DO ESTADO E DA SOCIEDADE – leia-se:infiltração na máquina pública, universidades
    escolas,grande imprensa,empresariado,entidades de classe,sindicatos,Igreja Católica,Forças Armadas,…).

    3) O movimento esquerdista-comunista,usou da fraude de que combatiam os militares para o retorno da democracia,quando na verdade,a meta
    era implantar um regime ditatorial e totalitário nos moldes de Cuba e da União Soviética da época.

    4) Os militares,totalmente inadequados para a coisa pública,cometeram o ERRO IMPERDOÁVEL de NÃO CONTEMPLAR o país,durante 21 anos,de um VERDADEIRO PROJETO DE NAÇÃO.
    Além de sustentar um nacionalismo burro.

    5) Os militares se acomodaram no poder,muito mais por suas limitações (militares entendem de guerras,não de administração pública),e não atentarem para a importância da qualidade de vida da população: a) povo alimentado. b) povo com empregos e oportunidades c) povo educado e com cultura contínua com a importância dos valores morais,(…)

    6) O ciclo militar 1964-1985,deixou como legado
    a incompetência militar para extirpar as forças esquerdistas-comunistas (vide item 2).
    PS-O foro de São Paulo (comunização do Brasil e de toda a América Latina) está aí em pleno curso.

    7) O mago negro do movimento militar General Golbery, gerou Lula para contrapor e impedir a eleição de Brizola.

    8) Como a gestão militar se exauriu por “fadiga generalizada”, a fase trágica da fraude da redemocratização pós-1985,deu início a tudo isso
    que constatamos atualmente (35 anos depois).
    Os mesmos canalhas esquerdistas-comunistas do passado voltaram ao poder,em conluio com mega empresariado+grande imprensa+elite financeira
    saquearam e inviabilizaram o país desde então.

    9) É oportuno denunciar que todas as tragédias políticas-econômicas-sociais do Brasil tem as digitais dos militares.

    10) O engodo de que os militares voltaram ao poder (Bolsonaro Zero Zero) através do voto,é a
    continuação da fraude de que militares são aptos
    a governar a nação.
    A máquina pública, atual,principalmente no primeiro escalão,está repleta de militares.
    (e sem credenciais para tal).
    PS2-Vide que estão em conflito permanente entre
    eles mesmos.

    11) Bolsonaro Zero Zero e militares de pijama na
    administração pública,NÃO TEM QUALQUER PROJETO DE NAÇÂO definido para ser executado.
    (…).Há na verdade,um mega projeto de poder pessoal/familiar de Bolsonaro Zero Zero.

    Resumo da ópera: SEM UM VERDADEIRO PROJETO DE NAÇÃO,com metas e datas definidas,presidente da República com perfil de ESTADISTA,acompanhado por políticos e administradores de alta moral e competência à causa pública,POPULAÇÃO (repleta de homens-massa) SEM A VAIDADE DA ESPERTEZA E DO EXISTENCIALISMO,O BRASIL, NUNCA SERÁ uma NAÇÃO EXEMPLAR.

  4. Saudamos o retorno dos Srs. Aquino (dias atrás) e Germani (22:16),os quais, entre demais articulistas e comentaristas, enriquecem a plêiade da TI.

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