O desastre da saúde

Vittorio Medioli

Entre os deveres do Estado democrático, o mais lembrado atualmente é a prestação digna de serviços de saúde pública. No cidadão brasileiro pesa uma carga tributária duas vezes maior de quanto se registra, em média, no âmbito dos BRICS. Mas nem por isso ele goza de um atendimento melhor ou minimamente satisfatório.

Por vez aparecem nas telas propagandas de ambulatórios limpos, dotados de aparelhagem moderna e de servidores felizes com uniformes limpos, depois fica se sabendo que aquela cena era apenas para inglês ver ou para a presidente Dilma inaugurar, como já ocorreu perto de Brasília.

O dia a dia, entretanto, é outro, com hospitais lotados, desaparelhados, com atrasos de exames além dos seis meses. Em Betim até os corredores do Hospital Osvaldo Franco tem filas duplas de macas de pacientes internados em estado de precariedade absoluta. Banheiros imundos, falta de álcool em gel, de material sanitário, de fraldas e utensílios descartáveis obriga os servidores a enfrentar a emergência e a improvisação a cada instante. Esse é apenas um exemplo do que acontece no município que goza da segunda arrecadação do Estado de Minas, cerca de R$ 1,5 bilhão anual. E nos outros?

A culpa certamente é dos nossos governantes, do Poder Legislativo que fica calado ao descalabro e não apresenta propostas ou cobra atuação, entretanto, atrás do desastre grassa a incapacidade da população de se organizar e pedir o que lhe é devido. Não sei se até a Promotoria Pública fica indulgente com os governantes. Fato é que a situação parece não ter culpados, mas ser resultante de uma mera conjugação astral. Dessa forma a ausência de reação apenas mantém ou até degenera a situação. Quem se cala, consente.

CONTAMINAÇÃO

Em Betim, região metropolitana de BH, no ano passado se registrou uma extraordinária contaminação das instalações que levou dezenas de pacientes à morte. Não fosse a atuação da imprensa local independente movida por denúncias de médicos que respeitam o juramento de Hipócrates, a hecatombe estaria fora do conhecimento geral, talvez mais grave do que já é.

Para piorar a situação colaboram os atestados de óbito que omitem os contágios, e as estatísticas se apresentam assim livre de bactérias. Paradas respiratórias, falências múltiplas, insuficiências etc. deixam sem saber que o falecimento se deu por infecção hospitalar aguda provocada por falta de normas de higiene, por administração temerária de remédios. O paciente é sempre culpado de não ter respondido aos cuidados médicos, nunca é dado de saber se a imperícia, a omissão, a falta de cuidados, as condições sanitárias insuficientes motivaram a morte.

Os atestados de óbito se limitam a descrever o último ato, não o que o provocou. Seria descrever um atropelamento como uma agressão ao carro em alta velocidade por parte do pedestre. Isso, entretanto, faz parte do sistema que deixa ao reparo do erro ou da omissão os verdadeiros culpados.

Se os governantes respondessem não só pela corrupção ativa e passiva, pelos peculatos – que enfim o STF decidiu reconhecer e punir – mas também pela perdas de vidas que ocorrem no SUS, a situação da saúde pública não seria tão desesperadora.

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