O DNA da França

Sebastião Nery

PARIS – Os dois tinham uma marca que levaram com eles para o tumulo : a mania de grandeza. Grandeza deles e grandeza da França. Charles De Gaulle falava de si como se falasse da França : – “Com que outra coisa contentar-se quando se encontrou a Historia”?

E falava da França como se falasse dele :

– “A França não pode ser a França sem a grandeza”.

Condenado à morte pelo governo e pelo exercito francês submetidos por Hitler, De Gaulle foi para Londres, depois o norte da África, organizou e comandou a resistencia e a libertação do pais, entrou em Paris em 1944 já como libertador e presidente da Republica, e se demitiu em 1946. Em 1958 foram busca-lo em casa para outra vez salvar a França como presidente da Republica que deu a independência à Argélia e acabou com o massacre.

Reeleito presidente em 1965, De Gaulle convocou um plebiscito em abril de 1969, depois da crise de maio de 68, perdeu, deixou o governo e morreu logo depois, em novembro de 1970, com 80 anos.

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DE GAULLE E MITTERRAND

François Mitterrand, ministro de De Gaulle, disputou com ele a presidência em 1965, foi para o segundo turno, perdeu. Em 1974 disputou com Giscard d`Estaing, também perdeu. Em 1981, derrotou a reeleição de Giscard, foi presidente dois mandatos de sete anos, entre 1981 e 1995.

Até hoje a França vive sobretudo das idéias e legados políticos dos dois. Quando Mitterrand, do Partido Socialista, ganhou a presidência em 81, derrotando Giscard d`Estaing, que tinha sido ministro das Finanças de De Gaulle e em 74 derrotara Mitterrand para presidente, dizia-se que a “Era De Gaulle” tinha definitivamente passado. Como a “Era Vargas” de FHC.

Engano. Em 85, seus discípulos da UPF (União Pela França) fizeram maioria na Assembléia Nacional e assumiram o governo com Jacques Chirac de primeiro ministro.
Mitterrand reelegeu-se presidente em 88 e em 89 os socialistas ganharam a Assembléia Nacional e portanto o governo.

Sai Mitterrand depois do segundo mandato, Jacques Chirac ganha a presidência e os herdeiros de De Gaulle o governo. Em 2007, Sarcozy era um degaullezinho e Segolene, ex-ministra e discipula de Mitterrand.

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LIBERALISMO

Por que a força toda desse DNA, dessa herança? Por causa da Historia. A pequena Bíblia de De Gaulle,“Doctrine Politique” (Ed. Du Rocheur) mostra que, em 48, já fora do primeiro governo, ele dizia:

1. “O que se fez economicamente no mundo foi um sistema que se
chamava liberalismo e grandes coisas foram feitas. Mas também é evidente que o liberalismo, tal como era visto ontem, tornou-se inconcebível, insuportável para o mundo e especialmente para a França hoje. O velho liberalismo não é o caminho economico e social para a França”.

2. – “Nem o velho liberalismo nem o comunismo esmagador. Deve ser outra coisa. O que? Há uma terceira solução: a associação, a participação, que muda a condição do homem dentro da civilização moderna. A questão social tem que ser colocada em primeiro lugar”.

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ESQUERDA E DIREITA

3. – “A esquerda me abandonou no dia seguinte da libertação porque
ela é contra o Estado. A direita me abandonou logo depois porque ela é contra o povo. Na direita, diz-se que faço uma política de esquerda. Na esquerda, diz-se que estou aqui para a direita, para os monopólios. O fato de uns e outros dizerem que pertenço ao outro lado prova precisamente que não sou de um lado nem do outro. Sou pela França” (1953).

4. – “Um dia, a Europa inteira se reencontrará na liberdade. Nós nos reencontraremos com os paises do Leste à medida que eles saiam de suas esmagadoras dominações. Veremos a esperança renascer do Atlântico aos Urais. Os povos têm direito de disporem inteiramente de si. Não para enriquecer oligarquias internas e externas. Para libertar o homem” (1950).

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VERDES

O que há de novo na França são os Verdes e o movimento ecológico. O Parlamento Europeu e as eleições regionais da França revelaram duas novas lideranças, exatamente do Partido Verde e do movimento ecológico : Cecile Duflot, secretaria-geral do Partido Verde, alta, morena, bonita, olhos fortes excelente oradora, 34 anos, quatro filhos “é o personagem político frances do momento,a estrela emergente na esquerda francesa”. (“El Pais”):

– “O socialismo é do século passado. O ecologismo já está maduro. O socialismo era um projeto do seculo passado, baseado no crescimento e na ideologia. Essa ideia de crescimento não serve para um planeta com os recursos limitados”. É a Marina Silva francesa.

Outro que está nas TVs, revistas, jornais, discutindo o meio ambiente e seu projeto de criação da “taxa carbono”, o “imposto verde”, é Nicolas Hulot, amigo de Sarcozy (“o homem que fala no ouvido de Sarcozy”).

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PARISIENSES

1. – O francês catava cocô de cachorro na rua. Hoje cata toco de cigarro. Como não pode fumar em nenhum interior, vai para a rua fumar.

2. – Em 1949, com “O Segundo Sexo”, Simone de Beauvoir pensava defender o segundo sexo. Estava era criando o terceiro. É maioria absoluta aqui em Paris. Invadiram. Eles com eles, elas com elas. Adão e Eva já eram.

3. – Em 1988, com “O Alquimista”, Paulo Coelho entrou para a lista dos mais vendidos na Europa toda. Segurou o posto 20 anos. Agora, saiu.

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