O dólar cai, ameaçando perigosamente a indústria brasileira. A equipe econômica fica comprando dólares e aumentando as reservas, inutilmente. Por que não podemos seguir o exemplo da China?

Carlos Newton

O comentarista José Lyra indaga nossa opinião sobre a queda vertiginosa do dólar frente ao real. É claro que a queda da cotação do dólar tem problemas externos (a situação de crise da economia americana) e internos (a forma como a equipe econômica brasileira lida com isso). E realmente é espantoso o que está acontecendo na economia brasileira.

O Banco Central culpa a entrada líquida de dólares no País. O BC diz que esse fluxo financeiro é “composto por investimentos estrangeiros de longo prazo no setor produtivo e por captações de empresas brasileiras no exterior”, sem entrar em detalhes, quando seria fundamental saber que investimentos a longo prazo são esses. A alegação é muito intrigante, pois se sabe que essa entrada de dólares, em grande parte, não é para investimentos a longo prazo. Muito pelo contrário, são aplicações conhecidas como “hot money”, ou capital motel, sempre de curto prazo.

Muitas dessas aplicações são feitas na Bolsa de Valores. Em junho, por exemplo,os investidores estrangeiros lideraram a participação nos investimentos em ações, com 34,74%. Foi um mês ruim para a Bovespa, mesmo assim os estrangeiros estão lá, apostando na recuperação do índice, que nos últimos três pregões já subiu cerca de 4 por cento.

Com esse extraordinário volume de dólares ingressando na economia, o governo segue tentando intervir no mercado, para evitar que a cotação da moeda americana continue caindo em relação ao real, quem diria? E como resultado dessa política de intervenções, as reservas internacionais do BC continuam se elevando. Já perdi a conta. No início de março, lembro que havíamos passado de US$  310 bilhões em reservas. Isso é bom ou ruim?

As compras de dólares pelo BC no mercado à vista muitas vezes são maiores até do que o total de entrada de dólares e, como consequência, acabam se refletindo na posição cambial “vendida” dos bancos, quando apostam em mais valorizações do real frente ao dólar, no mercado futuro.

Traduzindo de novo: o Banco Central está adotando uma política suicida, porque cada vez que compra dólares, tem de emitir títulos da dívida interna em valores correspondentes, que pagam taxa Selic, ou seja, 12,25% de juros anuais. Com isso, a dívida interna aumenta na mesma proporção das reservas cambiais, mas como uma imensa diferença: as reservas rendem 2% ao ano, enquanto a dívida interna paga 12,25%. Isso é bom ou ruim? É um péssimo negócio.

E os bancos brasileiros, que no mercado futuro apostam na queda do dólar, fazem sucessivas captações no exterior em dólar, a juros baixíssimos, e investem e emprestam aqui em reais, com as mais elevadas taxas do mundo. Um excelente negócio. Por isso, estão lucrando como nunca.

A situação é cada vez mais crítica, porque a queda do dólar está provocando um fenômeno perigosíssimo – a desindustrialização. E o governo assiste inerte. Só há uma saída, a meu ver: a suspensão do câmbio flutuante, que é um dos orgulhos dos economistas do governo e está nos criando graves problemas.

O ideal é o câmbio flutuante, não há dúvida, mas nem sempre é possível. O Brasil já praticou uma política de câmbio fixo em várias oportunidades. Às vezes não há opção. Todos sabem que a China está indo muito bem economicamente, mas poucos lembram que lá o câmbio nunca foi flutuante. Quem sabe o que é bom para China não seria também bom para o Brasil, pelo menos durante um certo período?

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