O doleiro Youssef, vivendo um personagem de Nélson Rodrigues

Pedro do Coutto

Em suas crônicas em O Globo, e na sua obra no plano da arte, Nélson Rodrigues, de quem fui amigo, criou e imortalizou a figura do homem fatal, um personagem-chave no caminho de seus enredos. No futebol, fatal era o que fazia gols decisivos para as vitórias; no palco, aquele que desencadeava os rumos dramáticos. De qualquer forma, representava aqueles cuja presença dimensionava os rumores dos acontecimentos. Me lembro do personagem ao ler a excelente reportagem de Jailton de Carvalho, O Globo de ontem, 29 de abril.

E fico pensando como é possível alguém desenvolver e envolver em torno de si, no sistema de poder e à margem da lei, capaz de desviar e lavar uma gigantesca montanha de dólares. Calcula-se ter movimentado, ao longo dos últimos anos, algo em torno de 10 bilhões. Não é fácil. Unir negociadores em torno de tão longo estado, no país e no exterior, não é tarefa par qualquer personagem comum. Assim, suponho, existe uma força estranha emoldurando sua personalidade.

Uma mistura de sigilo é ostentação, fatores incombináveis, conduzindo seus passos, suas palavras, suas ações. Os telefonemas que trocou gravados pela Policia Federal, refletem essa sua face oculta. Psicologicamente das mais complexas. Não se contentava apenas com o luxo e riqueza. Não. Comprou ate um avião e terminou conduzindo deputado André Vagas ao abismo da ética e da moral.

No fundo, Alberto Yousseff tratava as pessoas como se elas fossem escravos do seu poder. Não tinha a menor consideração pelos seus parceiros. Aparentava, somente, pois se os considerasse socialmente não travaria com eles os diálogos que manteve e que foram amplamente publicados nos jornais, nas emissoras de televisão e nas rádios. Ele estava sempre vários degraus acima e seus sócios nas empreitadas degraus abaixo. Dependiam dele. E ele, como o homem fatal de Nélson Rodrigues, os manipulava à vontade. No fundo, junto com o dinheiro, lhes fornecia um estranho desprezo interior.

Na verdade, em sua visão pessoal, os desprezava e deles se aproveitava. Era ele, no âmago da questão, suponho,  quem tinha menos a perder se as coisa não dessem certo. Fascinado por si mesmo, sobretudo em face de sua ascensão econômica na vida, julgava-se muito mais capaz do que aqueles que dele dependiam para transformar reais em dólares, sucatas em laboratórios e contratos com a administração pública.

Planejou tudo, assumindo transformou num enorme arquivo humano. Das ambições, das fascinações, das fraquezas de uma parte da elite. Revelou os incríveis impulsos e tentações dos que buscam enriquecer de qualquer jeito. E enveredam pela estrada da corrupção. Nesse trajeto sinistro o homem fatal uniu, em raros lances, tanto os corruptos quanto os corruptores.

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