O elogio da loucura

Carlos Chagas

É conhecida a história do Barão de Itararé, preso em plena ditadura do Estado Novo quando desceu de seu escritório, na Avenida Rio Branco, para tomar um café.  Ficou semanas na cadeia sem acusação formal, processo ou, sequer, chamado a dar depoimento. Amigos do inesquecível Aparício Torelli, seu nome de batismo, organizaram-se e levaram o caso a um ministro do Supremo Tribunal Federal, que convocou o Barão. Perguntou porque ele estava preso e veio a resposta irreverente que  fez o jornalista continuar mais algumas semanas atrás das grades:

“Excelência, foi aquele  maldito cafezinho!”

Sem entender, o ministro quis detalhes e o réu sem culpa explicou que estava  trabalhando há horas na elaboração de mais um número de seu jornal, “A Manha”, quando resolveu ir ao botequim tomar um café. Pediu, pagou e quando ia levando a pequena xícara aos lábios,  um investigador de polícia botou a mão no seu ombro e disse o clássico “teje preso”. Só pode ter sido o  cafezinho, completou o Barão.

Pois é. José Serra perdeu a eleição, ainda que tenha conseguido uma nova chance, preparando-se para disputar o segundo turno com Dilma Rousseff. Por que perdeu?

A explicação do Alto Tucanato é digna daquela que deu o Barão, décadas atrás:  Serra perdeu porque em sua campanha ignorou a obra de Fernando Henrique Cardoso, em especial as privatizações…

O grotesco nesse episódio é que o PSDB conseguiu convencer o candidato a voltar atrás e a iniciar uma ladainha de “Meas Culpas”, desde segunda-feira homenageando o sociólogo como o grande inspirador de sua campanha. Mudou de diretriz em meio ao percurso, iniciativa mais  do que perigosa. Pode não ganhar nada com os louvores ao antecessor e até perder votos,  se insistir. Porque o povão não está   nem aí para o Plano Real, aliás, de autoria do então presidente Itamar Franco e dos ministros Rubem Ricúpero e Ciro Gomes.

Do que o eleitorado quer saber, e a observação vale também para Dilma Rousseff, é sobre planos, projetos e programas dos candidatos para o futuro. Que setores merecerão seus maiores cuidados, e como? Centralizar  a campanha no Plano Real e nas privatizações dos anos noventa será tão eficaz para Serra quanto pegar uma  toalha e começar a enxugar gelo…

CÂNDIDE, OU O OTIMISMO

Começamos  com a  lembrança de Erasmo de Rotterdã, autor do famoso “Elogio da Loucura”, que quase o levou para a fogueira mas  serviu para a demolição dos arcaicos dogmas e conceitos sustentados pela Igreja durante a Idade Média.

Vale passarmos para uma entre centenas de magistrais obras de François Marie Arouet,  o Voltaire. Ele rejeitava verdades absolutas, sofreu com perseguições,  prisões,  exílios e penduricalhos.  Não  raro tinha que fugir das maiores cortes européias para não ser preso. Decidiu, então, escrever uma obra que agradasse a todos, uma ode ao otimismo  capaz de agradar à nobreza, ao clero e aos poderosos. Num fim de semana produziu “Cândide, ou o Otimismo” onde relata as agruras e os dissabores  de um jovem ingênuo e seu  professor, o dr. Pangloss, cujos óculos transformavam desgraças em maravilhosas benesses.

Se o “Elogio da Loucura”presta-se a uma advertência a  José Serra,  por estar deixando levar-se pelo que de mais reacionário existiu no governo Fernando Henrique, “Cândide” serve como uma luva para expor as entranhas do grupo que pretende engessar Dilma Rousseff,  transmitindo-lhe uma visão  infame, pronta para ser esmagada, daquilo que seria sua presença na presidência da República. Se é para ver o Brasil pelas lentes do professor Lula (perdão, do professor Pangloss), o destino da candidata  será o mesmo do personagem  de Voltaire: enganar-se permanentemente.

TAMBÉM QUEREM  MINISTÉRIOS?

Mais cedo do que parecia, surge a verdadeira razão de estar o Partido Verde pulando de cima do muro para o aconchegante ninho dos tucanos: seus dirigentes querem ministérios para comprometer-se a subir no palanque do PSDB. Ainda bem que Marina Silva está fora, prefere não apoiar nem Serra nem Dilma, mas influi muito pouco nas decisões do Diretório Nacional ou da Convenção do PV. Poupada a candidata, fica claro que o partido dela não era opção ética coisa nenhuma,  mas simples trampolim fisiológico. É claro que na situação atual os tucanos atenderão a qualquer reivindicação. Precisam conquistar mais 17% da votação nacional, ao tempo em que Dilma, com apenas mais 4%, chegaria lá.

PESO PENA

Anuncia o PMDB movimento para conquistar mais peso na campanha de Dilma Rousseff, agora que começa a propaganda para o segundo turno. O próprio Michel Temer saiu na frente, não se sabe bem se como candidato a vice-presidente na chapa da candidata do PT ou como presidente do PMDB. Aliás, tem sido rotineira a ausência do parlamentar paulista nas comitivas que percorrem os estados. Pode ser que tenham combinado como mais útil ir  um  para um lado, outra para outro, mas não deixa de ser sintomática a reivindicação do PMDB por mais espaço na campanha, logo depois de a vitória ter escapado da candidata. A crista dos companheiros baixou bastante agora que precisam começar tudo de novo. Como sempre, o partido de Michel Temer aponta como causa o pouco interesse do PT em aproveitá-los na campanha. Será assim na hora da composição do ministério, se é que Dilma vai   vencer?

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