O Estado de S. Paulo mancheta com pesquisa do Ibope

Pedro do Coutto

Mantendo a velha tradição de fidalguia e independência da família Mesquita, O Estado de S. Paulo, um dos maiores jornais do país, publicou em sua edição de ontem, 21, como manchete principal, o resultado da mais recente pesquisa do Ibope que apontou no quadro geral 51 pontos para Dilma Roussef contra 40 de José Serra. Nove por cento do eleitorado dividem-se entre indecisos e aqueles que estão dispostos a anular o voto.

Em matéria de votos válidos, a ex-chefe da Casa Civil possui 56%, doze degraus à frente do ex-governador paulista. A eleição assim parece decidida, já que estamos entrando na reta finalíssima e enquanto Dilma subiu, Serra desceu. Difícil inverter esta tendência. Só um milagre no debate da Rede Globo marcado para 26. O da Record dia 24, domingo, começa às 23 horas, e, evidentemente, não alcançará a mesma audiência da Globo. A pesquisa do Ibope foi bem comentada pelos jornalistas Daniel Bramati e José Roberto de Toledo. Antes de prosseguir neste artigo, desejo destacar a posição do jornal dirigido hoje por Ruy Mesquita.

Isso porque, ao contrário de outros de seu porte, não confunde opinião com a força dos fatos. Recentemente em editorial, o ESP anunciou publicamente sua preferência por José Serra, considerando-o o melhor candidato. Perfeito. Direito legítimo. Antigamente os jornais assumiam posições claras em matéria de sucessão presidencial. Mas não confundiam opinião com informação. O Estado de S. Paulo não confundiu. Ficou com a tradição contra a distorção. Deu o destaque devido a uma matéria que concretamente colida com seu posicionamento. De fato, o levantamento do Ibope foi o principal acontecimento político do dia.

Por que digo isso? Porque os números da pesquisa dão como praticamente decidida a sucessão presidencial de 2010. Não apenas pela diferença – muito grande – de 11 pontos de Rousseff sobre  José Serra, que  recuou. Candidato algum, com perspectiva de vitória, pode descer na etapa derradeira do confronto. Quando isso acontece é sintoma de derrota.  O avanço Dilma nesta hora decisiva é sinal de vitória. Ela está se aproximando das urnas e, portanto, hoje, indica isso.

Como sustento  sempre, no que se refere a pesquisas, que acompanho desde 1954, não basta ver os números. É indispensável também ver nos números. Dilma vence em três dos quatro grupos sociais em que se divide o eleitorado. Derrota Serra por 53 a 39 entre os eleitores e por 48 a 41% entre as eleitoras. Conseguiu portanto motivar o eleitorado feminino que aparentava resistência a seu nome. Não aparenta mais.

Os indecisos, no momento, na verdade devem ser, no máximo, 5%. Porque a parcela de 4% vai anular o voto ou votar em branco. Ninguém demove esta fração É sempre assim. Desta forma, há 5% de indecisos na disputa. Mesmo considerando a hipótese, absolutamente improvável, de José Serra arrebatar todos esses 5% para si, não conseguiria aproximar-se da candidata do presidente Lula. Inclusive a tendência é o contrário: Dilma na frente, obter a maior parte dos votantes ainda vacilantes nesta altura dos acontecimentos. O quadro revela-se definido e cristalizado. E O Estado de S. Paulo cristaliza e confirma sua tradição liberal iniciada em 1891 no alvorecer da República. Deu o destaque principal a um tema que colidiu com sua própria opinião. Mas era um fato. Foi mais uma vez fiel aos leitores, fiel à verdade, fiel a si mesmo.

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