O estupro da Grécia

Sebastião Nery

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres onde está lá até hoje, durante 30 anos ele fez questão de se submeter, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. Sempre reeleito. A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem conseguiu criar em toda a sua história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo, com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo em suas mãos, de seu exemplo, de sua vida, 500 anos antes de Cristo.

Quando Péricles, o grego, o ateniense, deu aos representantes da terceira classe o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democratica, criando a democracia, 2.500 anos atrás.

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GENERAIS

Na Grécia, em 1988, tentei uma autorização para visitar, ou ao menos ver, a cadeia onde estavam os 22 generais e coronéis gregos condenados à prisão perpetua pelos crimes hediondos que cometeram entre 1967 e 1974 na ditadura militar. Não consegui.

A Grécia quer esquecer e quer que o mundo esqueça a vergonha de sua ditadura militar na terra de Péricles, o pai da democracia. E ninguém falava mais neles. Estavam enterrados lá nas suas prisões perpétuas, bem tratados, gordos, com todas as mordomias, livros, TV, esportes,visitas da família nos fins de semana.

Os gregos tinham razão. Para que ver generais assassinos? Melhor rever suas ilhas encantadas. Na escola, li os livros cheios de gravuras e fotos de homens de cara redonda, cabelos e barba enrolados. Naquelas colinas escarpadas, empedradas, caídas retas sobre o mar sempre azul, naqueles desfiladeiros apertando as águas, entre o continente e as ilhas, travaram-se algumas das mais longas, sangrentas e estúpidas batalhas da história das guerras: as “Guerras do Peloponeso”, ali, naquele estreito de Peloponeso.

Alcebíades, Arquidamos, Brasidas, Nicias, generais enlouquecidos nas lutas fratricidas, Atenas contra Esparta, Esparta contra Atenas, Atenas contra Corinto, Mégara, Egina.

E Tucidides, o maior dos historiadores, também cinco séculos antes de Cristo, sóbrio, seco, lacônico, a quem o passado pouco interessava, só o presente importava, contou tudo nos oito livros de suas “Historiai”, (“Histórias”), os “Syggraphe” (“Tratados”). Um depoimento eterno.

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AVÓ

Hoje já não há mais os generais de Tucidides no estreito de Peloponeso. Há os “claros”, as gaivotas. As esquadras que disputavam o mar com suas brancas velas pandas hoje são esquadrilhas de gaivotas voadoras. É por isso que a Grécia é o mais belo e competente exemplo, em todo o mundo, da história-turismo, do passado-turismo, do céu, da terra, do mar, das cidades, igrejas, monumentos, museus, ilhas, dos gatos e das gaivotas, tudo junto, no mais mágico turismo do universo.

A Grécia está na alma do Ocidente. É a avó da civilização ocidental, cuja mãe foi Roma. É uma encruzilhada de continentes: Ásia, África e Europa. Está no Mediterrâneo e faz parte dos Bálcãs. Com 15.021 quilômetros de costas (10.413 nas ilhas) é cercada por três mares: a leste o mar Egeu, a oeste o mar Iônico, ao sul o Mediterrâneo.

Só no norte tem fronteiras continentais: 1.170 quilômetros (247 com a Albânia, 246 com a Macedonia, 474 com a Bulgária, 203 com a Turquia). São 131 mil 990 km2, cerca de 3 mil ilhas mais ou menos importantes (19% do território, 25 mil km2)

Mais de 80% do território é montanhoso. O mais alto de seus montes, o Olympo, tem 2 mil 907 metros,na Tessália. E 28 têm mais de 2 mil metros A temperatura média é de 5 graus na Tessalônica em janeiro e 30 graus em Atenas em julho. Quando o verão explode vai a 40 graus, em Atenas.

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NAZISMO

Agora, a Europa, sobretudo a Alemanha, está estuprando a Grécia :

1. – “A Grécia deverá criar uma conta vinculada priorizando o pagamento da dívida e assumir o compromisso de incluir em sua Constituição que a prioridade dos gastos públicos será honrar esses compromissos financeiros” (os juros dos bancos).

2 – “As promessas da Grécia não são mais suficientes para nós” – (Wolfgang Schaeuble, ministro das Finanças da Alemanha).

3. – “A Grécia precisa evitar um calote desordenado ou terá de enfrentar conseqüências devastadoras” – (Olli Eehn, comissário de Assuntos Economicos da União Européia).

A Alemanha não aprende. É a linguagem escancarada do nazismo. Lembram-se? Igual a Hitler anunciando a invasão da Polônia, em 1939.

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