O excelente repórter Mario Magalhães entrega em julho os originais da biografia de Marighela. É a história, sem artifícios, de uma época e de um personagem incontestável.

Helio Fernandes

Foram 8 anos de trabalho de investigação, de pesquisa intensa, rebuscando os fatos, procurando, encontrando, acreditando na História, com a convicção de que estava sendo digno dela, pois o personagem e os fatos também eram.

Mario Magalhães entrevistou 220 pessoas, com a maior participação nos acontecimentos. Não conheço nenhum livro com esse número de entrevistas. Além de repórter nato, Mario Magalhães tem a paciência do pesquisador, a consciência do historiador, não quer aparecer e sim esclarecer.

E esclarece mesmo, com documentação particular, revelada na íntegra. São 50 mil páginas com informações rigorosamente históricas. E mais 40 arquivos públicos e privados, não sei como conseguiu tudo isso, só mesmo com a alma e a convicção do repórter.

Um só exemplo: pela primeira vez se tomará conhecimento da correspondência entre Julião (um dos maiores participantes da época, criador das “Ligas Camponesas”) e Marighela. Correspondência quase exclusiva da CIA, que gravava tudo.

Um dos personagens entrevistados pelo repórter completará 100 anos em 5 de dezembro, quer ver o livro entregue ao público antes do aniversário. (9 dos 220 entrevistados já morreram).

Vai depender da editora, a importante Companhia das Letras. Recebendo os originais em julho (promessa e compromisso do autor), é possível que esteja nas livrarias em novembro ou dezembro.

A própria editora (ou o autor) não sabe quantas páginas terá o livro, depende da entrega, da edição final. Nem o título está escolhido, terá naturalmente o nome de Marighela na capa. Pode ser unicamente o nome, ou acrescentar, ficando: “Marighela, uma biografia”. (Só depois da diagramação da capa).

Tanto faz, o importante é o conteúdo. O repórter mostra de forma irrefutável, como Marighela foi morto em São Paulo. Todos os detalhes, ( e o que se fala muito, popularmente), da traição, do cerco e trucidamento de Marighela, estão esmiuçados no livro.

O livro conta as origens de Marighela, o avô africano (escravo), o pai italiano. Chega à historia (e biografia) do personagem, não se desviando, de forma alguma dos caminhos e dos obstáculos que se cruzam no seu trajeto de biógrafo. Não podia mesmo ignorar ou se desinteressar do que aparece nas 220 entrevistas, das 50 mil páginas, dos 40 arquivos, de toda a documentação que foi acumulando.

O que deve ter exigido do repórter um tempo que não pode ser dimensionado nos 8 anos de trabalho: a interpretação e a redução de tudo isso, para um livro, que não deve nem pode “assustar” o leitor. Pelo volume e o número de páginas. E não nos esqueçamos do ato de escrever. Diante da magnitude que o próprio repórter deu à biografia, esse será o ponto inicial ou final de tudo?

***

PS – Encontrou traços ou momentos inteiros da vida tenebrosa do delegado Fleury, um dos maiores colaboradores da ditadura. Que quando não se interessa mais (ou porque sabia demais) foi descartado. Bateram a cabeça dele na quina de um iate, o arquivo vivo morreu imediatamente, mas não inesperadamente.

PS2 – O também delegado Tuma, de “vida airada” em termos democráticos, conseguiu ficar vivo com o compromisso de deixar morto tudo o de que se lembrasse. E chegou a Secretário de Segurança na “redemocratização” (?).

PS3 – Há muito a recordar, e quem souber alguma coisa, lendo o livro, constatará que sabe menos do que acreditava. A Companhia das Letras (e o próprio repórter-autor) garante que o livro sai este ano.

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