O Exército não é torturador. Mas os militares no Poder, são. Sem a preocupação pela tortura, em vez de 21 anos no governo, bastariam 3 ou 4. E teriam feito as grandes reformas que o Brasil exigia.

Hélio Fernandes

Minha primeira entrevista de repercussão na revista “O Cruzeiro”, mocíssimo, foi com o general Goes Monteiro. Logo depois, iria fazer a “cobertura” da Constituinte e da Constituição de 1946, notável experiência. Mas a entrevista com o general, também inesquecível.

O general Goes  Monteiro era um dos intelectuais formados pela Missão Gamelin. (O mesmo general que, por incompreensão de métodos e desconhecimento de táticas e estratégia, levou o Exército da França à melancólica derrota diante das tropas de Hitler. Gamelin e Petain não resistiram nem 6 meses).

Goes Monteiro adorava frases e uma das mais famosas, citada muito na época: “O Exército é o grande mudo”. Mas ele gostava de falar pelo Exército e ocupar cargos. Foi general e ao mesmo tempo senador. E pela primeira vez na História, três irmãos foram simultaneamente generais e senadores. Ele, Ismar e Silvestre Péricles, sendo que os outros dois eram um ultraje ao Exército e ao Senado.

Goes Monteiro era irreverente, sarcástico, autoritário, mas inegavelmente inteligente e sabia o que dizia. Tentou e pensou que conseguiria; ser presidente da República. Esteve perto por mais de uma vez, precisava apoiar Vargas, que não dava vez para ninguém, civil ou militar.

A República, trabalhada por duas brilhantíssimas gerações de civis e militares, foi usurpada por dois generais, que vieram brigados da estranha Guerra do Paraguai. Deodoro e Floriano “tomaram” a República para eles, ficaram como “provisórios” durante um ano, e mais 4 como “indiretos”.

A República nunca foi Promulgada e sim “implantada”, com os dois já marechais se alternando no Poder, sem voto, sem povo, sem urna. Logo depois, enquanto se disputava ferozmente o Poder, veio Canudos e a luta de Antonio Conselheiro. Militares fizeram intervenção, primeiro lentamente, depois com três quartas partes do efetivo militar.

O massacre de Canudos é histórico, dramático, inesquecível. Mataram todos, não ficou ninguém vivo, nem Antonio Conselheiro nem  um só dos seus seguidores. Houve protesto no próprio Exército, mas os generais comandavam, em nome da “disciplina e da hierarquia”.

Não muito mais tarde, a belíssima geração militar de 1922 (quando saíram da Escola Militar de Realengo), aplaudidos,  idolatrados, reverenciados, era uma das grandes esperanças nacionais. Lutaram mesmo, inflamaram o país. Fizeram o jamais esquecido movimento que passou à História como “os 18 do Forte”.

Chegaram ao Poder em 1930 como heróis, logo, logo se transformaram em vilôes. Ou cumprindo o destino representado numa frase: “Não há ninguém mais conservador do que um revolucionário no Poder”. Transformação total, recriaram as famosas “capitanias” (não hereditárias, eles mesmos os beneficiários), dominaram o Brasil inteiro, por quase 30 anos.

Cada um daqueles tenentes ou capitães “revolucionários” se apossaram de um estado, que dominaram inteiramente. Alguns nasceram num estado, mas se transferiram para outro, como foi o caso de Juracy Magalhães e do almirante Amaral Peixoto, uma das maiores biografias da Historia brasileira.

Enquanto os militares trabalhavam nos quartéis ou nos navios, (a Aeronáutica só seria criada em 1941) esses aproveitadores ocupavam os mais diversos cargos públicos. Mas iam sendo promovidos despudoradamente, preterindo os que cumpriam seus deveres, que era a grande maioria.

De 1930 a 1946, (só para dar como exemplo Amaral Peixoto e Juracy Magalhães) foram acumulando promoções. Juracy, general, não sabia onde ficava um quartel. Amaral Peixoto, almirante, “enjoava” na Barca da Cantareira, o transporte da época.

Foram ministros, governadores, embaixadores, senadores, mas continuavam na ativa. Por pressão dos militares que ficavam sempre nos quartéis, a Constituinte de 1945/46, reduziu a 8 anos o prazo para que militares fossem promovidos fora dos quartéis.

Esses, que eram chamados de “combatentes”, se irritaram, 4 anos depois diminuíram esses 8 anos para 2. Mas já haviam se passado 4. O que podiam, fazer contra o “prestígio” e o poderio desses que jamais frequentaram um quartel?

Além do mais, esses aproveitadores implantaram a longevidade, apoiaram o “Estado Novo” (1937), derrubaram esse “Estado Novo” (1945), e alguns ainda tiveram fôlego para chegar a 1964.

Em 1965, quando Castelo Branco, o ditador de plantão, acreditou que podia impedir Costa e Silva de sucedê-lo, nomeou embaixadores dois personagens que ficaram na reserva para uma eventualidade. Bilac Pinto, deputado, foi embaixador na França. E o inacreditável e assombroso Juracy Magalhães embaixador nos EUA.

Só que Costa e Silva riu muito, tomou posse na data marcada. Bilac e Juracy continuaram veraneando ou descansando. No exterior. Com tudo pago. (Só para completar. Juracy “representou o Brasil”, três vezes nos EUA. Como coronel, Adido Militar. General, foi para a Junta Interamericana de Defesa).

Embaixador, para ver o que futuro reservava, fez a famosa confissão para o Secretário de Estado, Foster Dulles: “O que é bom para os EUA, é bom para o Brasil”. Inacreditável. Mas como publiquei a frase-confissão com exclusividade, me processou. Só que Evaristinho e George Tavares eram tão competentes, que o processo foi arquivado imediatamente. (Com a revolta do próprio juiz, confirmando: “Ainda há juízes em Berlim”).

Assim que Castelo foi feito “presidente”, enganando Juscelino, começaram as denúncias de TORTURA, fora dos quartéis. A pressão dos militares de carreira, era de tal ordem, que Castelo foi obrigado a mandar seu Chefe da Casa Militar, Ernesto Geisel, a Pernambuco.

Geisel, que acreditava em pouca coisa, cético completo, mas jamais torturador, foi, investigou, constatou, entregou o relatório pessoalmente a Castelo. Este, diante das afirmações, determinou que tudo ficasse em sigilo. (Como em sigilo está até hoje, documento que devia ser publicado).

Exemplos da isenção dos militares fora do Poder, são incontáveis. Os jornalistas do Pasquim, presos na Via Militar, tinham o tratamento do Exército e não dos carreiristas do Poder. Ficaram  nos Paraquedistas, o comandante, estando à noite no quartel, convidava 2 ou 3 (dos 11) para jantar com ele. Isso é a melhor prova da diferença de tratamento.

 ***

PS – Meu tratamento nos quartéis da ditadura, era de intimidação e ameaça. Sem tortura, tinham medo que acontecesse comigo o que aconteceu com Herzog. Nos meus sequestros-confinamentos, era entregue ao Exército Nacional. Todos me diziam: “Não temos nada contra o senhor, cumprimos ordens”.

PS2 – Em Fernando de Noronha, serviam 13 oficiais. Almoçava e jantava com eles, não havia outra forma. O comandante, coronel Costa e Silva (nenhum parentesco) não fez curso de Estado Maior para não ser promovido, queria morar na ilha.

PS3 – Como o padre professor de português do secundário, estava de férias, o coronel me pediu para substituí-lo, uma forma de servir e mostrar que não havia animosidade.

PS4 – O “arrependimento” de muitos que tomaram o Poder pela força, se localiza aqui: como digo no título destas notas, poderiam ter ENTRADO NA HISTÓRIA executando as grandes reformas imprescindíveis. Da reforma agrária à reforma partidária, duas que desprezaram  eternamente.

PS5 – O Exército sempre foi popular no Brasil. Mas alguns generais, totalmente carreiristas, desperdiçaram essa popularidade. Agora, o tempo é de reflexão e não de punição. Tarefa que deve ser executada por civis e militares, como era para ser no INÍCIO DA REPÚBLICA.

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