O fantasma da Europa

Sebastião Nery

FRANKFURT – Civilização e democracia moram em banca de jornal. O primeiro grande choque que tive quando cheguei à União Soviética, pela primeira vez, em 1957, e a Cuba, em 1960, foram as bancas de jornais. Pareciam biroscas de beira de estrada no sertão da Bahia, vendendo cachaça, cigarro, fósforo e vela. Em Moscou, eram o “Pravda” e o “Komsolmovskaia”, e duas ou três revistas horrorosas.

Em 1996, voltei aqui de passagem, fui a uma banca de jornal e, como não sei alemão, peguei uma revista e um jornal de Londres, Paris, Roma e Madrid. E fui procurando entender aquela esperta esquizofrenia que chamavam de “globalização” e que na verdade era a nova máscara do colonialismo e do imperialismo, velhos e sórdidos de séculos.

Agora, outra vez aqui, novamente vou às bancas de jornais e percebo que a Europa de 2012 é a mesma Europa de 1996 : mergulhada em crises. E por culpa dos mesmos males de há quinze anos: a especulação financeira.

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MARIO SOARES

O estadista e ex-presidente de Portugal Mario Soares denuncia agora:
– “A Europa está entregue aos especuladores. É preciso uma ruptura com os neoliberais porque a democracia está em jogo”. Fala em “vergonha” “roubalheira”, “criminosos”, quando se refere às “agencias de classificação de riscos, que vêm se impondo aos governantes europeus”.

Em 96, o diretor do Instituto de Estudos de Paris, Alain Touraine, publicava brilhante texto: “O Que Deve Ser uma Política de Esquerda” :

1 – “É fácil definir uma política de direita: é adequar a economia e a sociedade nacionais às exigências dos mercados internacionais, em particular dos mercados de capitais. Esta idéia é retomada por todos os que pensam que, para continuar sendo competitiva, a Europa deve aceitar um retrocesso de seus sistemas de proteção social. É preciso opor-se a estas opiniões. Por que os professores franceses, com maior esperança de vida, se aposentam antes da idade legal para todos os trabalhadores?”

3 – “Na França, o primeiro partido operário não é nem o partido comunista nem o partido socialista, mas a “Frente Nacional”, o partido fascista de Le Pen, em quem votam 30% dos trabalhadores”.

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MICHEL ROCARD

No “Le Monde”, Michel Rocard escrevia apavorado sobre o desemprego (foi primeiro-ministro de Mitterrand):

– “O desemprego continua a aumentar, com seu cortejo de desgastes sociais irremediáveis. Àqueles que consideram que o trabalho é apenas fruto das adaptações produzidas pelo mercado é preciso perguntar-lhes quanto seu cálculo os levará a esperar ver criar empregos ou desaparecerem os desempregados por meio de taxas de crescimento de 3%, 4% ou 5% ”.

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GLOBALIZAÇÃO

O correspondente em Paris do “El Pais” fazia uma análise dramática do que a globalização estava fazendo com a França:

– “Chirac e Juppé, presidente e primeiro ministro da França, afundam em um pântano de desemprego, problemas econômicos, corrupção político financeira e desânimo social. A globalização (os espanhóis chamam “mundialização”), esse estranho fenômeno que obriga o desmantelamento do “estado do bem-estar” e a viver pior e a sacrificar a política racional no altar de uma economia imprevisível, é a besta negra dos franceses e um autêntico maná para a ultra-direita”.

– “A angústia, o medo dos assalariados é colossal”, dizia o sociólogo Henri Vacquim, em seu livro “O Sentido de Uma Cólera”.

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DESEMPREGO

Philipe Séguin, presidente da Assembléia Nacional, um conservador, com prestígio entre os intelectuais, advertia no “L´Express” sobre o desemprego, o grande fantasma deste fim de século. Dizia à insensibilidade e estupidez dos políticos e economistas que imaginam que se pode deixar o desemprego para tratar depois: – “Pode virar um tornado e arrastar tudo”.

1 – “O que verdadeiramente me preocupa não é o conjuntural. É o desemprego estrutural. Cuidando apenas do conjuntural, continuaremos a tratar do desempregado que é inadaptado à sociedade. A sociedade é que não está adaptada ao objetivo do pleno emprego”.

2 – “O PIB da França cresceu 70% em 20 anos. O numero de desempregados quadruplicou. Um belo crescimento não bastará para trazer o pleno emprego. Trazer os déficits públicos e sociais a menos de 3% do PIB, com um crescimento inferior a 3%, é masoquismo.

3 – “Os “experts” não são apenas os donos do pensamento único, esses técnicos que sabem mais do que os outros e a quem se dá plenos poderes. São também os mercados financeiros, cujo poder substituiu os poderes dos políticos, com a concordância destes. Esses mercados financeiros ditam de fato sua lei aos políticos. O governo inverteu”.

Quinze anos depois,não mudou nada na Europa. O fantasma é o mesmo.

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