O futuro depois da derrota

Carlos Chagas

Em tempo de eleição  os candidatos só pensam na vitória. Fala-se de candidatos para valer, é claro, dada a  existência daqueles que entram nas disputas eleitorais para fazer figuração ou até  por questões patológicas. Mas os verdadeiros candidatos  nem de longe raciocinam com a derrota. Pensarão nela quando chegar a hora.

Mesmo assim, aqui de fora, não nos sentimos limitados para deixar de imaginar o que acontecerá com os derrotados. Qual o futuro deles?

Vale começar com o mais velho. José Serra, caso perca a eleição, não repetirá o percurso anterior, de candidatar-se a prefeito de São Paulo, depois a governador do estado. Menos pelos seus 68 anos de idade, mais  por enfado, quem sabe  por  cansaço. Perdendo a corrida para o único cargo que ainda não exerceu na política, a presidência da República, tudo indica a disposição de recolher-se à vida acadêmica. Quem sabe aceitará  consultorias em empresas privadas? Afinal, não sendo rico, apesar das aposentadorias de prefeito e governador, precisará prover o futuro com algum trabalho. Dificilmente  admitirá permanecer no primeiro plano da política tucana, fazendo oposição a um novo governo do PT.

Já Dilma Rousseff, se não for eleita, também precisará trabalhar. Não é mulher para ficar apenas cuidando dos netos e nem dispõe de patrimônio capaz de garantir-lhe o ócio. Como executiva, enriqueceria qualquer empresa privada.  Poderá, com facilidade, integrar governos estaduais chefiados por companheiros e aliados, do Rio Grande do Sul, se Tarso Genro eleger-se, ao Acre, com Tião Viana. Não aceitaria qualquer participação num  governo do PSDB, se lhe fosse oferecida.  Continuaria na linha de frente do PT, junto com o Lula.

Marina Silva sabe estar plantando para o futuro. Deixa  uma reeleição  mais do que certa no Senado, muito possivelmente disputará outra vez o palácio do Planalto, em 2014. Permanecerá como férrea defensora de causas ecológicas e ambientais.

Quanto aos candidatos à  vice-presidência, mais sofrerá Michel Temer, com a derrota. Pensará sempre que poderia ter  permanecido na presidência da Câmara pelo biênio 2011-2012, desde que se reelegesse,   não fosse a ambição de tornar-se companheiro de chapa de Dilma. Fora de seus planos estará a disputa municipal  de daqui a dois anos, em São Paulo, restando-lhe retornar como deputado em 2014.

Sobre o Índio da Costa, lamentará apenas haver trocado a Câmara Federal pelo sonho  de ser vice sem voto, mas, pela pouca idade, poderá imaginar-se nas eleições para a prefeitura do Rio, dentro de dois anos.

Em suma, hoje os candidatos referidos torcerão o nariz diante de qualquer  pergunta sobre uma eventual  derrota, que não aceitam.  Ou será que lá no fundo,  bem no fundo, a hipótese já foi cogitada por eles?

No reino da fantasia (1)

A gente não sabe o que é mais singular: se os tribunais eleitorais continuarem  multando o presidente Lula e Dilma Rousseff por propaganda antecipada e abuso de poder ou  se  os pedidos de desculpa dos dois. Porque já são sete multas para cada um, se hoje não apareceu   mais alguma.  O presidente e sua candidata continuam fazendo o que bem entendem, assim como José Serra e o governador Alberto Goldman. Dão de ombros para a legislação eleitoral, aliás, legislação burra. Até agora não pagaram um centavo, encontrando-se  as penalidades em grau de recurso.

Mesmo se não estivesse em recesso, não daria  para o Congresso mudar as regras do jogo em nome da liberdade de expressão, mas algum dia, a partir do ano que vem, essa floresta de obstruções acabará desbastada. Desde que não se façam campanhas com dinheiro público, inexistem motivos para impedi-las. Quem se desgasta é a justiça eleitoral.

No reino da fantasia (2)

Todo mundo escorrega, José Serra também teve o seu dia.  Falando a empresários de Goiás, saiu-se  com a seguinte definição: “o papel mais importante do empresário não é ficar rico, mas gerar empregos e ajudar a construir o Brasil.”   A platéia não riu por delicadeza.

Economia aquecida

Divulgam os jornais que os Estados Unidos já gastaram mais de  um trilhão de dólares na luta contra o terror.  Boa  parte dessa inimaginável soma serviu para operações militares,  produção e aquisição de material bélico e de sofisticados aparelhos para monitorar terroristas.  Feliz, mesmo, está o complexo  industrial-militar denunciado pelo presidente Eisenhower no discurso em que passou o poder para John Kennedy.  Um refrigério na economia americana, só superado durante a II Guerra Mundial. Lucro para muitos. Empregos, também. Acontecerá o quê, se o terror for completamente extirpado?

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