O golpe para acabar com o golpe (2)

Carlos Chagas

O deputado Carlos Luz, presidente da Cmara, assumira uma semana atrs a presidncia da Repblica, terceiro que era na linha sucessria. Getlio Vargas dera um tiro no peito, um ano e dois meses antes, e o vice-presidente, Caf Filho, licenciara-se para tratamento de sade. At hoje pairam dvidas a respeito: teria ele realmente passado mal, cardaco que era, internando-se no Hospital dos Servidores do Estado, ou tudo no passava de uma farsa armada para impedir a posse do presidente democraticamente eleito em outubro, Juscelino Kubitschek?

Afinal, Luz formava na bancada golpista, apesar de mineiro e do PSD. Caf no teria tido coragem para rasgar a Constituio, afastando-se para que a trama se desenvolvesse. O sucesso do impedimento da posse de JK repousava nas foras armadas, com a Marinha e a Aeronutica francamente favorveis ao golpe, mas com o ministro da Guerra, general Henrique Lott, sustentando a legalidade. Como o Exrcito era o ator decisivo entre os militares, nada se faria sem o afastamento daquele chefe rgido, cultor da lei e dos regulamentos, ranzinza e apoltico.

A partir da crise eclodida com o discurso do coronel Bizarria Mamede em favor do impedimento de Juscelino, e com Lott pretendendo prend-lo, sem poder, j que o oficial estava subordinado presidncia da Repblica, surgiu a oportunidade para os golpistas afastarem o ministro. Carlos Luz manteria Mamede em liberdade e Lott, cioso de sua autoridade, pediria demisso, como pediu.

A reviravolta lembrada no captulo anterior revelava o Exrcito unido em torno da Constituio e de seu ministro.

Carlos Luz foi acordado de madrugada, em seu apartamento de Copacabana, informado de que o Exrcito ocupava as ruas do Rio. Dirigiu-se ao palcio do Catete, cercado de alguns ministros e parlamentares empenhados na quebra da democracia. Logo verificou o risco de permanecer na sede do governo, prestes a ser ocupada pelos soldados do ministro da Guerra. A sugesto foi para que se dirigissem ao Arsenal de Marinha, para onde tambm acorreram alguns coronis do Exrcito adversrios da posse de Juscelino. Dos dois cruzadores da Marinha, o Tamandar e o Barroso, apenas o primeiro encontrava-se em condies de navegabilidade e, mesmo assim, precria. Nem todas as caldeiras funcionavam, e em matria de provises, havia mais goiabada do que arroz e feijo. Mesmo assim, com os comandantes da Marinha dispostos resistncia, Carlos Luz aceita o convite para embarcarem na belonave e seguirem para So Paulo, onde ele instalaria o governo legtimo, imaginando-se que o governador daquele estado tambm formava entre os golpistas.

NO TAMANDAR

Instalam-se como podem nos camarotes da oficialidade e logo o Tamandar se movimenta, ainda que aprisionado na baa da Guanabara, j que trs fortalezas do Exrcito dominavam a sada, alm de outras situadas bem prximo. Os avisos transmitidos por bandeiras, das fortalezas, alertavam estar proibida a passagem de navios de guerra, mas o almirante Pena Botto, maior patente a bordo, ordena ao comandante do cruzador, Silvio Heck, para forar a passagem.

A essa altura, j na manh do dia 11 de novembro, o ministro Lott estava informado de tudo. Inflexvel, determina que o Tamandar seja posto a pique, se tentar escapar.

Foi quando os primeiros petardos das baterias das fortalezas comeam a pipocar. Havia nevoeiro na baa da Guanabara e uma embarcao estrangeira de passageiros ganhava o alto-mar. A instruo do almirante, alis, presidente da Cruzada Anti-Comunista, foi de a belonave valer-se da proteo do navio civil e fugir da armadilha. Com os tiros j fora da barra, o convs esvaziado, os passageiros refugiam-se no interior e Pena Botto manda chamar um dos coronis do Exrcito partidrios do golpe, Jaime Portella, da arma de Artilharia. Sentem os primeiros impactos, todos caindo na gua, mas a concluso do militar foi de que dentro de poucos minutos um tiro acertaria no navio. Os artilheiros da costa estavam acertando a pontaria. Seno pnico, houve muito medo por parte dos civis a bordo.

Como estamos no Brasil, graas a Deus, o Tamandar seguia como podia, afastando-se do litoral. Ficou demonstrado, depois, que os oficiais das fortalezas do Exrcito no afundaram o navio da Marinha porque no quiseram. Erraram os tiros de propsito para no derramar sangue de seus irmos.

Lott ficou uma fera, mandou punir os artilheiros. Mas estava lavada a honra dos contendores. Uns porque conseguiram furar o bloqueio. Outros porque evitaram uma carnificina. (continua amanh).

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