O homem de março

Sebastião Nery

Na tarde de 22 de agosto de 1961, às dezessete horas, o presidente da Assembléia Legislativa de São Paulo, Abreu Sodré, o presidente de Centro Acadêmico 22 de agosto da PUC paulista, Mário Garnero, políticos e jornalistas receberam no aeroporto de Congonhas o governador Carlos Lacerda, da Guanabara.

O Centro Acadêmico da PUC estava realizando uma “Semana da Unidade Nacional”, e convidou treze governadores, outros políticos, empresários e jornalistas para falarem, ao longo da semana, no auditório da TV Excelsior, que transmitia as palestras e debates ao vivo.

Quando Lacerda chegou ao auditório, foi recebido por uma pequena multidão. A muito custo o governador da Guanabara conseguiu alcançar o auditório, enquanto lacerdistas e esquerdistas se engalfinhavam.

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SERRA

Os esquerdistas soltaram urubus na porta do auditório. Quando as cortinas foram abertas, começou a vaia, que só parou durante a execução do Hino Nacional. A confusão se generalizou.

Ricardo Zaratini, um estudante grandalhão, invadiu o palco, disposto a avançar sobre Lacerda. A palestra de Lacerda virou discurso e durou duas horas. O programa teve grande audiência e, no dia seguinte, o episódio estava na primeira página dos jornais.

Os esquerdistas eram liderados pelo então presidente da União Estadual dos Estudantes de São Paulo e, em 1963, da UNE, José Serra,

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FERNANDO HENRIQUE

No fim de 2002 e do seu segundo mandato na presidência Republica, Fernando Henrique Cardoso conversava no palácio da Alvorada, em Brasília, com José Serra, candidato do PSDB, do PFL e da maioria do PMDB à sua sucessão, e numerosos lideres tucanos, sobre a escolha do seu candidato a vice, quando Serra falou em Itamar Franco.

Fernando Henrique perguntou:

– Serra, e se você morrer?

Isso os jornais contaram. Mas esconderam o resto da pergunta :

– Serra, o Itamar é confiável? Ele assume e vai perseguir até o fim a todos nós, que ficamos vivos.

Mal Serra saiu, Fernando Henrique, que sabia que ele já tinha convidado Jarbas Vasconcelos, que não aceitou porque não ia deixar o governo de Pernambuco, e Itamar Frasnco, mandou Pimenta da Veiga vetar imediatamente Itamar em nome do PSDB de Minas, e Gedel Vieira Lima vetar em nome do PMDB oficial.

Com o veto de Fernando Henrique no PSDB e no PMDB, Itamar, que vinha credulamente conversando com Aécio Neves e havia anunciado que só falaria na noite de sexta-fera, 5, antecipou a decisão para a manhã de sexta e ficou no governo para disputar a reeleição e discutir o apoio a Lula.

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GASPARIAN

O Conselho Editorial da “Editora Paz e Terra” era assim: Antonio Candido, Celso Furtado, Fernando Henrique Cardoso. O dono e editor, Fernando Gasparian. Foi assim que a “Paz e Terra” nasceu.

Cansados de brigarem com Ulysses Guimarães e Orestes Quércia, porque queriam controlar o PMDB de São Paulo para lançarem Mário Covas à Presidência da República nas eleições de 89, os então senadores Mário Covas e Fernando Henrique Cardoso, e os deputados José Serra e Fernando Gasparian, todos do PMDB de São Paulo, reuniram-se uma noite em São Paulo, durante a Constituinte, para fundar um novo partido.

Serra fez longa exposição defendendo o fim do Estado forte, o neoliberalismo e as privatizações. Gasparian não gostou:

– Nesse partido eu não entro. Vai ser uma UDN entreguista.

Os três participaram do comando da fundação do PSDB. Gasparian continuou no PMDB.

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MARÇO

José Serra é assim. Desde a UEE (União Estadual dos Estudantes de São Paulo) e depois a UNE (União Nacional dos Estudantes), quando presidiu as duas, sempre foi assim. Não manda recado. Debate e defende suas opiniões e posições abertamente,

O mês de março é dele. Nasceu em 19 de março (dia de São José) de 1942. Em 13 de março de 1964, como presidente da UNE, foi o mais jovem orador do histórico comício em defesa das “Reformas de Base”, diante da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, comandado por João Goulart, Leonel Brizola, Miguel Arraes, Francisco Julião, os lideres sindicais Clodsmith Riani, Dante Pelacani, Mario Lima , outros. Todos mortos. Vivo, só Serra.

Agora, neste março, decide afinal disputar a prefeitura de São Paulo, forçando a antecipação e abertura de um processo político nacional que vai desaguar nas eleições de 2014, quaisquer que sejam os resultados de 2012.

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