O Iluminismo e as guerras

Roberto Nascimento

O historiador francês Jaques Semelin estudou as condições sociais em que ocorreram genocídios. Em seu recente livro “Purificar e destruir” (Difel, tradução de Jorge Bastos), Jaques faz um estudo comparativo das guerras e limpezas étnicas no mundo.

Na entrevista que deu ao repórter Miguel Conde da seção Prosa e Verso de 20 de fevereiro de 2010, Jornal O Globo, questionado se o Holocausto teria surgido como consequência de projetos utópicos dos pensadores modernos do período do Iluminismo, respondeu não acreditar que no Ideal das Luzes tenha se criado as raízes das mortes em massa.

Porém, asseverou que alguns autores Iluministas contribuíram para por em marcha utopias homicidas, tais como: ideal nacionalista, que prega a destruição dos estrangeiros, presentes no nazismo, no stalinismo e no colonialismo (extinção das comunidades indígenas da América Central e Latina).

Nestes casos, há uma racionalidade do Estado no intuito de matar com base em critérios supostamente científicos. Semelin entendeu que se trata de uma racionalidade insana e delirante o assassinato em massa.

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PODER OCULTO DA CULTURA

O historiador francês resiste desde a adolescência à perda progressiva da visão, asseverando que para enfrentar a limitação visual, apenas a educação e a instrução oferecem uma saída. A cegueira progressiva o aproximou de todos que vivem alguma forma de dificuldade ou injustiça, nem por isso pretende dramatizar seu caso, pois existem situações piores em todos os lugares do mundo. Com a ajuda de seus próximos, Jaques lê, viaja, escreve, estuda e tem a sensação de viver uma vida (quase) normal.

Em seu trabalho de pesquisa, concluiu que os pensadores Iluministas estavam enganados sobre o poder da cultura em libertar o homem da barbárie. De per si a cultura não possui ela mesma tal virtude, ao contrário, a cultura pode dar ao homem os meios de ser mais inteligente no exercício da violência, se não da crueldade. O homem instruído, se seu coração é mal concebido, se ele transborda de ódio, será ainda mais malfeitor.

A cultura não seria em si mesma uma defesa contra a barbárie. Ela dá, ao contrário, armas aquele que deseja justificar racionalmente suas emoções e suas paixões de poder global, conforme, por exemplo: A tentativa do império romano e do nazismo em conquistar o mundo.

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DESTRUIÇÃO DO INIMIGO

Em diversos períodos da humanidade, se massacrou em nome da pureza étnica, para se livrar de um inimigo percebido como “impuro”, encarnação do mal e do diabo. Com frequência os homens justificam seus crimes em nome de Deus. Os exemplos são muitos: A Noite de São Bartolomeu, na qual, se mataram católicos e protestantes, as Cruzadas e muito mais.

A retórica purificadora que leva os homens aos assassinatos em massa vem associada a outro tema fundamental: o da segurança. Ou seja, o grupo se sente em perigo, temendo que outro grupo planeje destruí-lo, então se estabelece o dilema: ou ELES ou NÓS. Conclusão: já que eles têm a intenção de nos matar, devemos matá-los primeiro. Aquele que se apressa em tornar-se assassino se apresenta como vítima. Qualquer semelhança entre os conflitos interpessoais que ocorrem no dia-a-dia das empresas e instituições é mera coincidência.

 

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