O incêndio de Jânio

Sebastião Nery

Vladimir Toledo Piza era prefeito de São Paulo. Jânio, governador, estava uma noite na casa dele. Chegou a notícia de um grande incêndio. Toledo Piza levantou-se:

– Vamos lá, governador. Vou trocar de roupa, rápido.

– Não vou, não. Não gosto de incêndio. Me comove demais.

E saiu. O prefeito pôs um casaco, foi. Quando desceu do carro, no meio da multidão, viu outro carro chegando. Era Jânio, envolto num enorme e pesado capotão preto, os olhos arregalados, os cabelos desgrenhados:

– O que está havendo, senhor prefeito?

– Este incêndio, governador. Um incêndio horrível.

– Quando você soube?

– Agora, em casa.

– Eu também. Estava dormindo, despertaram-me, não tive nem tempo de tirar o pijama, calçar os sapatos. Enrolei-me neste sobretudo, consegui um táxi, para trazer minha solidariedade ao povo que sofre as dores do fogo, da fumaça, da morte.

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JÂNIO

Jânio abriu o capote, estava com o pijama cor-de-rosa até os joelhos, canelas brancas de fora. E os pés enfiados em duas sandálias velhas. Como um fantasma inglês.

Toledo Piza não entendeu a conversa atravessada, olhou em volta. Jornalistas e fotógrafos já estavam de canetas e máquinas com Jânio.

Toledo Piza contou a história ao general Zerbini:

– Quem conhece o Jânio sou eu, general. Ele não respeita nem incêndio.

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ANGRA

Ninguém queria que o governador do Rio, Sérgio Cabral, surgisse de repente de pijama cor-de-rosa ou de cueca na tragédia de Angra dos Reis em 2010. Depois, em 2011, também não foi na tragédia da Região Serrana. Mas ele estava ali ao lado, colado, junto, em Mangaratiba, em sua tão questionada e marcelamente filmada casa de praia, a menos de 50 quilômetros da catástrofe. Não custava lembrar-se de que é governador.

Pois lá não foi o primeiro dia. E em quase todo o segundo dia. Quando apareceu, o vice Pezão, o Corpo de Bombeiros e o prefeito Tuca Jordão já tinham tomado as primeiras, urgentes e inadiáveis providências.

E não foi só ele. O então ministro Carlos Minc, do Meio Ambiente, também evaporou. Não sei se ainda estava na Dinamarca. Deve ter ficado como Sérgio Cabral: esperando a TV Globo chegar antes, para já entrar ao vivo.

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SÉRGIO CABRAL

Jânio era meio doido, mas sabia dos deveres do homem público. Tem que enfrentar as situações, sobretudo as catástrofes. Quanto mais inesperadas, mais exigem sua presença. Não foi eleito apenas para ir a Paris, participar de convescotes em Nova York e secretariar Ricardo Teixeira.

Tudo bem que ele só queria fazer o que seu mestre Lula faz. Mas não precisa imitar o erro. Quando o avião da TAM explodiu em Congonhas, Lula, que vai a São Paulo semana sim e a outra também, foi incapaz de ir lá. Insensibilidade não pode ser regra do governo.

É até chato ficar citando exemplos eternos. Mas é só comparar com o comportamento do francês Sarcozy, do espanhol Sapatero, do inglês Brown, do português Sócrates e até do trêfego Berlusconi. Estejam onde estiverem, vão imediatamente ao local das tragédias. Lula continuou carregando na cabeça, para a praia da Bahia, seu isopor de uísque, gelo e cerveja, que “O Globo” sabujamente disse que era um isopor “de farofa” (sic).

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LULA

Não quer dizer que os dirigentes lá de fora sejam virtuosos e os daqui não. A diferença é que lá existe uma coisa chamada imprensa, imprensa de verdade,  está em cima, cobra dos governos, dos governantes e quando precisa denuncia. E a população também. Está sempre atenta e exigente. Infelizmente, nosso querido povo brasileiro é cada dia mais uma massa moluscada, alienada e “bigbrodeada”. Por isso os políticos deitam e rolam. E aquele gaúcho diz que continuará “se lixando”, porque, quando chegarem as eleições, vão continuar votando nele. E votarão mesmo.

O absurdo do comportamento do governador Cabral não é apenas uma questão de displicência e insensibilidade. É muito mais grave. São atos de governo que revelam no mínimo acobertamentos espúrios. Todo mundo sabe que Angra dos Reis e a Região Serrana têm um permanente problema de riscos e perigos ambientais. Tem que ser tratada cada dia mais com severas medidas.

Pois  em 19 de junho de 2009, o governador baixou o decreto 41.921, absolutamente inconstitucional, “legislando para afrouxar as regras de proteção ambiental, para permitir construir mais e mais nos morros e encostas”, com apoio do ex-prefeito (8 anos) Luis Sérgio (PT) e do atual Tuca Jordão (PMDB). Ou seja, criou novas tragédias  anunciadas.

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