O inexplicável comentário do Lula

Carlos Chagas

Ponto para Dilma Rousseff, a ser verdadeira a informação de o ex-presidente Lula temer que ela fique afastada de sua base parlamentar, caso continue demitindo funcionários acusados de corrupção no ministério dos Transportes. Porque mesmo se despertar amuos e indignação nos partidos que a apóiam, a atual presidente  credencia-se junto à população, em especial a classe média.                                                        

Resta saber se o Lula anda com ciúmes ou se começa a ter receio da limpeza promovida pela sucessora, porque, afinal, quem permitiu a montagem do esquema de corrupção nos Transportes foi ele mesmo. Impossível, nos seus oito anos de governo,  ele não ter tido notícia da lambança promovida por Alfredo Nascimento, Waldemar da Costa Neto, Luiz Antônio Pagot e o resto da quadrilha.                                                       

Estaria o antecessor adotando medidas acautelatórias para o caso de algum desses singulares “republicanos” abrir o bico ou jogar barro no ventilador? De qualquer forma, é profundamente injusto o comentário do Lula. A parte podre de sua base parlamentar do governo apenas depõe contra quem estimulou sua formação. Se for preciso passar o rodo em ministérios dominados pelo PMDB,  o PT, o PTB e penduricalhos, que assim aconteça  no mais breve espaço de tempo possível. O que não dá é assistir o governo transformado num balcão de negócios por partidos que lhe dão respaldo no Congresso.

Apesar do recesso do Congresso, ontem, em Brasília, aguardava-se com ansiedade um desmentido do Lula ao suposto  comentário divulgado pela Folha de S. Paulo. Em   especial no palácio do Planalto. 

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SISTEMA, SÓ O MÉTRICO-DECIMAL                                                        

Já posto em  desgraça, nos idos de 1978,   o ex-ministro do Exército, Silvio Frota, opinou que a reforma institucional proposta pelo presidente Ernesto Geisel feria os interesses do “sistema”, que não concordava com o fim do AI-5 e a extinção da pena de morte e de prisão perpétua para os subversivos. Geisel, num dos seus raros  momentos de bom-humor,  comentou que o  único sistema que conhecia era o métrico-decimal.                                                         

O substantivo faz muito deixou de ser usado, mas ganhou um sucedâneo: é a “base” de apoio parlamentar do governo. Em nome dela age há seis meses  o fisiologismo explícito. Partidos como o PMDB, o PT, o PTB e penduricalhos, da mesma forma como o PR, ameaçam constantemente o palácio do Planalto com rebeliões, recusa de votação dos projetos oficiais e criação de empecilhos ao Executivo, caso não se vejam atendidos em seus pedidos de nomeações, benesses e ocupação de setores da administração  pública.

Não deixa dúvidas a reação da presidente Dilma, demitindo até agora 13 altos funcionários do ministério dos Transportes: a “base” que se cuide, já que suas ameaças só fazem aumentar o prestígio do governo junto à opinião pública. 

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ESFORÇO CONCENTRADO                                                        

Mesmo estando o Supremo Tribunal Federal em férias, um grupo de ministros insiste em que um esforço concentrado deve ser feito neste segundo semestre para julgar até dezembro os mensaleiros, que lá, como réus, respondem a processo criminal. Seria mais lógico que as sentenças influíssem menos nas eleições do ano que vem, fator que fatalmente  pesará nas tendências do eleitorado. Mesmo sem ser   candidatos a vereador e a prefeito, caso postos na cadeia os mensaleiros prejudicariam seus respectivos partidos, do PT ao PMDB, ao PTB e ao PR.

O  relator dos processos, ministro Joaquim  Barbosa, está de licença médica, mas ficará feliz se seus colegas  ajudarem para rápida decisão. 

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PELA SEGURANÇA PÚBLICA                                                       

A violência urbana e rural só faz aumentar, aponta o  noticiário dos meios de comunicação impressos e  eletrônicos. Deixando para outro dia a constatação de ser o desemprego a maior de suas razões, fica evidente a impossibilidade de uma  ainda maior blitz pela criação de novos postos de trabalho trazer imediata tranquilidade ao cidadão comum.  A médio e longo prazo dará certo, mas a curto nem pensar.

Assim, se o governo pretende tornar mais segura a vida em sociedade, só terá uma saída: ampliar os serviços de segurança, botar a polícia nas ruas e estradas, ampliar as instalações prisionais e reformar o Código de Processo Penal para  reduzir drasticamente o número  de recursos utilizados pelos bandidos presos  num dia e postos em   liberdade no  outro.

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