O inexpressivo Ral Castro ficou 40 anos esperando. Agora prope eleio livre, naturalmente depois de 10 anos para ele. Cumpridos esses 10, Cuba precisar de mais 10 (sero 20) para acabar a runa e a decadncia. Fidel, mesmo ditador, ser julgado pela Histria.

Helio Fernandes

Estive varias vezes em Cuba, como estive em outros lugares. Uma vez, a primeira, com o Sargento Batista presidente, corruptssimo. Foi deposto, no por algum movimento revolucionrio, mas sim por insatisfao dos scios, empresrios que exploravam turismo, e principalmente jogo, os cassinos eram fantsticos.

Voltou ao Poder. Quando visitei o pas pela segunda vez, era marechalssimo. Apoiado por grupos internacionais, vorazes e gananciosos, dominava de verdade, dava a impresso de que no sairia mais. No ligou para Fidel Castro, que descia avassaladoramente para Havana.

No Ano Novo de 1959, Batista fugia covardemente, sem um tiro. E to apressadamente, que esqueceu (?) no aeroporto, uma pasta com 450 mil dlares, para ele significava muito pouco. Principalmente comparado com o que tinha no exterior. O importante era fugir para onde estava esse dinheiro.

Acabava uma Era, comeava outra. No Brasil tambm. Janio Quadros assumia garantindo que revolucionaria tudo, no deu tempo nem para ele mesmo. Mas a campanha foi interessantssima, participei da metade dela. Em maro de 1960, Jos Aparecido, o crebro por trs de Janio, resolveu inovar.

Fidel Castro era atrao mundial. Sem provocar medo ou reao assustadora, era elogiado ao mesmo tempo pelo Papa, pela Unio Sovitica e pelo New York Times. (Seu editor-chefe, Herbert Matthews, tinha casa de fim de semana em Havana).

Aparecido fretou um avio particular e fomos para Cuba. 30 pessoas, 27 jornalistas. E mais o quase presidente, o deputado Adauto Cardoso, que queria ser ministro da Justia e no foi. E o tambem deputado Afonso Arinos, que pretendia o Ministrio das Relaes Exteriores, e conseguiu.

Foram 9 dias admirveis, inesquecveis. Eu estava ainda no Dirio de Noticias, como sempre, mandava artigo e coluna diria. Andvamos na rua, Fidel no tinha segurana. Com ele, jamais faltava, Che Guevara. Ainda no era to famoso quanto Fidel, mas lembro que escrevi, quem me impressionou de verdade foi Guevara. Lgico que Fidel tinha charme e liderana incontestvel, mas Guevara era pessoalmente irresistvel.

Nos encontrvamos invarivel e diariamente na residncia do Embaixador do Brasil (mais tarde chanceler) Vasco Leito da Cunha. Foi na sua casa que aconteceu o roubo da arma de Fidel, muito comentada, jamais esclarecida. Supunha-se (suspeitava-se?) que fosse um dos 27 jornalistas. Mas no houve o menor indcio.

Nesses 9 dias, no vi (e lgico no falei) por um minuto que fosse, com o Comandante das Foras Armadas, o silencioso e sempre ausente Ral Castro. Manteve esse forma discreta durante 40 anos, esperando, saberia o qu? Inicialmente, Ral, o nico comunista da famlia, teve a intuio e a certeza de que no existia mesmo.

Em 1987 voltei a Cuba para um extraordinrio Seminrio sobre Dvida Externa, (ainda no havia a degradante Dvida Interna), Ral no apareceu nem aparecia. Tentei entrevist-lo, delicadamente as secretrias diziam, o comandante est com a agenda cada vez mais sobrecarregada.

Depois, at a doena de Fidel, vrios embaixadores do Brasil, nessa condio, (afinal o Brasil mantinha excelentes relaes com Cuba) no conseguiram falar com o comandante, de modo algum. Isso revelado pelos prprios embaixadores.

Agora, quem manda e desmanda o irmo Ral (perdo, o enclausurado Partido Comunista). Fidel est completamente fora de cena, no visita nem visitado por ningum. Nem mesmo pelo irmo presidente, agora com todos os Poderes que ningum imaginava que pretendesse e passasse a exerc-los assim que Fidel ficou doente (e agora doentssimo, apareceu sem saber a razo).

Isso no tem a menor importncia. Quando Fidel se for, os 12 milhoes de cubanos, choraro inconsolavelmente, a palavra. Insatisfeitos mais social do que politicamente, lamentando no terem sado da pobreza (e da misria), mas mostrando que Fidel e ser inesquecvel.

No s em Cuba, e sim no mundo inteiro. Ser Primeira de todos os jornais do mundo, escrevero editoriais que julgaro relevantes e imperdiveis. CONTRA ou A FAVOR, ningum estar julgando Fidel Castro, no se julga a Historia. E Fidel, gostando ou no gostando, Histria pura, interpretada das formas mais diferentes. Ditador? Sem nenhuma dvida, mas que personagem.

Sobre Ral s se escrever para contest-lo ou question-lo. Prope a escolha dos homens pblicos, por 5 ou 10 anos. No fala na Presidncia, no cita seu nome, mas lgico, que quando fixa a durao no Poder, 5 ou 10 anos, no esquece dele mesmo. Como de praxe dos regimes ditatoriais, ganhou o titulo de Secretrio Geral, quem manda. (Excludo o Partido Comunista, que s no teve fora com Fidel, este no aceitava nem permitia).

Quando Nixon, presidente dos EUA, revolucionou a poltica americana e surpreendeu o mundo indo China, em 1969, seguiu a hierarquia. Foi recebido pelo Secretario Geral do PC e Primeiro Ministro, Chou Em Lai, mas se arrojou mesmo, aos ps de Mao Tse Tung.

Comemoravam os 20 anos da marcha redentora, ainda no haviam descoberto (o mundo ocidental) que Mao era um Monstro. evidente que Cuba no era a China, a China, nada a ver com Cuba. Reflexo pblica de Mao: Peguei a China no Sculo X e a deixei no Sculo XX. verdade. Fidel teria feito mais, s que com aquele territrio e a populao mnima, era impossvel.

Lembrem: Mao Tse Tung morreu quase esquecido. Ningum esquecer de Fidel. Mesmo no tendo petrleo ou qualquer riqueza natural. Cuba explorada antes de 1898, quando se libertou da Espanha. E foi dominada pelos EUA.

Digamos que os 10 anos de Ral, comecem agora. (Como, quando, quem entregar o Poder a ele?) Hoje j passou dos 80 anos, normalmente ter passado dos 90 anos. Sem contar que a sua pregao, os homens pblicos sero eleitos, s valer depois dele. Nada mais natural.

Pode ser que esgotados esses 10 anos, Ral queira experimentar (em 2021) o que falou 10 anos antes, e se considere ainda em condies de exercer o Poder at os 100 anos. Ou o que der, se o corpo resistir e ajudar, j que na mente no se pode confiar. Haja o que houver, sero necessrios 20 anos para uma possvel recuperao.

Fidel tinha momentos de lapsos democrticos, que no conseguia completar. H 15 ou 20 anos pretendia fazer uma renovao dos dirigentes. Existiam na poca 26 estatais, quando ficou doente, eram 32. Estatais pequenas, proporcionais projeo e importncia de Cuba. Cada estatal tinha um presidente e dois ou trs diretores, alm de funcionrios no importantes. Eram mais de 50 jovens, quadros indicados e referendados pelo Partido.

Fidel encontrou resistncias, obstculos, divergncias. Vetos no, ningum tinha coragem. Mas esqueceu (por isso chamei de lapsos), envelheceu, o PC envelheceu, os presidentes das estatais envelheceram, no se fala ou se falou mais nisso.

Agora vem o silencioso, inoportuno, tambm envelhecido e envilecido Ral, que tenta desenvelhecer o PC. Acreditando que com isso rejuvenesce Cuba e o prprio PC, que no manda mais nada, mas ajuda Ral a mistificar. No h sada ou soluo. Os que dizem (at mesmo nos EUA) que Cuba se salvar se entrar num regime democrtico-capitalista, no conhecem Cuba ou o que vem acontecendo h 50 anos.

Principalmente nos ltimos 10, Fidel acabava, o PC cada vez mais anacrnico, j nasceu sem a menor importncia, pelo menos em Cuba.

***

PS No existe possibilidade de repetio do que Fidel fez a partir de 1957, comeando a descida da Sierra Maestra, concretizada com a tomada de Havana em 1959.

PS2 No quero defender Fidel, apenas condenar Ral, mostrando a terrvel diferena, um abismo entre eles. Se quiserem o progresso de Cuba e acabar com o retrocesso, no pode ser com Ral e seus velhinhos do PC.

PS3 Falei em 20 anos para a recuperao, (depois dos 10 de Ral) talvez seja melhor levar esse nmeros para mais longe.

PS4 Os que falam que Dona Dilma pode ajudar Cuba, esto querendo compromet-la. Com Fidel, a presidente poderia ir a Cuba enfrentando vetos e discordncias.

PS5 Com Ral, Dona Dilma no pode falar nem pelo telefone. Ele vai ligar (ora se vai), ela no pode nem atender. a realidade de hoje.

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