O lance de dados de Juanita: os heróis mudaram de nome

Pedro do Couto

Na edição de 23 de maio deste site, publiquei artigo sobre a cooptação de Juanita Castro pela CIA, através da embaixatriz do Brasil em Havana, Virgínia Leitão da Cunha, mulher do embaixador Vasco Leitão da Cunha, que no governo Castelo Branco, em 64, seria ministro das Relações Exteriores. Hoje retorno ao livro da irmã de Fidel e Raul que acaba de chegar às livrarias brasileiras. O documento é uma peça importante destinada a abrir espaços de compreensão do verdadeiro universo político, tanto o nacional quanto o internacional. Informações de dentro dos bastidores. Sem elas e sem incluir o ângulo econômico das questões ninguém analisa nada em profundidade.

A política é um cubo: tem várias faces. Juanita rolou sobre o veludo da diplomacia o seu lance de dados, título de poema famoso de Mallarmé. Em certo momento da narrativa sobre a ditadura cubana, ela destaca: em Cuba os heróis mudaram de nome. Estariam eles cansados, como no filme de Jules Dassin? Ou mudaram de rumo?

Terminei o texto de sexta-feira, reproduzindo o encontro de Juanita Castro, na cidade do México, com o agente da CIA Tony Sforza, no Hotel Caminito Real, com a presença da embaixatriz Virgínia Leitão da Cunha. Para entender claramente este artigo é bom ler o de treze de maio. “Tão logo retorne a Cuba” – disse Sforza – “receberá material para decodificar as mensagens. Um manual na encomenda. Não se deixe apanhar com ele em hipótese alguma. Se isso ocorrer, você está perdida. As mensagens serão destinadas a uma mulher chamada Donna. Será seu nome de agora em diante, para nós”. Os diálogos, narra Juanita, foram gravados. Por isso, Virgínia Leitão da Cunha permaneceu em silênci0a.

Primeira missão de Juanita: levar documentos (não revela quais no livro) e dinheiro (não diz quanto) para Cuba. No dia seguinte ao do encontro no Caminito Real, Virgínia chamou-a a seu apartamento. Nesse momento entregou-lhe uma maleta e latas de frutas em conserva. As latas estavam cheias de dinheiro. No final desse mesmo dia, Juanita voou para seu país. Meia hora depois de entrar em casa, a campainha toca. Na porta, um homem lhe disse: aqui estão os aparelhos que a senhora comprou no México. Vou instalá-los. E saiu rapidamente.
As mensagens eram transmitidas em ondas curtas, à noite, tão logo após uma emissora tocasse a valsa Fascinação. Para encerrá-las, sinal de que não haveria mais informes, ouvia-se a abertura de Madame Butterfly, ópera de Puccini.

Juanita Castro afirma que jamais recebeu dinheiro para si da CIA e as quantias percebidas as transferiu aos destinos fixados. E acentua que, de 60 a 66, explodiu uma insurreição anticastrista na Serra do Escambray. Demorou seis anos a ser sufocada. Os que sobreviveram foram para o paredão de fuzilamento.

No dia 3 de agosto, ela recebeu a informação de grande amiga sua, Raquel Perez de Miret, ministra do Bem Estar Social, portanto integrante do Conselho Revolucionário, que Che Guevara, então presidente do Banco Central e também ministro da Indústria, tinha decretado a troca da moeda do país. Quem possuia dinheiro guardado em casa, com medo de sofrer expropriação, perdeu tudo. Juanita sustenta que só passou a informação a pessoas amigas. Mas  no dia 29, voou para o México.

Tony Sforza a estava superando. Organizou com o jornalista Guillermo Vela uma entrevista coletiva: nessa entrevista, ela denunciou os crimes de Fidel, Raul e Guevara. Em Cuba, os heróis mudaram de nome, destacou. Sforza recebeu um telefonema de Virgínia Leitão da Cunha para Juanita. “O ministro do Exterior, meu marido, a está esperando no Brasil”, disse à Juanita.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *