O livro de Piketty (“O Capital no Século XXI”) e os ricos cada vez mais ricos

Flávio José Bortolotto

Bom artigo da profª e economista Mônica Baumgarten de Bolle, sobre o famoso livro do economista francês Thomas Piketty, que está fazendo tanto sucesso, e que ainda não li.

A tese central do Livro de Piketty é a de que: “Quando a taxa de rendimento do capital excede a taxa de crescimento da economia (dado pelo PIB, Produto Interno Bruto), a desigualdade (medida pelo índice de Gini) aumenta”. Os ricos ficam mais ricos, a classe média na melhor das hipóteses fica estagnada, muitos vão para trás, e os pobres ficam mais pobres inapelavelmente, tudo em relação aos ricos.

Numa época de crise financeira internacional, de “desconstrução do “american dream” (trabalhando duro e com vida austera, no fim o senhor enriquecerá), a tese aponta que para “melhorar a vida dos pobres e da classe média”, o que todos os governos buscam, e todas as oposições sonham em apresentar a receita, é preciso baixar a Taxa de Rendimento do Capital, que a meu ver gira em torno da Taxa de Juro Líquida (descontada a Inflação), que tradicionalmente é de +- 5% ao ano, via taxação do capital financeiro, ou redução dessa taxa de juro lquida, via inflação,que agiria como uma taxação indireta, e fomentar a taxa de crescimento do PIB para valores acima dessa taxa de juros líquida, via aumento do investimento privado e público.

A TESE DE PIKETTY

Pela tese de Piketty, a grosso modo, quando a taxa de crescimento do PIB é maior que 5% a/a, a desigualdade em riqueza relativa fica estagnada, sendo que altas taxas de crescimento do PIB, maiores que 5% a/a, com relativa inflação alta, reduziriam a desigualdade relativa.

A deflação (inflação negativa) favoreceria os ricos, e logicamente aumentariam a desigualdade, o que não é recomendável, e uma inflação relativamente alta controlada, digamos +- 5% a/a, diminuiria a desigualdade, favorecendo a classe média e especialmente os pobres, principalmente quando o PIB cresce a altas taxas acima de 5% a/a.

Mas a meu ver, o que causa maior desigualdade do que a diferença entre a taxas de juros líquida e a taxa de crescimento do PIB, é a desregulação dos mercados Financeiros. Esta, a verdadeira causa das crises financeiras e que permite aos investidores ganhar em pouco tempo muito mais do que o lucro normal. Isso não tem nada a ver com o capitalismo de mercados, mas tudo a ver com desregulação dos mercados financeiros e com os fluxos de capital pelo mundo todo.

Só nessa última crise financeira de 2008, que ainda estamos vivendo, foram retirados de uma economia global de +- US$ 90 Trilhões (PIB Mundial) cerca de +- US$ 35 trilhões. portanto mais de 1/3 do PIB mundial de um ano todo, que foram desviados para “paraísos fiscais”, contas bancárias seguras.

Para não haver colapso no sistema como um todo, os bancos centrais emitiram dinheiro em forma de dívida pública , no valor desses +- US$ 35 Tri. que rendem juros e que terão que ser pagos ao longo de +- 50 anos, e que agem na economia como um superimposto e causam um efeito de arrasto na economia, impedindo a melhoria do padrão de vida média do povo em geral.

 

8 thoughts on “O livro de Piketty (“O Capital no Século XXI”) e os ricos cada vez mais ricos

  1. Os artigos que abordam a economia têm sido muito bem postados neste espaço democrático, além de comentários pertinentes e de grande teor de conhecimentos por especilaistas na área, onde se destaca o nosso caro Bortolotto.
    Tenho aprendido muito com relação a esta matéria complexa quando se trata de aplicá-la simultaneamente à população e ao país, graças às explicações e ensinamentos que neste blog são colocados à disposição de interessados e leigos no assunto, outorgando à Tribuna e aos textos referentes de mestres neste segmento um serviço que deve ser elogiado e aplaudido, reconhecido e devidamente comentado.
    Obrigado Bortolotto, por mais esta análise pontual e pertinente sobre um tema tão importante e tão mal administrado pelos nossos governantes.

  2. Sugestão ao articulista: antes de ler o texto de “jornalismo econômico” do Thomas Piketty, leia Michal Kalecki, um dos “maiores” teóricos e analista econômico do século XX. Ele dissecou as vísceras e o metabolismo do capitalismo. Ao lê-lo certamente entenderá a lógica e a dinâmica do processo de acumulação de capital.

  3. Corretíssimas as argumentações do Sr. Bortolotto a respeito do mercado financeiro, a falta de uma calibração melhor nos regulamentos sobre taxação.

    Acrescente-se que as altas taxas (no Brasil a taxa média de empréstimo à pessoa física está em 20%, segundo o levantamento mensal do Banco Central) incorrem sob uma forma matemática de capitalização exponencial o que potencializa ainda mais o fator de acumulação e concentração de dinheiro (capital) pelas instituições financeiras.

    Se pegarmos a taxa média cobrada pelo sistema bancário nacional (20% a.a.) e descontarmos a inflação anual (5,91%) chegaremos a taxa real de remuneração desses bancos.

    Assim: [(1,20/1,0591) -1] x100 = 13,3%.

    13,3% foi a taxa média real de remuneração dos empréstimos do nosso sistema bancário junto às pessoas físicas no ano de 2013.

    Em 2013 a taxa de crescimento da economia nacional foi de 2,3%. Por aí percebe-se a discrepância, principalmente por saber que o mercado de crédito bancário atinge R$2,760 trilhões, ou seja, o correspondente a 57% de todo o produto interno bruto brasileiro estão nas mãos do nosso sistema financeiro!

    É medonho constatarmos tal fato e sabermos que se, já não bastassem as altas taxas, elas incorrem de exponencialmente, o que explica tamanho poder de concentração e multiplicação do capital nas mãos dos bancos.

    Acrescente-se a isto o fato de que a taxa média de remuneração dos empréstimos bancários vem crescendo e fechou o mês de março em 21,1%.

    Vejamos o que diz o Banco Central em sua última nota para a imprensa em 29-04-2014;

    I.1 – Taxas de juros e inadimplência

    A taxa média de juros das operações de crédito do sistema financeiro, computadas as operações com recursos livres e direcionados, situou-se em 21,1% em março, apresentando elevações de 0,1 p.p. no mês e 2,6 p.p. em doze meses. A taxa média nas operações com recursos livres alcançou 31,6%, após altas de 0,1 p.p. no mês e 5,6 p.p. em doze meses, enquanto, no crédito direcionado, a taxa média atingiu 8%, ao elevar-se 0,4 p.p. e 0,7 p.p. nas mesmas bases de comparação.

    Nos empréstimos a pessoas físicas, o custo médio situou-se em 27,7% em março, com altas de 0,3 p.p. no mês e 3,2 p.p. em doze meses. Nas operações com recursos livres, a taxa média atingiu 41,6%, apresentando elevação de 0,2 p.p. no mês, enquanto, no segmento de recursos direcionados, a taxa média de juros subiu 0,8 p.p. no mês, ao alcançar 8%, refletindo a alta de 1 p.p. nos financiamentos imobiliários.

    No segmento de pessoas jurídicas, a taxa média de juros manteve-se em 16%, assinalando alta de 2 p.p. em doze meses. O custo médio nas operações com recursos livres e direcionados situou-se, respectivamente, em 23,1% e 8%, mantendo-se estável no primeiro segmento e registrando elevação mensal de 0,1 p.p. no segundo.

    O spread bancário referente às operações com recursos livres e direcionados permaneceu estável em 12,3 p.p., registrando alta de 0,6 p.p. em doze meses. Os spreads nos segmentos de pessoas físicas e jurídicas situaram-se em 18,2 p.p. e 7,7 p.p., nessa ordem. No âmbito das operações com recursos livres, o spread atingiu 19,8 p.p., aumento de 0,1 p.p., enquanto, nas operações com recursos direcionados, manteve-se em 2,9 p.p.

    Na verdade, Thomas Piketty descreveu em seu livro o que já tínhamos constatado e debatido aqui na Tribuna da Internet há questão de dois anos ou mais.

    O Fato do produto interno bruto (PIB) mundial anual ser de US$71,25 trilhões enquanto o crédito do sistema financeiro gira em US$223,0 trilhões é revelador.

    O mundo tem de acordar; e o Sr. Piketty fez um alerta!

    • Parabéns senhor Wagner Pires.
      O seu comentário lúcido e pertinente com o momento macroeconômico que o Brasil está vivenciando, reforçou o artigo do senhor Bortolotto, em relação ao mercado financeiro, complementando análise do relatório do Banco Central.
      Ficou tão bom, que imprimi e salvei nos meus arquivos “implacáveis” como diria Nelson Rodrigues.
      Valeu…

      • O Sr. é muito generoso.

        O artigo do Sr. Bortolotto, como sempre, nos inspira profundamente.

        Espero que aproveite o comentário da melhor maneira possível.

        Grande abraço!

  4. A economia de mercado é da natureza. Desde os primórdios, quando o Homem aprendeu a armazenar. E por aí foi até que se inventou a moeda para codificar os preços. Enfim, a coisa foi evoluindo e trazendo muito progresso.
    Mas, como tudo que é humano tem suas falhas, estas abrem portas para os aproveitadores lucrar sem trabalhar. Podemos citar dois tipos dessa espécie nociva á sociedade: um é o que vive de discurso demagógico e que não produz nada, como os dirigentes socialistas e o outro é o capitalista que vive do capital improdutivo.

  5. Caro Flávio, saudações.
    O LACO SILVA recomendou que digitássemos no Google e lêssemos:
    O QUE OS BANCOS NÃO QUEREM QUE VOCÊ SAIBA
    Vemos ali exposto claramente … um dos maiores crimes contra a humanidade, detalhado em seus pormenores. Trata-se de uma engenharia macabra, que subjuga e submete indivíduos, famílias, nações inteiras e sociedades a um desastre total. Uma farsa de proporções gigantescas. Veja o SISTEMA em ação.
    Parabéns pelo artigo!!! Abraços do,
    Almério

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