O livro que Prestes deu ao Lula

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Prestes criticava Lula pelo desprezo aos livros

Carlos Chagas

No magnífico “Luís Carlos Prestes – Um Revolucionário Entre Dois Mundos”, editado pela Companhia das Letras, Daniel Aarão Reis conta que em novembro de 1986, já anistiado e reintegrado em seus direitos políticos, aos 88 anos, o velho comandante concedeu por quatro horas e meia detalhada entrevista ao programa Roda Viva, da TV-Cultura de São Paulo. Sua metralhadora giratória não livrava ninguém na política nacional, a começar pelo então presidente José Sarney, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, as Forças Armadas e o Partido Comunista Brasileiro, do qual se desligara. Poupados, apenas Leonel Brizola e o Lula, aos quais ele visitou e com quem conversou diversas vezes. Apesar disso, não evitou farpas sobre os dois, um acusado de precipitação e o outro de “não querer estudar, pois em qualquer livro, não passa da página 17”…

A gente fica pensando porque o saudoso Cavaleiro da Esperança fixou-se no número 17, nada cabalístico. Certamente foi pela capacidade de observação e profundidade de Prestes, registrado por algum motivo especial junto às câmeras, no estúdio da TV-Cultura. Afinal, está provado que eles conversavam, mesmo bissextamente.

Daniel Aarão Reis não revela a chave para decifrar o enigma, mas se dermos asas ao cavalo branco da imaginação, tantos anos depois, quem sabe encontraremos alguma explicação numa espécie de premonição feita por Prestes? Mesmo sendo materialista convicto, recusaria uma incursão no reino do misticismo fantástico?

Isso porque, revelou-se na semana que passou, haver o Lula confessado a um amigo que depois dos seus oito anos de governo, mais oito de Dilma, perfazendo dezesseis, no décimo-sétimo ele imagina retornar à presidência da República para, então, promover no Brasil o que seria a concretização de seus sonhos, o coroamento de sua vida pública.

A partir daí, surge um mistério dentro do enigma. Para quê o Lula pretenderia voltar? Para repetir a performance de seus dois primeiros mandatos não seria, tendo em vista que Dilma, nos dois dela, dá a impressão de estar desfazendo tudo que o antecessor construiu, tornando-se missão impossível começar tudo de novo. O primeiro-companheiro estaria buscando inspiração na cartilha de Luís Carlos Prestes, disposto a partir para a socialização dos meios de produção, a eliminação do latifúndio, a expulsão das multinacionais, a extinção do capitalismo e a proibição da existência dos ricos? Também não dá porque o relógio da História não anda para trás, além de o Lula jamais ter sido marxista, muito pelo contrário.

Qual o plano do ex-presidente, então, imaginando retornar aos 74 anos de idade? Sempre haverá a possibilidade de haver fechado na página 17 uma dessas biografias de Napoleão, uma das quais lhe terá sido presenteada por Prestes. Mas não seria a crônica da vida de Lenin? Quem sabe de Stalin? É preciso audácia para alguém intrometer-se no apartamento do Lula, descobrir onde ele guarda seus raríssimos livros não lidos depois da página 17 e pesquisar as dedicatórias. Porque uma delas, desconfia-se, tem a assinatura do Velho e poderá servir para elucidar o que realmente deseja o candidato a voltar ao palácio do Planalto…

One thought on “O livro que Prestes deu ao Lula

  1. Realmente, emérito jornalista Carlos Chagas, a história não retrocede. As condições anteriores, que propiciaram a vitória do ex-operário em 2002 e 2008 não se confirmarão em 2018. Europa e EUA estão saindo lentamente da crise, contudo, nós entramos nela agora em 2014, com o crescimento 0%. O Japão está nesta estagnação por uma década sem nenhum sinal de sair do atoleiro. A Rússia, atravessa grave crise e a China vem desacelerando. Os sinais demonstram, que os BRICs atingiram o apogeu econômico e inicia-se o ciclo de queda.

    Como então, manter aquele sonho antigo, levado as últimas consequências, qual seja ficar 20 anos no centro do poder? O povo brasileiro, de perfil manifestamente conservador, uma prova é o aumento de 30% dos novos eleitos compondo um futuro Congresso ainda mais conservador, do que o atual, que encerra suas atividades sem nada de positivo em termos de avanços sociais, políticos e econômicos. Trata-se de um Legislativo a reboque do Executivo, quebrando a tese esposada por MONTESQUIEU genial pensador francês, no livro clássico,” O Espírito das Leis”. Naquelas páginas, o pensador elaborou a tese da interdependência dos Três Poderes, que deveriam harmonizar-se, porém, cada um exercendo seu papel constitucional.

    Agora, voltar ao poder aos 74 anos de idade, uma hipótese de difícil concretização, entretanto, admitindo que o raio caia sobre nós pela terceira vez, o “companheiro” poderá vestir o figurino do presidente Getúlio Vargas, que voltou acima dos 70 anos, para cumprir um governo desastroso, o qual culminou na sua trágica saída do poder pela via do suicídio, em meio as pressões militares, da classe política ultra conservadora, leia-se UDN e quiçá do sistema econômico mundial, pela sua luta em prol da industrialização do Brasil e da criação da Petrobrás.

    Em relação a mudança do atual modelo capitalista de produção, para implementar a socialização dos meios de produção, creio que é um sonho de uma noite de verão, apenas para os seguidores da teoria marxista, mas sonho quase impossível de tornar-se realidade, pela via do personagem, o qual governou por oito anos o país, com todos os mecanismos conservadores, inclusive dito por ele mesmo, que: “os banqueiros e empresários nunca ganharam tanto dinheiro no meu governo”. E foi a completa verdade.

    Então: Por que seria diferente num eventual governo a partir de 2018?

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