O louvável esforço de Lula para não dizer nada

Fábio Pannunzio

Não foi uma entrevista, foi bajulação explícita. Ainda assim, foi louvável o esforço de Lula para aparecer no programa do Ratinho. Ele entrou no palco claudicante, mas dispensou a muleta. Teve que se amparar na mesa do cenário para que as pernas não lhe traíssem. E enfrentou o incômodo de uma garganta ainda doente que lhe conferiu um tom metálico à voz.

A julgar por tudo o que lhe foi perguntado e pelas respostas oferecidas, o objetivo da presença de Lula no Ratinho foi plenamente alcançado: apresentar às classes C e D o candidato que ele impôs ao PT para disputar a prefeitura de São Paulo, Fernando Haddad. Lula não estava ali para esclarecer nada, estava ali para fazer campanha.

Quem assistiu do começo ao fim ficou sabendo algumas coisas fundamentais para entender Lula. Sabe-se agora que ele come rabada com apresentadores de TV, que arrumava sua casa e cozinhava quando ia a São Bernardo do Campo passar fins-de-semana com a esposa Marisa e que ele tomou dois tombos, e não apenas um. Onde ocorreu o segundo ele não revelou, talvez porque isso faça parte do rol de coisas das quais não convém falar.

Ratinho, que montou uma rede de emissoras de rádio e televisão ao tempo da gestão do amigo, criou um clima emocional para recebê-lo. Exibiu um trecho de ‘Lula, o Filho do Brasil’ e botou no ar uma matéria enaltecendo o PROUNI. A filha de um pedreiro que está estudando medicina ilustrou metonimicamente a abordagem.

Duas outras figuras públicas de grande prestígio foram utilizada como peças auxiliares para a promoção das virtudes do ex-presidente. Ronaldo Fenômeno cedeu-lhe a associação com sua imagem resiliente. Apareceu novamente como o personagem que não desiste nunca. E Zeca Pagodinho o convidou para um chope, aproveitando-se da oportunidade para reiterar o cervejeiro, fazendo uma espécie de merchandising de seu (dele, Zeca Pagodinho) alcoolismo lucrativo.

Luis Marinho, prefeito de São Bernardo do Campo, tem motivos para ficar enciumado. Mereceu apenas um cumprimento do apresentador e nenhuma palavra do entrevistado. Ficou na pletéia enquanto seu companheiro paulistano foi convidado a se sentar em uma cadeira ao lado da ribalta, embora seja tão candidato quanto Haddad.

O affair com o ministro Gilmar Mendes só foi abordado no último minuto do programa, quando a entrevista já resvalava para as considerações finais – ainda que Ratinho tenha antecipado que não queria entrar no assunto porque o povo “não está entendendo” o problema. Lula passou ao largo do problema, disse apenas que já havia se maniffestado em uma nota. Não se manifestou. A nota não é dele, é do Instituto Lula, e nela não há nenhuma declaração de Lula de que a versão do encontro apresentada pelo ministro do STF não é verdadeira. O silêncio reiterado, a esta altura, parece deixar claro que o desmentido não é um problema estratégico – é uma impossibilidade concreta.

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