O mal do adiamento


Heron Guimarães

De todos os males que assombram as gestões públicas no Brasil, a procrastinação é, depois da corrupção, a que mais prejudica o cidadão e, por consequência, os próprios governos que não fazem nada para evitá-la ou, pelo menos, reduzi-la. Deixar para depois acaba com qualquer planejamento, desmotiva a melhor das equipes, torna uma administração tão ineficiente que chega a comprometer um trabalho inteiro e pode derrubar políticos que conseguiram fazer uma campanha eleitoral exemplar e manter um discurso coerente e bem-intencionado.

O mal de adiar atinge todos os que dependem do serviço público, como em uma epidemia. Como é uma praga que se hospeda em pessoas, ela também afeta setores privados, mas, pela facilidade de trocar as peças e de acompanhar resultados sem ter a necessidade de satisfazer compromissos políticos, às vezes, ela é contida.

No serviço público, é diferente. A procrastinação é tolerada e, em muitos casos, estimulada. Afinal, para muitos governantes ou líderes públicos, é melhor deixar o tempo resolver. Porém, o tempo, “senhor da vida”, pode trabalhar contra.

ZUMBIS DE CORREDORES

Assim, sem tomar decisões, vão-se embora rios de dinheiro, trabalhos inteiros e ideias são jogadas ao vento. As vítimas desse adiamento contumaz se transformam em zumbis de corredores, lotando, sem eficiência alguma, prefeituras, câmaras, ministérios, tribunais e tudo o que se pode chamar de repartição pública. Ver esses fantasmas nos cafezinhos, esparramados de frente para suas mesas de MDF, usando seus estiletes afiados para apontar lápis ou simplesmente passando o tempo com fofocas em redes sociais ou jogando paciência é angustiante.

A incompetência, apesar de ser a principal responsável por deixar tudo para depois, não é a única a contribuir com essa patologia. Também tem a acomodação, a tal zona de conforto que vem de apadrinhamentos, a ausência de bons gestores e, por fim, a força do hábito. Essa última casualidade é, pela dificuldade de ser erradicada, a mais nociva, pois é altamente contagiosa. Propaga-se no vácuo e transforma mentes ansiosas por resultados em uma espécie de consciência paquidérmica generalizada.

O irritante sossego da procrastinação parece uma doença incurável. Pessoas esforçadas e competentes, em outros ambientes de trabalho, anulam-se no setor público, contribuindo com o estado de letargia total que assola o Brasil dos tempos de internet de alta velocidade. Elas, até sem saber, contribuem com um Estado inativo, ineficiente e prejudicial ao desenvolvimento humano e econômico.

A solução para essa chaga se resume em uma só palavra: meritocracia. Mas fazer valer o mérito é algo ainda inalcançável pelos padrões brasileiros de administração pública. (transcrito de O Tempo)

2 thoughts on “O mal do adiamento

  1. É incrível como alguns, por sua incompetência ou por falta de persistência, procuram jogar a culpa de suas frustrações em cima daqueles que, por seus méritos, galgaram algum posto na vida. Por quê generalizar pela falha de alguns? Se tem político corrupto (e tem), serão todos corruptos? Se tem comerciante desonesto, todos os outros serão? Por quê alguns funcionários públicos são acomodados, todos eles serão? E os abnegados, que dedicam toda a sua vida à causa pública, não merecem respeito? Ora, vão se catar, que é o melhor que podem fazer.

  2. Pelo que entendi de seu artigo, não houve intenção de criticar o servidor público e, sim, mostrar um vício que deturpa e enfraquece a condição de o Estado servir ao público. Concordo com a necessidade de meritocracia – e que muitos servidores a detém mas não são reconhecidos – e de que que ainda é inalcançável.
    Mas ficamos no amargo da questão, não conhecemos uma solução realizável, eficaz e efetiva.

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