O martírio da Grécia

Sebastião Nery

SÃO PAULO – Com fome desde Roma, entrei com a namorada no primeiro restaurante, bem embaixo da eterna “Acrópole”, na “Plaka”, o velho bairro popular do centro de Atenas. Chamei o garçom, italiano:

– Traga o melhor vinho da Grécia.

– É o “Boutari”.

– Quero também a melhor comida de vocês.

– É “Brizolla”.

– “Brizolla”? Não é possível. Até aqui? O que é “Brizolla”?

– Costeleta de boi. Nosso prato é carneiro. Costeleta de boi é especial.

De fato um prato excelente. Caro mas ótimo. E o vinho também.

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METÁFORAS

Ao lado do “Hotel Grande Bretagne”, um caminhão. Na carroceria : “Metáforas”. Não era uma jamanta de poesia. Era apenas um caminhão de mudanças. “Metáfora” é mudança. Como se fosse o apartamento de Drummond levado para Itabira. São os mistérios das línguas, tão diversos e tão diversas, embora o grego seja a avó do português, filha do latim. 

Mesmo para quem como eu inutilmente estudou grego no seminário é impraticável. O grego moderno, depois de tantas invasões, sobretudo a  não assimilada invasão dos turcos, mudou muito o velho grego clássico.

Para esperar o ônibus você não fica no vulgar “ponto”, mas no “êxtase”. Quando você sai do êxtase”, do ônibus, do restaurante, da igreja, não sai pela “saída”. Sai pelo “êxodo”. Como Moisés.

A França não é França, de Napoleão e De Gaulle. É “Gália”, como dizia Julio César, o cônsul e general jornalista, inventor do “lead”, em um dos mais competentes textos da historia da imprensa, antes de Cristo:

-“Galia in partes tres divisa est” (“A França é dividida em três partes”). E contava as violências romanas para subjugar heróis que estão aí até hoje:“Versingetorix”. E a Grécia não é Grécia. É “Hellas”. Homero puro.

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PÓS-EUROPEUS

São 10 milhões de habitantes, mais de 4 milhões em Atenas. E 2 milhões na segunda maior cidade, Tessalonica, lá no norte. O resto se dissolve por milhares de maravilhosas ilhas,com suas casinhas brancas lá em cima, penduradas nas colinas escarpadas, e o mar infinitamente azul. 

A população é mais escura do que se imagina. Aquele tipo clássico do grego dos livros, claro, olhos claros, nariz fino, alto, acabou tragado pela verdade da história. Ficou lá atrás nos séculos que se passaram, dissolvidos. 

Hoje a Grécia é muito menos européia do que balcânica. Mistura de árabe com africano. Os homens de rosto moreno escuro, cabelos negros, geralmente também vestidos de negro, e as mulheres com seus xales negros. Uma sociedade pós-europeia, visivelmente reprimida pela história.

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CLAROS

Ela vem voando leve, linda, longa, longe, toda branca, toda nua, como uma flecha de Deus, um Mirage do céu. Vai chegando perto, cada vez mais perto, bico estirado, as asas presas, os pés retos. Está a um metro de mim. Vejo-lhe perfeitamente os olhos úmidos, miúdos, infinitos. Jogo um pedaço de pão, ela pega, passa. E faz uma doce, graciosa, sensual curva sobre o mar. É uma gaivota, um “claro” do Peloponeso. Os “claros” gregos.

O mundo inteiro tem gaivotas, as bailarinas do mar. Gostam de seguir os navios, os barcos. São inesquecíveis as de Roterdã, Liverpool, Nápoles, Hamburgo, Odessa, Vladivostock. São as marinheiras dos céus.

Mas como as de Peloponeso, os “claros” gregos, nenhuma. Milhares e milhares, incansáveis, incontáveis esquadrilhas voando baixo, rente ao navio, ao barco, dando luminosos mergulhos nas águas balançadas ou sobre o convés para pegar no ar pão, queijo,  tudo que os turistas lhes jogam.

Aquele território de céu é delas. Um pequeno latifúndio de azul. 

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PERICLES

O rosto sereno, os olhos vazados, a barba encaracolada, no famoso busto que os ingleses roubaram e levaram para o Museu de Londres onde está lá até hoje. Durante 30 anos fez questão de se submeter, todos os anos, ao voto do povo, a eleições livres. E foi sempre reeleito. A democracia, a mais perfeita instituição política que o homem criou em toda a história, da qual Churchill disse que é a “pior forma de governo com exceção de todas as outras”, nasceu sobretudo de seu exemplo e vida 500 anos antes de Cristo

Quando Péricles, o ateniense, deu aos representantes da terceira classe o direito de serem “arcontes” (parlamentar, magistrado com poder de legislar e executor das leis); quando distribuiu dinheiro aos pobres para que também eles pudessem exercer funções públicas; quando deu aos indigentes o direito de irem ao teatro de graça, Péricles estava instalando a primeira constituinte democrática, fazendo a primeira Constituição democrática, criando a democracia, 2.500 anos atrás.

O que estão fazendo no martirio da Grécia é uma traição a Péricles.

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