O massacre do Realengo? Por que aconteceu? Jamais imaginávamos esse fato. Além e acima da tragédia, o relato (reportagem vivida) da menina Jady Ramos de Araújo, 12 anos, e que emoção e capacidade, escrevendo

Helio Fernandes

Não pretendia, não iria, e muito menos me considerava obrigado a escrever sobre o que se chama, sem qualquer dúvida, de MASSACRE DO REALENGO. O episódio, o drama, o trauma, a tragédia (a palavra insubstituível) é maior do que todos nós. Como tragédia, drama, fato lancinante, que não se apagará jamais.

As tragédias são para sempre, ficam na memória dos que foram envolvidos diretamente, dos que morreram, dos que estão no hospital em estado grave ou gravíssimo, dos familiares de todos os graus. E mais: das dezenas de milhões de pessoas, dos mais diversos pontos do país, que foram atirados ou atingidos nessa verdadeira comoção nacional.

Cobrado de todas as maneiras pelas mais diversas formas de comunicação. Interrogado na rua. Ontem, na minha caminhada diária no belíssimo Parque do Jardim Botânico (onde há 200 anos Dom João VI se escondia e fugia de Napoleão), duas pessoas me acusavam (isso mesmo: ACUSAVAM) de me refugiar no silêncio. Ainda aí mantive a decisão e a convicção de não escrever.

Só que ontem, lendo na primeira de “O Globo” o depoimento de uma sobrevivente de 12 anos, salva pelo irmão, fiquei perplexo, estarrecido, assombrado com tanta clareza, discernimento e capacidade de sublimar a própria emoção, de transferir para todos a sua tristeza, lamento, dor e sentimento incomparável.

É incomparável pela razão muito simples e muito profunda, de que jamais esperávamos, imaginávamos, suspeitávamos de que isso pudesse acontecer no Brasil. Jamais aconteceu, tudo tem uma primeira vez, mas não precisava ser tão trágico, tão dramático, tão irreparável. E que fica ainda maior e mais destruidor, nas palavras dessa menina, que sobreviveu à tragégia e vai sobreviver à vida.

Pode parecer contraditório, que empolgado pelas palavras emocionantes e emocionadas, eu tenha decidido escrever. Na verdade é um preito à sua coragem, é uma forma de louvação, não diria nem homenagem, ela se colocou acima de qualquer coisa.

Como entender a capacidade que se apossou dela, nesse depoimento quase inacreditável, pelo texto, pelo conteúdo, pela substância, pela oportunidade? Não posso deixar de reproduzir trechos, na verdade é um todo, inseparável e insuperável. Mas logicamente alguns são mais emocionantes do que os outros. Como essa menina Jady Ramos de Araújo (guardem o nome dela), 12 anos, conseguiu reter e repetir tanta coisa?

Leiam: “Já tinha um monte de gente agonizando no chão. Ele dava tiro nos pés das crianças. Mandava virar para a parede e dava tiro. Só atirava na cabeça. Olhava para a frente e seguia em frente. A sala ficou cheia de sangue. Ele estava carregando a arma, deu muito tiro, deu tiro, muito tiro”.

Mais um trecho, apenas outro, toda a reportagem deve ser lida, meditada, refletida, sem que se pense no futuro, mas sem esquecer dele. O que tem que ser feito tem muitos caminhos e descaminhos, alguma coisa pode ser sugerida, mas não existe solução à vista. Principalmente em cima de tanta dor. Lamento, tristeza, momentos inesquecíveis.

Só que a menina Jady termina sua reportagem com palavras quase proféticas, mostrando o que estava acontecendo naqueles momentos em que estava no centro de tudo, mas deixando claro que não deseja que passe a fazer parte da rotina dessa escola e de todas as escolas.

“Vinha aquele sangue escorrendo feito água. E muita gente morta na escada. Tinha mais meninas mortas do que garotos. Muita gente entrou em choque, desmaiou na escada. Essas ele matou”.

Como a menina de 12 anos guardou tudo na memória, reproduziu os lances das escadas, a lembrança de que morreram mais “meninas do que garotos”, constatação que foi feita muito tempo depois?

As últimas três linhas do depoimento-reportagem da menina Jady têm muito mais coisas do que cabem num trecho tão curto. Pois carregam advertências, constatação, a esperança de que as “soluções” não sejam contraproducentes, não destruam o que existe de tão satisfatório nessa idade, nessa convivência, na satisfação do dia a dia.

Textual de JAdy: “Achava a escola segura. Agora eu fico com medo”.  

Como é que naquelas cenas arrepiantes, gente morrendo, a lembrança do sangue “descendo pelas escadas”, a Jady ainda teve tempo e condições de lembrar, meditar e transmitir a insegurança para o futuro?

Pois é da insegurança que se trata. A pretexto ou como “solução imaginada”, muitos pretendem transformar as escolas em verdadeiras fortalezas. Até agora, consideram que “a solução” está na escola e não fora dela. Então, sugerem que as escolas devem ficar quase inacessíveis, com aparelhagem a mais sofisticada, para “fortalecer” as escolas.

***

PS – É sobre isso que a Jady, com apenas 12 anos, chama a atenção, faz a sua advertência. Quando ela diz, “agora eu fico com medo”, não existe a menor dúvida de que esse medo está localizado mais na mudança do que na permanência.

PS2 – A proteção das escolas pode ser executada das formas mais diversas. É evidente que o número espantoso de armas tem que ser um dos alvos. Não precisamos exagerar com a quase certeza de que o fato irá se repetir certamente.

Ps3 – O assassino era um doente mental. Existem centenas, milhares de outros doentes mentais.

PS4 – Para eliminá-los, não podemos eliminar também o prazer e a satisfação de ir à escola. Sempre, mas principalmente nessa idade, não há nada mais maravilhoso do que estudar.

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