O mistério de Deus, esse desconhecido que está sempre por ser conhecido

Leonardo Boff

Nos últimos dias 5 e 6, em Assis, realizou-se mais uma edição do Átrio dos Gentios, iniciativa do Pontifício Conselho para a Cultura do Vaticano voltada para a questão de Deus. O presidente da Itália, Giorgio Napolitano, e o cardeal Gianfranco Ravasi, famoso exegeta bíblico à frente do Conselho, fizeram um diálogo instigante sobre Deus, esse desconhecido.

Com o Átrio dos Gentios, faz-se um esforço para levar ao diálogo crentes e não crentes. O átrio era o espaço ao redor do templo de Jerusalém acessível aos pagãos. Agora, procura-se tirar os interditos para que possam aceder ao templo.

A esse propósito, me permito uma reflexão que me acompanha ao longo de toda a vida de teólogo: pensar Deus para além das objetivações religiosas (metafísicas) e procurar interpretá-lo como Mistério, sempre desconhecido e, ao mesmo tempo, sempre conhecido. Por que esse caminho? Einstein nos oferece uma pista: “O homem que não tem os olhos abertos para o Mistério passará pela vida sem nunca ver nada”.

Efetivamente, para onde quer que dirijamos o olhar, encontramos o Mistério. O Mistério não é o desconhecido. É o conhecido que nos atrai para conhecê-lo mais. Ao tentar conhecê-lo, nossa sede de conhecimento nunca se sacia. Perseguimo-lo sem cessar, e, mesmo assim, ele permanece um Mistério.

Minha tese é esta: no princípio, era o Mistério. O Mistério era Deus. Deus é o Mistério. Deus é Mistério para nós e para Si mesmo.

É Mistério para nós uma vez que nunca acabamos de conhecê-Lo, nem pela razão nem pelo amor. Cada encontro deixa uma ausência que leva a outro encontro. Cada conhecimento abre outra janela para um novo conhecimento. O Mistério de Deus não é o limite do conhecimento, mas o ilimitado do conhecimento. O Mistério não cabe em nenhum esquema nem vem aprisionado nas malhas de alguma religião, igreja ou doutrina. Ele está sempre por ser conhecido.

O Mistério é uma presença ausente. Mas também uma ausência presente. Manifesta-se na nossa insatisfação, que, incansavelmente e em vão, busca satisfação.

Deus é Mistério em Si mesmo e para Si mesmo. Deus é Mistério em Si mesmo, porque sua natureza é Mistério. Vale dizer: Deus, enquanto Mistério, se autoconhece, e, no entanto, nunca tem fim seu autoconhecimento.

Deus é Mistério para Si mesmo, quer dizer, por mais que Ele se autoconheça, nunca se esgota esse Seu conhecimento. Está aberto a um futuro que é realmente futuro. Portanto, algo que ainda não é dado, mas que pode se dar como novo para Ele mesmo. Com a encarnação, Deus começou a ser aquilo que antes não era. Portanto, em Deus há um devir, um tornar-se.

Mas o Mistério, por um dinamismo intrínseco, permanentemente se revela e se autocomunica. Sai de Si e conhece e ama o novo que emerge d’Ele. O que vai emergir não é uma reprodução do mesmo.
Mas sempre distinto e novo também para Ele. À diferença do enigma, que, conhecido, se desfaz, o Mistério, quanto mais conhecido, mais aparece como desconhecido.

Mistério é Mistério, agora e sempre, desde toda a eternidade e por toda a eternidade.

Diante do Mistério, se afogam as palavras, desfalecem as imagens e morrem as referências. O que nos cabe são o silêncio, a reverência, a adoração e a contemplação. Essas são as atitudes adequadas.

Assumindo-se tal compreensão, se derrubam todos os muros. Já não haverá mais o Átrio dos Gentios, e também não existirá mais templo. Deus não tem religião, porque Ele é simplesmente o Mistério que liga e religa tudo, cada pessoa e o inteiro universo. O Mistério nos penetra e n’Ele estamos mergulhados.

(Transcrito de O Tempo)

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