O mito da pacificação

Jorge Folena

Na verdade, eu gostaria de hoje escrever sobre a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº. 134/2007, de autoria do Deputado Alceni Guerra (DEM/PR), que propõe ser obrigatório o tempo integral de 8 horas diárias para os alunos nas escolas de ensino fundamental e básico do país. Este realmente é um tema importante para ajudar a resolver outros impasses existentes no Brasil, como a violência e o aumento da criminalidade, a exemplo dos acontecimentos que aterrorizaram a população do Rio de Janeiro nesta semana.

O governador do Rio de Janeiro, em 4 anos de mandato, não tomou nenhuma das iniciativas necessárias para solucionar os problemas sociais da população do estado. Passou mais tempo viajando ao exterior e tratando até mesmo de “negócios” fora de sua alçada, como o desejo manifesto de privatizar os aeroportos brasileiros, do que enfrentando o grave caos na educação pública oferecida às crianças e aos jovens fluminenses. Vale lembrar que o governo do Estado, neste período, tentou até mesmo privatizar a merenda das escolas, que passaria de R$ 0,32 para R$ 2,77, preço da “quentinha” a ser fornecida pela empresa sabe-se lá de quem…

No início de seu mandato, lembro-me de que o governador foi à Colômbia para conhecer o modelo repressivo de segurança, implantado pelo Presidente Álvaro Uribe contra a população pobre daquele país.

O governador contou com a ajuda de parte da imprensa, que mais desinforma do que informa, para levar adiante sua grande jogada para ser reeleito, valendo-se de uma política de segurança marcada pela exclusão social.

PACIFICAR O QUÊ?

Em 24 de outubro de 2010, após ler o artigo “Droga marginal, invencível, droga intelectual, científica”, escrito pelo jornalista Hélio Fernandes nesta Tribuna da Imprensa, fiz o seguinte comentário, que acredito ainda ser atual: “Não é possível pacificar sem transformar. O Governador não sabe o que faz, sua postura é agressiva e tenta acomodar as coisas. No passado fizeram a remoção das favelas para a antiga Zona Rural (hoje Oeste) da Cidade do Rio.

Não houve melhorias nas condições de vida das pessoas nem lhes foram assegurados alguns direitos fundamentais. Por exemplo, o péssimo serviço de transporte coletivo faz com que os moradores daquelas comunidades continuem levando de duas a três horas para se deslocarem de Campo Grande ao centro da cidade.

Mas a classe média da Zona Sul do Rio, incomodada, grita “BASTA”. “Basta” de que? De desgovernos? De falta de compaixão, de crianças sem escolas de qualidade, de hospitais para atender aos pobres e até mesmo a classe média, que não tem dinheiro para pagar planos de saúde, de idosos que têm de trabalhar diariamente para se manterem vivos?

A CORRUPÇÃO FINANCEIRA

Não vejo nenhum movimento contra a corrupção financeira e principalmente moral, que invadiu o coração das pessoas. Pouco valor é dado à vida. Se uma pessoa fora do extrato social mais elevado morre, paciência, foi mais um entre muitos que caem todos os dias. Assim, a vida perdeu o sentido, porque não se respeita o homem (independente de sua origem social), o único ser capaz de criar e transformar tudo.

Por outro lado, ‘os viciados do mercado’ são protegidos diariamente pelos governos Federal, Estadual e Municipal. Sabe-se que o comércio de drogas movimenta bilhões. Esta quantidade de dinheiro não fica guardada em casa. Logo, tem que estar em algum “banco”. Então, o sistema financeiro é viciado, não apenas em cobrar juros exorbitantes dos correntistas e prestar maus serviços, mas nesse dinheiro ilegal, que vem de todos os lados: das drogas, da jogatina, da corrupção etc.

Mas o governador sabe disso. É um jovem senhor já experiente na arte da política brasileira. Sua Excelência joga em favor dos ricos, protegendo a classe média (de onde se originou) e declarando ‘guerra’ aos pobres, pois assim está cumprindo a sua missão. Quem sabe, não é criado, na sua gestão, um plano estadual de saúde para incentivar as mulheres pobres a não engravidarem?

Seu parceiro, o também jovem senhor prefeito da cidade, implanta semelhante projeto no Município do Rio. Já está construindo ‘barreiras de proteção de som’, para os moradores das favelas ‘terem mais qualidade de vida’. Estas cercas foram feitas para esconder a vergonha que muitos têm ao desembarcar no aeroporto Tom Jobim, pois os faz lembrar que moram no Rio de Janeiro (no Brasil) e não em Copenhague (na Dinamarca), onde gostariam de viver. Mas lá o povo foi transformado. Tem escolas, hospitais e transportes públicos de qualidade. E aqui?

Não há  dúvida de que os jovens senhores cumprem fielmente os seus respectivos papéis: encurralando os pobres, a fim de deixar a turma do andar de cima mais confortável. Sabemos que a cocaína não é refinada na favela, nem a maconha é plantada lá. Os grandes consumidores não estão nos morros, mas no asfalto.

A GUERA DECLARADA(?)

Então, Governador, por que a ‘guerra declarada’? Por que a ‘pacificação’ e não a transformação da vida desta gente? Por que a ausência do Estado em tudo? Se fosse possível, seria decretado hoje que o povo pobre, explorado e sofrido não poderia mais circular pelas áreas nobres da cidade, devendo ficar confinado em seus guetos. Basta disso!

Presidente Lula, veja o quadro em que estamos. Reveja suas alianças. Sei que é  dificílima a governabilidade na forma prevista na Constituição. O senhor tem carisma e força para transformar o Brasil, mas precisa rever suas alianças, caso contrário poderá ficar com a mesma marca de seu antecessor, não por entregar declaradamente as nossas riquezas, mas por perder a grande oportunidade de transformar a vida da população, com um projeto de desenvolvimento que favoreça a todos e não apenas aos de sempre.”

O que mudou com a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora em algumas comunidades das Zonas Sul e parte da Norte do Rio? Dizem que os imóveis ficaram mais valorizados, gerando ganho, então, para quem?

BRASIL: CAMPEÃO EM REPETÊNCIA ESCOLAR

Enquanto isto, o jornal O Globo, em 26/11/2010, noticiou que o Brasil é campeão em repetência escolar na América Latina. Isto mostra que grande parcela da imprensa não consegue juntar B com A, na medida em que, nos últimos dias, os grandes jornais e redes de rádio e televisão se banquetearam com a violência explícita e com as operações militares de combate aos tristes eventos, mas não enfrentaram as verdadeiras raízes da questão.

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