O ‘não’ do referendo na Grécia: a dignidade venceu a cobiça

Leonardo Boff

Há momentos na vida de um povo em que ele deve dizer “não” para além das possíveis consequências. Trata-se de dignidade, soberania popular, democracia real e o tipo de vida que se quer para toda a população.

Há cinco anos, a Grécia se debate numa terrível crise econômico-financeira, sujeita a todo tipo de exploração, chantagem e até terrorismo por parte do sistema financeiro, especialmente o de origem alemã e francesa. Ocorria uma verdadeira intervenção na soberania nacional, com a pura e simples imposição de medidas de extrema austeridade excogitadas, sem consultar ninguém, pela Troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e FMI).

Tais medidas implicaram uma tragédia social, face à qual o sistema financeiro não mostrava nenhum sentido de humanidade. Um de quatro adultos está desempregado, mais da metade dos jovens está sem ocupação remunerada, e o PIB caiu 27%. Não passa pela cabeça dos especuladores que atrás das estatísticas se esconde uma via-sacra de sofrimento de milhões de pessoas e a humilhação de todo um povo. Seu lema é “a cobiça é boa”. Nada mais conta.

OUVIDOS MOUCOS

O novo governo grego de esquerda, que quis negociar as medidas de austeridade duríssimas, encontrou ouvidos moucos. A atitude era de total submissão: ou tomar, ou deixar. Nada de uma estratégia do ganha-ganha, mas pura e simplesmente do ganha-perde. A disposição era a de humilhar o governo de esquerda socialista de Tsipras, dar uma lição a todos os demais países com crises semelhantes (Itália, Espanha, Portugal).

A única saída honrosa de Tsipras foi convocar um referendo. Qual a posição face à inflexibilidade férrea da austeridade, que aparece totalmente irracional por levar uma nação ao colapso, exigindo uma cobrança da dívida reconhecidamente impagável?

A vitória de domingo foi espetacular para o “não”: 61%. Primeira lição: os poderosos não podem fazer o que bem entendem, e os fracos não estão mais dispostos a aceitar as humilhações. Segunda lição: a derrota do “sim” mostrou claramente o coração empedernido do capital bancário europeu. Terceiro, trouxe à luz a traição da unidade europeia a seus próprios ideais. Renderam-se à lógica perversa do capital financeiro.

UMA LIÇÃO

A vitória do “não” representa uma lição para toda a Europa: se ela quer continuar a ser súcuba das políticas imperiais norte-americanas ou se quer construir uma verdadeira unidade europeia sobre os valores da democracia e dos direitos.

Uma lição para todos, também para nós: quando se trata de uma crise radical que implica os rumos futuros do país, deve-se voltar ao povo, portador da soberania política, e confiar nele. A partir de agora, os credores e as inflexíveis autoridades do zona do euro terão pela frente não um governo que eles podem aterrorizar e manipular, mas um povo unido que tem consciência de sua dignidade e que não se rende à avidez dos capitais.

Na Grécia, nasceu a democracia de cunho elitista. Agora está nascendo uma democracia popular e direta. Ela será um complemento à democracia delegatícia. Isso vale também para nós.

Um prognóstico, quiçá uma profecia: não estará nascendo, a partir da Grécia, a era dos povos? Face às crises globais, serão eles que irão às ruas, como entre nós e na Espanha, e tentarão formular os parâmetros políticos e éticos do tipo de mundo que queremos para todos. Já não confiam no que vem de cima. Seguramente, o eixo estruturador não será a economia capitalista desmoronando, mas a vida.

10 thoughts on “O ‘não’ do referendo na Grécia: a dignidade venceu a cobiça

  1. O último referendo que fizemos no Brasil foi sobre o estatuto do desarmamento.
    Vitória “espetacular” do não ao desarmamento por 64%.
    E o governo lula ignorou, deu um jeito, mudou o texto e impôs o que queria.
    Simples assim.

  2. Outro dia, em um barzinho de Santa Teresa, RJ, apareceu um jovem casal de mochileiros, andarilhos gregos, sorvendo o meu suco de laranja exclamei para eles: “Viva o Syriza”. A menina, que arranhava um portunhol disse: nós votamos nele, mas não estamos muito esperançosos não, as dificuldades são muitas”.

    E eu na minha Fé, pedi a Santa Penelope, famosa por lá… que abençoe o povo grego nesta possível transição.

  3. O frei, como todo pessoal de esquerda, olha apenas o trecho da história que que agrada. Venceu o não, foi bonito, etc., mas e daí? O que vem a seguir? Esta parte da história não interessa para quem vive de ilusão. Lembro de uma antiga charge do Millôr onde um grande “não” era formado por uma infinidade de pequenos “sim”.

  4. O grande Escritor/Teólogo LEONARDO BOFF, que escreve magnificamente bem, nesse artigo nos informa que o Povo Grego votou NÃO no referendum, significando que NÃO aceita a última Proposta de Austeridade da TROIKA CREDORA, e conclui: A Dignidade venceu a Cobiça. A conclusão me pareceu prematura, porque Segunda-Feira o Primeiro-ministro TSIPRAS demitiu o antigo Ministro da Fazenda, considerado pela TROIKA, Devedor Arrogante, nomeou outro de perfil não-Arrogante, e voltou as negociações com a TROIKA em Bruxelas-BE. De modos que a meu ver, a Cobiça da TROIKA continua.
    A situação Grega é complexa, e o sofrimento atual do Proletariado Grego ( os que vivem de Renda Ganhada, ex. Salários, Aposentadorias, Pensões), é grande. Quem tem Renda Não Ganhada ( Juros, Aluguéis, Dividendos, etc) ou tem um Negócio, sofre menos.
    O Governo Grego, desde que entrou para a Comunidade Europeia e descartou sua velha Moeda DRACMA e assumiu o EURO, atraiu empréstimos até o limite suportável que foi +-US$ 385 Bi. Os Gregos são 11,3 Milhões, tem um PIB(Paridade de Poder de Compra) de US$ 285 Bi; Renda perCapita US$ 25.750 e IDH 29º do Mundo.
    A Grécia viveu +- 10 anos Gastando bem mais do que Produzia, e então a +- 5 anos atrás veio a CRISE e com ela o FMI, que nós conhecemos bem, e começaram as “Negociações”. A TROIKA CREDORA perdoou US$ 100 Bi de Dívida Pública em troca de 5 anos de “AUSTERIDADE tipo FMI”. A situação ficou exatamente com descreve o Dr. L. BOFF.
    Agora a Grécia pleiteia mais uma Redução de US$ 100 Bi, para a Dívida Pública ficar em razoáveis US$ 185 Bi, mas a TROIKA CREDORA exige então a entrega de Ativos do Governo Grego, como, Estradas de Ferro, Aeroportos, Estradas, Sistemas de Tratamento de Águas e Esgotos, etc,etc, para cobrando “pedágio”, e se ressarcir. È dura a vida de quem é DEVEDOR.
    A outra alternativa, é sair da Comunidade Europeia, sair do EURO, voltar a velha DRACMA, e dando um Calote quase total na Dívida Pública, o que implica perda total do Crédito Internacional, e sanções, viver+- isolada Economicamente, e com os próprios meios. Como a Grécia vivia muito acima dos próprios Meios, essa solução também é de perda grande de Padrão de Vida.
    No fundo, o que acho que vai haver, é ACORDOS SECRETOS, devido a ter que se esconder dos outros Devedores da TROIKA, quase todo Mundo, senão todos os outros Devedores vão querer as mesmas condições, e a Grécia continuará na Comunidade Europeia, não sairá do EURO, e pagará SECRETAMENTE só o que pode pagar.
    Os Gregos são muito sabidos, e vão achar uma saída razoável para TODOS, CREDORES e Ela. Abrs.

  5. Na minha opinião a plebe só costuma ser “ouvida” para fazer jogo de cena e legitimar absurdos, enquanto tradicional massa de manobra.

  6. Aqui em nossa terra, não precisou o FMI pressionar o Ministro da Fazenda
    Joaquim Levy e a Presidente Dilma para utilizar sua cartilha, fizeram por alta recreação: aumentar o juros, arrochar os mais pobres (trabalhadores e aposentados) inibindo o consumo para acabar com a inflação . Inibir o consumo é sinônimo de atraso. Somente através do consumo se alavanca o crescimento, o progresso.

  7. Afinal, salario virou renda e rentista virou assalariado? Chamam agora ate empregado, que tem definicao legal na CLT, de colaborador. A Lojas Americanas, por exemplo, chama todas seus caixas, que ganham bruto 800 reais/mes/ 44 horas semanais, de colaboradoras, mas revista todos eles na saida. Imaginem se nao COLABORAM em abrir suas mochilas para os guardas na portaria. Quanta ingratidao com seus COLABORADORES. Ou o caradurismo virou moda?

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