O ogre do Planejamento

Carlos Chagas

Ogre, ou ogro, segundo o Aurlio, era um ser fantstico especializado em assustar crianas. Bicho-papo, como diziam nossas avs. Pois no que o tempo passou, vieram os vampiros, lobisomens, mmias, ETs, Freddy Krueger e Volverine, mas quem acaba de reentrar no palco brasileiro? ele, o ogre. E com correo monetria, pois disposto, agora, a assustar tambm os adultos.

Tem um nome, essa fantasmagrica figura. Chama-se Paulo Bernardo, atualmente ministro do Planejamento, que acaba de anunciar um corte de 21,8 bilhes de reais no oramento deste ano. Irrompendo pelas trevas da demagogia, informou que os cortes no atingiro as obras do PAC, nem investimentos em sade e educao.

Vai tirar de onde essa quantia j destinada a atender as despesas da nao?

Tambm no ser da sonegao de impostos praticada pelas elites, muito menos dos altos salrios das chamadas carreiras de estado. Nem ser dos gastos com cartes corporativos, das lambanas dos diversos mensales, dos subsdios a milhares de ONGs fajutas ou do combustvel de jatinhos particulares a servio dos banqueiros. Sequer do abusivo lucro dos bancos.

Conforme informaes do prprio ministro, o dinheiro vir de cortes com pessoal. Jamais do pessoal do andar de cima, claro, mas daqueles que sustentam a estrutura do pas. Dos professores, por exemplo: na Universidade de Braslia e breve das demais universidades pblicas, o ministrio do Planejamento j mandou cortar 26.5% dos vencimentos, includos os aposentados. O pretexto de que recebiam as tais URPs, uma compensao diante da inflao. Houve ajuda do Tribunal de Contas da Unio para esse esbulho, ainda que os salrios dos nclitos ministros nomeados politicamente no venham a sofrer qualquer reduo. A deciso, porm, foi do ogre.

Garfado, no vencido

Faz tempo que o presidente do PMDB, Michel Temer, sabe que no ser escolhido pelo presidente Lula para companheiro de chapa de Dilma Rousseff. O partido est pronto para indic-lo, quase por unanimidade, mas o primeiro-companheiro no quer. Principalmente depois que a candidata oficial comeou a crescer nas pesquisas, demonstrando que em pouco tempo nenhuma concesso precisar ser feita aos partidos aliados. De necessrios eles esto passando a suprfluos, quer dizer, ser timo se apoiarem Dilma, mas se no apoiarem, tanto faz. A popularidade do chefe parece transferir-se para ela.

Claro que a equao no est completada. O vento pode mudar. Caso continue soprando sobre os companheiros, Michel nada poder fazer. Se mudar, no entanto, o PMDB ser capaz de dar o ultimato: ou a indicao de seu presidente ou a liberao para os diretrios regionais seguirem o rumo que bem entenderem. At apoiar Jos Serra, como os caciques de So Paulo pretendem.

Na hiptese de Dilma continuar crescendo nas pesquisas e posicionar-se como favorita, o presidente Lula poder dar-se ao luxo de recrutar o candidato vice-presidncias em outros arraiais.

Henrique Meirelles, por exemplo, mesmo pertencendo ao PMDB, nada tem a ver com a direo nacional do partido. Por via das dvidas, dever desincompatibilizar-se at 2 de abril. Ciro Gomes, de seu turno, no afasta a possibilidade de aceitar, caso convidado e dentro de suas condies. Em suma, Michel Temer estᠠ garfado, mas no vencido.

Tem que abrir o leque

O senador e ex-ministro da Educao, Cristvam Buarque, decidiu candidatar-se ao governo do Distrito Federal. Mostra-se disposto a enfrentar Joaquim Roriz, o pai de toda essa lambana praticada pelo ex-governador Jos Roberto Arruda e sua quadrilha. No vai ser fcil, mas, enquanto governou Braslia, Cristvam jamais foi acusado de qualquer irregularidade ou trapalhada. Pode ter-se cercado de alguns incompetentes, at na Comunicao Social, mas estar vacinado contra traies.

A importncia para o pr-candidato ser abrir o leque. Apesar de dedicado em tempo integral questo do ensino pblico, precisar preparar-se para enfrentar outras questes. A maior delas, a violncia que domina a capital federal. A bandidagem e o trfico de drogas. Tambm o trnsito, a partir da evidncia de que Braslia foi feita para seus habitantes, no para seus veculos. O desemprego precisa merecer cuidados especiais, tamanho o nmero de infelizes agrupados em torno dos semforos do Plano Piloto, vendendo bobagens ou simplesmente mendigando. Numa palavra: se decidir enfrentar a parada, precisar reciclar-se.

Conversa reservada

O que conversavam o ministro Edison Lobo e o senador Renan Calheiros, esta semana, na hora do almoo, no canto de um restaurante de classe mdia, nada badalado, aqui em Braslia? Chegaram antes das 13 horas e s se levantaram pouco antes das 16.

Quebrou a cara quem por acaso tentou sentar-se em mesas ao lado. O garon participava estarem aqueles lugares reservados, ora para um grupo de advogados, ora para funcionrios de um banco, que no apareceram. Os dois comensais deram prejuzo ao estabelecimento, pois nem vinho tomaram, apesar de Lobo ser bom conhecedor. Mas se a moda pega, logo o Francisco multiplicar sua receita.

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