O ovo, a galinha e o pré-sal

Carlos Chagas

Só perdeu para o comício das “Diretas Já” a manifestação de ontem na Candelária, no Rio, contra o projeto  aprovado na Câmara sobre a nova política de royalties do petróleo. Conseguiu o governador Sérgio Cabral mobilizar a opinião pública fluminense para a luta contra um texto que, se aprovado no Senado, vai retirar mais de quatro bilhões de reais da receita do estado. Políticos, atores e  artistas viram-se envolvidos por massa considerável de cidadãos comuns, anônimos, sensibilizados pelo estrilo e pelas lamentações do governador.

Feito o registro, importa seguir adiante. Discute-se no Rio mais ou menos como se discutia em Cosntantinopla, no ano de 1453, sobre quem Deus havia criado primeiro, se o ovo ou a galinha. As discussões eram tão intensas que todo dia morria gente. Resultado: os turcos abriram brechas nas muralhas, entraram,  passaram a metade de seus habitantes pela espada e até hoje a cidade chama-se Istambul.

Fora o abuso que seria retirar dos chamados estados petrolíferos a parcela a que tem direito sobre o petróleo atualmente extraído, parece pantomima debater o lucro das reservas do pré-sal, que apenas em vinte anos poderá estar sendo explorado comercialmente. Quer dizer, aquela montanha de dinheiro idealizada pelos governos federal e estaduais permanece tão  intocada quanto a riqueza está submersa.  Até que o pré-sal dê lucro terão que ser gastos muitos bilhões para viabilizá-lo.

Por que, então, ficar gastando por conta? Pior ainda, criando um impasse federativo de sérias consequências? A responsabilidade vai toda para o presidente Lula. Ao governo federal interessa mudar o regime de concessões estabelecido pelo sociólogo, que favoreceu especificamente empresas estrangeiras. Com o pré-sal seria diferente, ou seja, volta a estatização.   A questão dos royalties bem que poderia ficar para depois.

Quando o marido não entra

José Maria Alckmin, conhecido pela sua verve, repetia sempre que em briga de marido e mulher, ninguém devia entrar. Muito menos o marido…

É mais ou menos o que acontece nessa guerra do pré-sal. O presidente Lula e dona Dilma não tinham nada que estimular o conflito constitucional entre os estados produtores e os não produtores  de petróleo. Até porque, o projeto aprovado na Câmara poderá demorar meses para ser votado no Senado. E como certamente sobrevirão modificações fundamentais, o texto retornará ao exame dos deputados. Dificilmente alguma solução neste primeiro semestre. Talvez nem no segundo.Um pouco de calma não faria mal a ninguém.

Boi de piranha

A ninguém será dado imaginar que José Roberto Arruda é um injustiçado e inocente governador devorado pela perseguição de seus adversários. Foi e continua sendo punido por haver chefiado perniciosa quadrilha de corruptos no Distrito Federal. Agora, parece que só ele deve carregar nos ombros os males do mundo. Até agora nem se fala de investigar e punir os corruptores, sem os quais não haveria corruptos. Traduzindo: e os empresários que super-faturavam obras e serviços, repassando dinheiro sujo para os políticos? Não tem um só sendo processado, muito menos posto na cadeia. Esperam todos o próximo governo para retomarem as mesmas práticas de sempre.

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