O papa e a crise civilizatória e humanitária

Cristovam Buarque

Quando soube da nova encíclica do papa Francisco, lembrei-me de um judeu, meu professor Ignacy Sachs. Há 45 anos, ele abriu meus olhos para o limite “ao” crescimento, devido às restrições físicas, e para o limite “do” crescimento, pela impossibilidade de o consumo supérfluo fazer uma humanidade mais feliz.

Mas, por décadas, aqueles que indicavam os limites “ao” e “do” crescimento propondo um novo modelo de desenvolvimento para as nações foram rejeitados pela “teologia do crescimento”. A ideia do progresso como sinônimo de produção e consumo crescentes domina o pensamento social como uma doutrina religiosa. A escassez de recursos e as mudanças climáticas passaram a mostrar os limites físicos da natureza; a desigualdade social crescendo ao ponto de quase romper o sentimento de semelhança entre os seres humanos; o vazio existencial e as crises econômicas mostraram os limites éticos do crescimento.

Quando a palavra “decrescimento” passou a ser utilizada como uma alternativa, escrevi sobre o assunto; um leitor publicou crônica em outro jornal dizendo que eu havia sido submetido a uma lobotomia. Na verdade, a insanidade na voracidade do processo da produção e consumo há quase 50 anos apresenta indicadores de esgotamento. Apesar da crise ecológica, a “teologia do crescimento” continuou dominando o pensamento social e a prática política; e as críticas ao crescimento como vetor do progresso humano continuam sendo denunciadas como gestos de insanos.

SEM ESTADISTAS

O mundo atual não tem estadistas porque os políticos estão divididos entre aqueles prisioneiros da lógica do impossível crescimento econômico ilimitado e para todos e aqueles considerados “lobotomizados”, porque apresentam alternativas de outro futuro, negando as bases filosóficas e econômicas da civilização industrial. A nova encíclica do papa Francisco traz um raio de luz para o debate sobre o futuro desejado e possível para a humanidade. Sua fala vai provocar uma luz na escuridão do debate político no mundo de hoje. Ainda mais: ele oferece uma “teologia da harmonia” para substituir a “teologia do crescimento”.

Com sua encíclica, o papa Francisco se sintoniza com a crise civilizatória e humanitária – desequilíbrio ecológico, divisão social, migração em massa, desemprego, violência, intolerância – e propõe a necessidade de construirmos uma nova civilização, na qual o crescimento seja um instrumento, mas não o propósito em si; e o decrescimento na produção, em alguns lugares e para certas camadas da sociedade, passe a fazer parte das estratégias de evolução humana.

Com sua autoridade moral, ele contribui para que o debate não mais seja entre o socialismo, que não deu respostas, e o capitalismo, que deu respostas erradas, mas entre a civilização regida pela “teologia do crescimento” e a civilização orientada pela “teologia da harmonia” entre os seres humanos e destes com a natureza que os sustém.

One thought on “O papa e a crise civilizatória e humanitária

  1. ISSO TUDO FICA SÓ NO NÍVEL TEÓRICO, REALMENTE UM DIALOGO DE “LOBOTOMIZADOS”.
    POR QUE NÃO PARTIR PARA PROPOSTAS CONCRETAS COMO POR EXEMPLO O USO DE ENERGIAS ALTERNATIVAS COMO A SOLAR E EÓLICA.
    A PROPÓSITO NOSSO NORDESTE, BEM COMO A ESMAGADORA MAIORIA DO NOSSO TERRITÓRIO TEM TODAS AS CONDIÇÕES PARA ISSO, MUITO MAIS QUE A ALEMANHA E A CHINA QUE TEM UM ÍNDICE DE ENERGIA RENOVÁVEL BEM MAIOR QUE O NOSSO.
    E NA EDUCAÇÃO ENTÃO, EM QUE O COLUNISTA É ESPECIALISTA! CADE AS PROPOSTAS CONCRETAS?
    UMA DELAS SERIA UMA BOLSA-PROFESSOR FEDERAL! JÁ QUE EXISTEM TANTAS BOLSAS, INCLUSIVE MUITAS DELAS ESTIMULANDO A VAGABUNDAGEM EM TROCA DE VOTOS, POR QUE NÃO INSTITUIR ESSA, MUITO MAIS JUSTA E NECESSÁRIA PARA O PAÍS?

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