O patrimonialismo político reduz a esperança dos jovens


Pedro do Coutto
O ministro Dias Toffoli, presidente do TSE, através da imprensa, revelou que o eleitorado brasileiro cresceu 5% e 2010 para cá, o que coincide com o índice demográfico registrado pelo IBGE para o período. É alto o nível de eleitores, uma vez que corresponde, creio eu, a 63% da população. A divisão entre mulheres (52%) e homens (48%) segue o que ocorre na composição dos habitantes por sexo. Mas algo chama atenção nas declarações do ministro Toffoli: o alistamento espontâneo dos jovens, nos últimos quatro anos, caiu 31%.
O fenômeno, acentuado, não encontra explicação apenas na mudança do critério à base de considerar o limite de 18 anos, até outubro, entre o voto facultativo e a presença obrigatória nas urnas conforme a lei. O percentual da diferença é grande demais. Tem que haver outra explicação, ou outras explicações. A mais forte e precisa delas, a meu ver, encontra-se no artigo de ontem de Elio Gasperi, publicado no O Globo e na Folha de São Paulo simultaneamente.
Nele o articulista, com o brilho de sempre, ilumina os caracteres imperialistas e sobretudo patrimonialistas de que se reveste a política brasileira. Especialmente o patrimonialismo. Ele cita especificamente os casos de Pasadena e do aeroporto de Cláudio, Minas Gerais. Poderia alinhar inúmeros outros, a começar pelo Rio de Janeiro com os convênios entre a Prefeitura e ONGS que receberam vultosas somas por determinados serviços, mas não os executaram na prática.
Relativamente à Pasadena ainda houve uma decisão do Tribunal de Contas da União. Quanto à Prefeitura do Rio, somente agora é que diversos convênios vão ser analisados e, sobretudo, conferidos os serviços prestados. Acontecendo a inexistência de comprovação, tal realidade já por si é uma comprovação do que de fato ocorreu, ou deixou de ocorrer. Quanto ao aeroporto na cidade  de Claudio, pelo menos existe seu reconhecimento oficial, já que o orçamento de Minas Gerais para 2015 prevê uma indenização de 20,5 milhões de reais para cobrir a desapropriação da área. Mas estas são questões específicas.
JOVENS DECEPCIONADOS
Retornando o tema que abrange a falta de interesse de acentuada parte da juventude em participar do processo eleitoral, vemos, de modo geral e nítido, que o motivo principal situa-se na classificação iluminada por Gaspari.  A leitura dos jornais diários, o acompanhamento dos noticiários da televisão, são espaços e mais espaços que identificam e expõem a má aplicação de recursos públicos, conduzindo para o crescimento ilegítimo de patrimônios particulares. São desvios sem possibilidade de retorno do que foi desviado. Pois ninguém, de bom senso, pode acreditar no reembolso aos cofres da Petrobrás de 90 milhões de reais tragados na operação de Pasadena. O que passou, passou, vão sustentar os principais acusados.
O risco é próprio das transações. Só que riscos e consequências assim contribuem para causar falta de ânimo dos jovens para as atividades políticas. E se, como dizia JK, política é, no fundo, esperança, quando esta falta o reflexo atinge a sociedade, através da juventude. E falar em juventude é falar em renovação.
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    5 thoughts on “O patrimonialismo político reduz a esperança dos jovens

    1. Vale lembrar que o Rodrigo Betlhem é jovem. É renovação na política. E que renovação. Assim como os pais transmitem para os filhos suas características genética, a mentalidade de um povo é transmitida para as novas gerações pelo comportamento da sociedade. Já disseram , há mais de 40 anos, ou restaura-se a moralidade pública ou locupletemo-nos todos. Quem não quer ficar rico jovem, nunca mais ter que precisar de emprego para se sustentar ? Se a receita federal, os orgãos fiscalizadores, o TSE , não se importam com o enriquecimento fantástico dos políticos, os políticos mais jovens também vão querer enriquecer rapidamente usando o público como se fosse privado. Mas o pior é que não há o compromisso com o acerto. Errando ou acertando a riqueza vem.

    2. Bom artigo, Sr. Pedro.

      Só uma pequena correção: o eleitorado corresponde a um pouco mais que 70% da população brasileira.

      Grande abraço!

    3. Gostei muito do seu artigo, senhor Pedro do Coutto… praticamente avançou sobre aspectos que na verdade acabaram por gerar a nova gera~ção nem-nem, nem trabalha e nem estuda…
      Também, subliminarmente, demonstra que os jovens brasileiros, infelizmente, são o próprio retrato de que o exemplo vem de cima…

    4. Excelente texto! Encaixou-se perfeitamente com algumas reflexões minhas.
      Acabo de me formar em engenharia e a dificuldade em arrumar trabalho vem me flagelando o espírito. Isto me faz imaginar o desespero que a falta de perspectiva causa na alma de um jovem, principalmente aqueles sem qualquer qualificação ou experiência profissional.
      Somando isso à falta de perspectiva numa mudança política e ao cenário assustador que a economia (nacional e internacional) vem projetando para o futuro, acredito que o jovem perdeu mesmo qualquer esperança no futuro.
      Infelizmente, acredito que a tendência é piorar muito e rapidamente. Estamos entrando em um circulo vicioso.

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