O Peru Índio

Sebastião Nery

O avião da Aeroflot saiu de Vladivostok, lá no extremo leste da Rússia, veio vindo, veio vindo, três dias de viagem e desceu em Lima, no Peru. Naquele dezembro, janeiro e fevereiro de 1980/81, não havia vôos de Moscou para o Rio. Depois de quase três meses entre savanas infinitas, esquálidas florestas da Taigá e a neve eterna do Polo Norte, escrevendo meu livro sobre a Sibéria, a rota da volta era a Aeroflot até Paris ou Lima e, de uma ou de outra, a Varig direto para o Rio.

Na manhã seca de Lima, a confusão começava no aeroporto. Greve geral. Conseguir um táxi era uma guerra. E um luxo: aqueles velhos carrões desbotados americanos, rabos de peixe, caindo aos pedaços. A experiência ensina que, nessas situações, a melhor solução é o melhor hotel possível no melhor bairro possível. Fui direto para Miraflores.

Chegar até o hotel, outra guerra. Passeatas agressivas brotavam de todos os cantos. Todo mundo com cara de índio, tudo “cholo”, mistura de espanhol com índio. Muita gente de lenço no rosto. O motorista avisou:

– Não saia à rua. Cara de gringo eles atacam.

Logo eu, baiano de Jaguaquara, neto de português e índia.

GRINGOS

Mal assinei a ficha na recepção, vem vindo, avenida abaixo, uma passeata barulhenta e saltitante. Lojas fechavam às pressas, para se protegerem de pedras, paus e pontapés. Deixei a mala na portaria, peguei minha Laika soviética e fui para a frente do hotel fazer fotos. O chefe da segurança, “cholo”, bem índio, pequeno e forte, cabelo preto, me puxou:

– Não faça isso. Não se arrisque. Eles têm ódio de estrangeiro.

Três meses de Sibéria, entre neve e gelo, estava branquíssimo. Insisti. Desci da calçada, dei alguns passos, fiquei na rua fotografando a multidão cada vez mais perto. Um grupo me viu e gritou:

– Gringo! Gringo! Pega!

De repente, eram dezenas atrás de mim. Voltei desesperado para o hotel. E eles me perseguindo, gritando coisas que eu não entendia. Por muito pouco não me pegaram. Fui salvo pelo chefe da portaria, “cholo” como eles:

– Es brasileño! Es brasileño! Nuestro hermano!

A 30 quilômetros dali, participando de um campeonato, meus filhos, alourados, tranquilamente surfavam na magnífica praia de Punta Hermosa. Todo ano vão lá. Agora mesmo um deles, o Jacques, está lá e me deu um quadro das eleições presidenciais, nas últimas semanas de campanha.

HUMALA

Mais uma vez o Peru, com 75% de “cholos” e 25% de “brancos” descendentes de espanhóis, que, quando com raiva, eles chamam de “gringos”, elegeu novo presidente da República. O atual presidente, Alan Garcia, é “branco” e nem candidato teve. Desta vez, tudo indicava que um “cholo”, Ollanta Humala, ia ganhar as eleições.

Um mês atrás, ele era o último dos quatro. Mas a radicalização da America Latina, sobretudo pela grande imprensa, que é a mais venal do mundo, levou as eleições para um Fla-Flu entre o “neoliberalismo” e a “agenda social”. Quer dizer, entre os ricos e os pobres. Humala, o candidato “dos pobres”. Os outros três candidatos eram “dos ricos”.

O presidente Alan García, com 25% de aprovação, nem candidato lançou, embora o Peru seja o país latino-americano que mais cresceu nos últimos anos, um “crescimento chinês”. Enquanto a média da America do Sul, contando Brasil e Venezuela, não chegou a 4%, o “milagre peruano” chegou a 8,8% do PIB em 2010 e média de 5,19% na década.

NEOLIBERALISMO

Mas, como sempre, o dinheiro do crescimento ficou com os banqueiros, os exportadores, os “ricos”. Não reduziu a desigualdade, principalmente na zona rural. Os índios, os “cholos”, são claramente a maioria da população, mas o comando do dinheiro,da sociedade,é dos 25%.

Isso ficou claro na hora da escolha dos candidatos. O ex-ministro das Finanças Pedro Pablo Kuczinski, o PPK, era o candidato da direita aberta. Keiko Fujimori, a filha do ex-presidente Alberto Fujimori, ainda na cadeia, também é “direita”, como o pai. Alejandro Toledo, ex-presidente, “cholo” ilustrado, formado e doutorado nos Estados Unidos, fica em cima do muro, como um tucano: é “centro-direita”. E o “índio” Humala é “esquerda”.

VARGAS LHOSA

Há um ano os “jornalões” da Kux-Klux-Klan gráfica, os mais reacionários do continente, reunidos numa organização mafiosa chamada “Jornais das Américas” (no Brasil, “O Globo” e o “Estado de São Paulo”, na Argentina “Clarín” e La Nacion”, “Expresso” no México etc.) vinham vetando a eleição de Ollanta Humala dizendo que ele é “o Chávez Peruano”. A campanha, estúpida, virou a favor dele. Até o filho de Vargas Lhosa, o Álvaro Vargas Lhosa, que apoia Alejandro Toledo, concorda :

“Humala permaneceu alheio às discussões banais da campanha e se dedicou a visitar todo o país. Ele representa os setores desencantados com o modelo peruano, que continuam vivendo em condições muito precárias”. Por isso mesmo, ganhou as eleições.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

One thought on “O Peru Índio

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *