O porre de Gallotti e a compra da Light

Gallotti corrompeu o governo Geisel em 79

Sebastião Nery

Era meia noite de um fim de semana de 1979. O restaurante Antonio’s, varanda lírica da República do Leblon, no Rio de Janeiro, começava seu fim de noite. Nas mesas, os profissionais da madrugada penduravam esperanças e desencantos nas beiras dos copos.

Um conversar silencioso e humilde, como do feitio dos calejados. Cada grupo em sua mesa, como monges de uma missa noturna. De repente, o tufão. A porta se abre forte e aparece, cabelos brancos displicentemente penteados, rosto queimado de sol, terno azul sem gravata, Antonio Gallotti. Foi como se Napoleão entrasse em um bistrô de Paris, mal chegando da conquista do Egito. O restaurante explodiu numa salva de palmas, calorosa, continuada, visivelmente sarcástica. Alguém gritou:

– Apaguem-se as luzes! Não precisa mais! A luz chegou!

Tarso de Castro comandou:

– Ótimo. Todas as contas pagas!

Paulo Casé, desconsolado:

– Que pena! Eu tinha acabado de pagar a conta.

Gallotti faz um gesto amplo com a mão direita, cumprimenta-nos a todos e senta-se à mesa de Miguel Lins, Mauro Salles e Otto Lara Rezende. Estava visivelmente excitado, como quem tivesse ganho na Loteria.

Tirei um pequeno bloco do bolso, a caneta, e, discretamente, atrás da garrafa de vinho, fui anotando tudo que ouvia. Otto Lara e Mauro Salles falavam baixo. Miguel Lins, sorvendo seu charuto, celestialmente, quase em transe, mal falava. Só Gallotti, com sua voz anasalada, seu sotaque de tenor italiano,“allegro, allegríssimo”, falava. Alguém pergunta:

– Como é que foi?

– No dia 12 de julho, mergulhei. Quando voltei à tona, o negócio estava garantido. Aí, viajei. Não fui morto pelos acionistas de lá porque fugi. Cheguei aqui, todo mundo contra mim.

Alguém interrompe:

– Volta, Gallotti!

– Não ganhei nada na transação. Não ganhei zero da Light. Tive só 39 da Brascan (Imaginei 39 milhões de dólares – SN).Gosto de ganhar dinheiro. Quero ganhar dinheiro. Mas, sobretudo, quero morar na glória dos amigos. Às vezes, fico pensando e na minha insensatez me digo: “Que besteira que eu fiz! Melhor, só para os acionistas da Light.”

E dá uma gargalhada nervosa, estrepitosa, delirante, quase histérica.

(E foi assim que o Brasil “comprou” de novo a Light já nossa).

O CHÔRO

Galotti pára, cala, baixa os olhos, como se estivesse triste. Alguém levanta um brinde “à vitória do negócio”. E ele atrás dos óculos de aro preto:

– Agora, vou dizer uma coisa a vocês. A vitória não foi só minha. Tive companheiros dedicados, tive juristas, tive muita gente importante a meu lado. Mas que foi bonito, foi. Foi ou não foi bonito? Foi maravilhoso! Eu estou emocionado! Eu estou chorando! Tô chorando! Me dá um lenço que eu vou chorar! Me dá teu lenço, Mauro, para eu enxugar minhas lágrimas! Eu chorei! Como no samba, eu chorei!

E as lágrimas lhe rolaram rosto abaixo, indisfarçadas. A mesa ficou tensa, calada. Gallotti, quase soluçando, tenta consertar a emoção.

Rubem Braga levanta-se, dá um abraço em Otto e lhe diz ao ouvido:

– O Sebastião Nery está anotando tudo ai atrás.

Otto olha para trás, me vê, passa as mãos pela cabeça branca, e suspira. Miguel Lins sente alguma coisa no ar, diz a Gallotti:

– Fale baixo, estão ouvindo sua conversa.

Chico Buarque levanta-se, vai saindo, Miguel Lins chama-o:

– Antonio, você conhece o Chico?

– Muito prazer, meu filho. Você ainda é muito mais charmoso pessoalmente do que nas fotos.

Chico sorri seu sorriso discreto, Gallotti insiste:

– Você sabe quem eu sou?

– Sei sim. O senhor não é o homem da história mal contada?

E sai. A mesa fica gelada. Rubem Braga vai saindo também, seu passo manso, o olhar sábio de caçador de instantes.

– Rubem, um abraço.

– Um abraço. Saibam vocês que, haja o que houver, estou neutro.

E sai. Uma mesa começa a cantar com a música do Flamengo:

– “Gallotti, Gallotti, tua glória é lucrar!/ Gallotti, Gallotti, campeão de faturar!”

Ele fala com Norma Benguel. Ela ironiza:

– O senhor é português? Tem um sotaque multinacional.

Ele volta para meu lado:

– Nery, você sabe quem eu sou?

– Claro, doutor Galotti.O senhor é a luz que ilumina o triste fim do governo Geisel.

– Não é nada disso, Nery. Leio você todos os dias, na Tribuna, conheço seus livros, vejo você todos os dias na TV Bandeirantes. Não sei se gosto mais de seu estilo, de seu talento ou de seu patriotismo. Mas confesso que às vezes me assusto com sua maledicência.

(Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata Galotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).

10 thoughts on “O porre de Gallotti e a compra da Light

  1. “(Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata, Galotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).”

    -COMO?
    -Quer dizer que A NOSSA DEMOCRACIA só começou em março de 2014, com a Operação Lava Jato? E eu que pensava que tivesse começado com o governo do Maribondo de Fogo, José Sarney!!!

    -Então uma salva de palmas para o homem que introduziu a democracia no Brasil: SÉRGIO MORO.

    • Chega a ser patética a pretensão do Nery, de esconder toda a roupa suja da farsa ideológica marxista, não é mesmo Vieira? Nery, Santayana, Boff, Chico Buargue e caterva que os valha, não perdem o vício de tentar fazer o próximo de otário, . . .

      Só que, passam recibo da idiotice marqueteira de suas pobres, amorais, permanentes e viciadas pretensões de tentar passar a perna no próximo, enganar, nem que seja apenas “no verbo” e sem levar nenhuma “vantagem direta”. Só pelo espírito de se auto afirmar e manter as massas idiotizadas, prontas para o próximo “experto” de sua linhagem de pulhas, estar em condições de dar a sua “beliscada”!

      Na verdade, são eles os verdadeiros COITADOS!

  2. Pinóquio não contaria história mais fantasiosa.

    Resta saber dos poucos que ainda estão vivos – entre Antonio Gallotti, Tarso de Castro, Paulo Casé, Miguel Lins, Mauro Salles, Otto Lara Rezende, Chico Buarque, Rubem Braga e Norma Benguell, que, juntos, lotariam a minúscula varanda do Antonio’s, além do próprio Nery – até que ponto vai a verdade.

  3. ” Essa é a diferença entre a ditadura e a democracia. Depois da negociata Galotti foi para o bar. Os empreiteiros vão para a cadeia).” A bem da verdade, não foi sempre assim no pós-militarismo, só durante o Gov. Lula/PT, diga-se de passagem. Aliás, de outros governos fala-se muito del “engavetador geral da república”, entre muitos outros casos até mais assustadores que terminavam sempre em pizza. Vale lembrar até certo Jornalista no qual emburricaram processos. pedidos de indenizações e até de cadeia pelo fato de denunciar os esquemas então existentes na Petrobras que só no vieram à tona nos Gov. Petistas ( e o Maynardi sabe muito bem de quem estou falando). E o pobre homem, cercado pelos denunciados, sem apoio até mesmo da empresa-patroa acabou até morrendo enfartado.

  4. Incrível a postura dos comentaristas contra a história da LIGHT contada por Sebastião Nery. Em primeiro lugar, Nery postou o mesmo artigo de agora na Tribuna da Imprensa no momento da reestatização da LIGHT canadense. A história é real. A LIGHT foi comprada quando estava prestes a terminar o prazo de concessão e o preço pago pelo governo Geisel chegou próximo de 1 bilhão.

    Na época, a narrativa consistia em que a Light canadense não estava mais investindo na distribuição de energia no Rio de Janeiro, que sofria com constantes apagões. Na realidade essa narrativa, que não era a verdadeira, porém, serviu para referendar o negócio no mínimo estranho. O fato é que os canadenses da Brascan começaram a substituir o cobre pelo alumínio no caminho do poste até as residências dos cariocas. O Alumínio é muito mais barato. Ocorre que, as conexões de alumínio provocavam constantes desligamentos dos circuitos derivados da oxidação do metal, situação completamente das conexões de cobre.

    No entanto, a LIGHT não estava mais investindo em novos transformadores, na substituição de cabos para fazer frente a crescente demanda por energia das indústrias e dos novos empreendimentos residenciais, principalmente na Barra da Tijuca.

    Acompanhei de perto esse processo, até porque o processo se inverteu nos idos de FHC, quando a LIGHT foi privatizada por valor menor do que foi comprada no governo Geisel.

    Portanto, pelos fatos e motivos aqui expostos, sinceramente, não vejo como podem achar que Sebastião Nery esteja fantasiando sobre o episódio. Mas, nesse mundo do achismo, qualquer pessoa pode escrever o que der na telha, até desmentir um excepcional jornalista e escritor como Sebastião Nery.

      • Mais um alienado que continuia surfando as ondas da desinformação do passado, . . . coitado! Continua na velha postura da promoção da “panelinha marxista de cá”, “contra”, uma “pseudo panelinha comunista de lá”, achando de o mundo estacionou na década de 60 !

        Enquanto isso a “galera experta” enche a burra com o erário que teria de garantir os serviços públicos de saúde, segurança e educação, enquanto a manezada idiotizada prossegue com seus antolhos funcionais para o precipício! Pior ainda, a galera que encheu e continua enchendo a burra, agora na “Era Internacionalista Petralha” INOVOU, . . . passaram a financiar e desviar o nosso dinheiro, a seus “Camaradas de Outros continentes”.

        Para conseguirem se refastelar SEM o CONTROLE das instituições do Estado às escondidas, declararam ser “Segredo de Estado” os “empréstimos” de Bilhões de dólares realizados com o nosso dinheiro do Tesouro, que foi e continua sendo transferido para o BNDES! E esses “apalermados funcionais petistas” nem vergonha têm de passar recibo de sua imbecilização ao continuarem defendendo o “partido”! É mole?

        Aí! Analise bem a charde do Duke de hoje “camarada” e vê se cai na real! Clique aqui:
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