O porrete e o vira-lata

Mauro Santayana
Jornal do Brasil

No momento em que se levantam, novamente, as vozes do neoliberalismo tupiniquim, exigindo uma rápida abertura comercial do Brasil para o exterior, e o PMDB inclui, em seu documento Uma Ponte para o Futuro, a necessidade do Brasil estabelecer acordos comerciais com a Europa e os EUA, lembrando a iminência e a imposição “histórica” do Acordo Transpacífico, e em que mídia tradicional segue com sua insistência em defender como modelo a ridícula Aliança do Pacífico, a União Européia – depois de enrolar, durante anos, nas negociações com o Mercosul – parece que vai simplesmente “congelar” as negociações entre os dois blocos.

A razão é clara. Por mais que se esforcem os vira-latas tupiniquins, fazendo tudo que os gringos querem, oferecendo quase 90% de liberação de produtos, os protecionistas europeus simplesmente se recusam a concorrer com o Mercosul na área agrícola – justamente onde somos mais competitivos.

E, além disso, como se não bastasse, a UE como um todo, para dificultar, hipocritamente, ainda mais o fechamento de um acordo, exige o equivalente a uma rendição total da nossa parte: a liberação de quase 100% dos produtos e livre acesso, para suas empresas, como se nacionais fossem, a setores como serviços de engenharia e advocacia e ao gigantesco mercado de compras governamentais brasileiro, de dezenas de bilhões de dólares.

O RECADO É ÓBVIO:

Não adianta ficar ganindo e mendigando com olhar pidão, para ter atenção ou uma migalha, porque não vamos ceder um centímetro, e, mesmo que vocês façam tudo, tudo o que queremos, poderão não ganhar nada em troca, está claro?

Como lembramos outro dia, grandes potências impõem acordos comerciais, e os pequenos países os assinam.

Nações que não tem uma indústria tão desenvolvida como a nossa, como a Argentina, ou outras, que, com salários miseráveis, se transformaram em mera linha de maquila, tendo prejuízos no comércio exterior, apesar de trabalharem como burros de carga montando produtos destinados a terceiros mercados, como o México (vide “O México e a América do Sul”), não têm outra saída a não ser se associar a outros países (esse é o projeto do Brasil para a América do Sul, por meio do Mercosul e da Unasul) ou assinar acordos comerciais desvantajosos, para se integrar, subalternamente, à economia mundial.

FECHAR A ECONOMIA

Países maiores, com grandes mercados consumidores reais ou potenciais, como a China, preferem fechar suas economias durante anos, dedicando-se a desenvolver seu mercado interno, a indústria e a tecnologia, abrindo seletivamente seu território a empresas estrangeiras e cobrando um alto preço para quem quisesse ter acesso a ele, para depois se impor, comercialmente, ao mundo.

A pergunta é a seguinte: vamos nos atrelar, como um mero vagão de commodities, ao trem puxado pela Europa e os Estados Unidos, onde sempre seremos tratados, apesar de nossos eventuais progressos, como um povo de segunda classe, ou, em nossa condição de oitava economia do planeta, vamos tentar estabelecer um projeto próprio e soberano, de longo prazo, como fazem outras potências intermediárias do nosso tipo, como a China, a Rússia e a Índia, que, aliás, não têm – nenhuma delas – acordos de livre comércio com a Europa ou os EUA?

Tentar emular, abjetamente os outros, e lamber o sapato alheio é fácil. Difícil é trabalhar para erguer no quinto maior território do mundo – assumindo a missão e o sacrifício –uma nação justa, forte, e independente, e legá-la, como fizeram em outros países que muitos no Brasil admiram e “copiam”, como um estandarte de honra e de prosperidade, para os nossos filhos.

28 thoughts on “O porrete e o vira-lata

  1. Kkkkkkk. Rindo pela “qualidade” do texto e dos argumentos falsos. Cingapura, Coréia do Sul, Chile e outros agradeçem. As empresas escravocratas chinesas tb. Triste por ver que alguém, que um dia foi levado a sério, chega ao fim da vida desta maneira.

  2. Somados todos os fatos já existentes à prisão de um senador no exercício do mandato, prisão decretada pelo Supremo e por ação de obstrução da justiça, talvez até por envolvimento na possível fuga de Nestor Cerveró, a única conclusão é que estamos no fim de linha para o Congresso Nacional, também. Com seus dois presidentes, Câmara e Senado, investigados e o líder do governo no Senado na cadeia o Poder Legislativo vai precisar se repensar ou pode se tornar um por inútil e dispensável.

    O problema é que o Poder executivo não está longe na desmoralização. O senador Delcídio era o líder do governo e articulador na casa. A possibilidade da base de governo, já inconsistente, se desfazer aumentou consideravelmente. A crise de governabilidade se estampa no dia a dia e na ineficácia do governo central em lidar com temas básicos e urgentes de gestão como o desastre de Mariana ou o problema dos mosquitos. Da mesma forma o governo não consegue lidar com questões de gestão orçamentária, ao ponto de irritar os membros, em sua maioria da base de governo, da Comissão Mista de Orçamento do Congresso Nacional, com tantas idas e vindas, alterando os textos orçamentários a todo momento. Para coroar a obra Dilma decidiu incluir recursos orçamentários de uma lei que sequer ainda foi votada no Congresso e de cuja arrecadação não se sabe dizer se é uma ou a metade dela. É 100% desespero e desorientação.

    Restaria fazer o quê? Entregar o comando da nação ao Supremo?

    O fato é que a Nova República de 1988 dá ares de estar chegando ao fim. Precisamos urgentemente refundar a República e recriar uma política brasileira que nos possibilite seguir em frente. Tal como vamos não chegaremos a lugar algum. Apenas aprofundaremos o descrédito e somaremos a uma década perdida uma nova década. Por mais que pensem ao contrário não temos outra opção a não ser a política. Resta mostrar aos brasileiros de qual política estamos falando.

    Com essa velha Nova República o regime presidencialista de formação de maiorias por meio da privatização dos bens e serviços públicos também precisa chegar ao fim. Precisamos a coragem de assumir a necessidade de uma revisão constitucional completa e não apenas de partes da constituição. A começar pela proposta do parlamentarismo, pela reforma do Pacto Federativo, inclusive a apropriação de receitas, pela rediscussão do papel da Saúde Pública. O SUS como está é apenas uma miragem e não entrega os serviços prometidos. Há uma longa lista de questões que precisa, por exemplo, passar pela discussão da Segurança Pública e todas as políticas transversais envolvidas no debate, desde a educação até o sistema prisional. Há a necessidade, comprovada, de melhorar os sistemas de controle republicano, o formato de governança que realmente traga no seu bojo o controle da sociedade. O planejamento estratégico precisa deixar de ser apenas um discurso e existir em suas etapas de execução, avaliação e controle.

    Alguma coisa precisa ser feita. As gerações mais velhas cumpriram um importante papel no enfrentamento do autoritarismo e na conquista de um regime democrático. A atual geração precisa agora ser capaz de revisar o passado recente, apreender com nossos erros e seguir em frente consolidando a Democracia Republicana e levando esta nação a um destino que contemple todas as suas potencialidades. Não podemos simplesmente nos afunda nesta lama…

    • Ednei,
      Seu desabafo é uma unanimidade, . . . mas com a cultura clientelista que temos, e todas as leis que já foram criadas para evitar os vícios nos quais estamos recaindo demonstrando que de nada serviram, pergunto: acredita sinceramente que através de um regime democrático, eternamente vulnerável a aparelhamentos ideológicos e econômicos ao bel prazer como já demonstrou ser, o Brasil tem alguma chance REAL de sair dessa?

      Eu já não acredito mais nessa possibilidade. Um regime militar, por pior que possa representar que a autoridade que governa, seja também a legítima monopolizadora da força coercitiva, já demonstrou para mim, seja aqui como na Cingapura do então presidente Lee Kuan Yew, . . . que seja o único regime que consegue levar uma nação adiante. Infelizmente, claro, pois seria ótimo se pudéssemos acreditar que democraticamente seja possível atingir esse ideal!

  3. Santayana, tens absoluta razão, veja o Aécio Neves lider do partido estadudinense PSDB a bajular Macri, também mais um sabujo dos EEUU. O que os golpistas liderados por Aécio, Cunha e Temer querem é se apossar do governo para lamberem o cú dos americanos e entregarem o Brasil de joelhos para ser explorado pelos europeus e americanos. A conciência de nossa cidadania, não deixará que ambiciosos e traidores derrotados, sejam vitoriosos em seus propósitos imorais.

  4. Na delação premiada do Ricardo Pessoa consta o nome do amigão da Dilma Cardeal, que ela trouxe pessoalmente do Rio Grande do Sul….

    ” Pessoa também relata que na licitação para as obras da usina nuclear de Angra 3 o então diretor geral da Eletrobras, Valter Luiz Cardeal, teria passou a pleitear um desconto de 10% no valor da obra, mas que as empresas concordaram com 6%.
    Por isso, Cardeal teria pedido às empreiteiras que repassassem os 4% na forma de doações eleitorais. “Pelo que Ricardo Pessoa tem conhecimento, Valter Luis Cardeal é pessoa próxima da senhora presidenta da República, Dilma Rousseff”, diz a transcrição da delação.

  5. Inventaram até a cachaça Pixuleco ! kkkkaaasss

    ” Ricardo Pessoa revelou ainda que presenteava Lula com cortes de tecidos (custo médio de R$ 2,5 mil) e cachaça da “reserva especial da UTC”. O empreiteiro afirmou que não tinha certeza se Lula sabia da origem dos repasses. Os mimos eram enviados para o Palácio do Planalto e depois para o Instituto Lula.

  6. O outro nome do Pixuleco = ” Relações Políticas ” …

    ” O empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC Engenharia, disse em sua delação premiada no STF (Supremo Tribunal Federal) que entendeu, ao conversar com o atual ministro da Comunicação Social Edinho Silva sobre recursos para a campanha eleitoral da presidente Dilma Rousseff, em 2014, que o esquema de pagamento de doações para obtenção de obras na Petrobras continuaria em um eventual segundo mandato da presidente.
    OS NOVE PROCURADORES QUE DESTRINCHAM A LAVA JATO
    Nesta quinta-feira (3), pela primeira vez o STF tornou pública a íntegra da delação premiada de Pessoa homologada pelo ministro do STF Teori Zavascki. Ele prestou 29 depoimentos em maio deste ano, mas os termos estavam sob segredo de Justiça.
    Pessoa contou que manteve três contatos pessoais com Edinho, então tesoureiro da campanha de Dilma, no período da campanha eleitoral de 2014, duas vezes no comitê central do partido, em Brasília, e uma vez na sede da UTC em São Paulo.

  7. Era difícil ter desconto nos Pixulecos….

    ” Segundo Pessoa, o contato com Edinho foi feito a pedido do tesoureiro nacional do PT, João Vaccari Neto, “a pretexto de que era necessário contribuir para as eleições de 2014, inclusive para a campanha presidencial”.
    “Vaccari queria, além da conta corrente que mantinha com Pessoa, mais R$ 10 milhões”, contou Pessoa.
    O empreiteiro reagiu, dizendo que era muito dinheiro. Ao final das conversas, disse ter sido “persuadido de maneira bastante elegante”. Edinho teria dito, segundo o empreiteiro: “Você tem obras na Petrobras e tem aditivos, não pode só contribuir com isto. Tem que contribuir com mais. Eu estou precisando”.
    Ao final das conversas, houve a decisão da UTC de fazer doações de forma oficial, segundo Pessoa, “o que foi expressamente feito em razão da vinculação feita entre o pedido e os contratos da UTC na Petrobras e os entraves que poderiam ser postos”.

  8. Se não fosse a PF o Pixuleco seria eterno…

    ” Pessoa disse que, em um dos encontros, Edinho afirmou: “O senhor tem obras no governo e na Petrobras, então o senhor tem que contribuir. O senhor quer continuar tendo?”. De acordo com o termo de delação, Pessoa não interpretou a frase como uma ameaça, “mas sim como a afirmação de que se a presidente Dilma ganhasse, tudo continuaria como estava, ou seja, o sistema vigente funcionando”.
    O empreiteiro afirmou que os valores para a campanha de Dilma foram acertados em R$ 10 milhões, mas apenas R$ 7,5 milhões foram pagos a parte restante não foi depositada porque o empresário acabou preso pela Operação Lava Jato em novembro de 2014.

  9. SOBRE O LIBERALISMO

    Por Leandro Gavião em 27/05/2015

    O liberalismo econômico alicerça suas premissas num sistema de valores que reivindica o legado intelectual de um conjunto específico de autores, perpassando John Locke, Ludwig von Mises, Ayn Rand, dentre outros. Resguardadas suas idiossincrasias, estes pensadores são combinados com o intuito de legitimar uma determinada concepção contemporânea sobre o papel do Estado e uma tendência econômica específica, a saber: o Estado mínimo – restrito à tríplice função de assegurar a vida, a liberdade e a propriedade – e o livre mercado, respectivamente.

    À semelhança dos demais fatos humanos, a ascensão do discurso liberal é um fenômeno inscrito num contexto histórico específico. Os governos de Ronald Reagan e de Margaret Thatcher imprimiram à década de 1980 a marca do resgate da teoria e da práxis liberal, após um longo período de intervenção estatal instrumentalizada para solucionar os efeitos deletérios da Crise de 1929. Iniciaram-se, assim, as primeiras experiências de desmonte do Estado e de sacralização do mercado, sendo este último convertido em ícone da eficiência racional derivada do egoísmo individual humano.

    Na década de 1990, nos marcos da implosão do bloco soviético e do fim do comunismo real, a retórica liberal ganhou fôlego extra. O cientista político norte-americano Francis Fukuyama adiantou-se, inclusive, em proclamar o “fim da História” (FUKUYAMA, 1992). Na esteira do otimismo pós-Guerra Fria, o receituário liberalizante fora apresentado como panaceia para as mazelas socioeconômicas mundiais, sendo amplamente disseminado, mormente na América Latina
    Todavia, é sabido que a redução do papel social do Estado acarreta num sistema com acentuadas diferenças de classes, ocorridas, por exemplo, mediante a carência de um agente mediador com força suficiente para corrigir desequilíbrios, solucionar as tensões entre o capital e o trabalho, sustentar níveis de emprego e suprimir mazelas que venham a surgir de um aprofundamento das desigualdades.

    Em resumo, o Estado é fulcral para garantir a coesão da comunidade. Por esta razão, inúmeros intelectuais têm se posicionado contra as premissas do liberalismo, apresentando, de acordo com suas peculiaridades teóricas, tonalidades de argumentos que vão desde exortações morais até convincentes sustentações empíricas, de modo a exprimir as muitas discordâncias quanto ao dogma liberal.

    Cabe salientarmos que a crítica ao liberalismo aqui externada se relaciona à sua faceta econômica, não abarcando as instituições democráticas originárias do liberalismo político, a saber: o sufrágio universal, o regime parlamentar, as eleições livres, o reconhecimento dos direitos civis, a liberdade de pensamento e de imprensa, o princípio da participação da maioria na vida pública e a proteção das minorias. Em síntese, tudo aquilo que dimana dos três valores primordiais disseminados pela Revolução Francesa: liberté, égalité, fraternité.

    Isto posto, devemos estar conscientes tanto da separação entre os dois paradigmas liberais supracitados quanto da necessidade de valorizarmos os elementos mencionados no parágrafo anterior, sobretudo por se constituírem desdobramentos de demandas pretéritas perpetradas pelo Terceiro Estado e, posteriormente, pelos trabalhadores que, por meio de revoltas, greves e outras formas de manifestação, auferiram direitos outrora considerados utópicos, convergindo para a igualdade. É oportuno lembrar que esta última caracteriza-se como desígnio basilar das esquerdas, segundo o cientista político italiano Norberto Bobbio (2001).

    Do mesmo modo que os direitos raciais, de gênero e trabalhistas foram conquistados por meio de reivindicações de movimentos coletivos, a democracia deve ser considerada um triunfo das massas, e não do capitalismo. Basta para tanto observar que, ao longo do século XIX, as elites burguesas apoiavam a agenda liberal, não obstante rejeitassem o sufrágio universal (RÉMOND, 1997), componente indispensável para o real funcionamento da democracia, proporcionando participação política no sentido lato. Mas não sejamos ingênuos: o caráter perpetuamente inconcluso da democracia exige empenho diuturno direcionado para o seu aperfeiçoamento e manutenção (RANCIÈRE, 2014).

    O filósofo francês Jacques Rancière afirma que, a princípio, a democracia representativa consistia num regime de funcionamento do Estado de base parlamentar-constitucional, fundamentado primordialmente no privilégio das elites. Somente após uma sequência de exigências e lutas, a democracia passa a ser expandida para outros segmentos sociais. A história sangrenta da reforma eleitoral na Inglaterra é apenas um dos exemplos capazes de denunciar o idílio de uma tradição liberal-democrata e de expor a hipocrisia por trás do conceito de igualdade para as elites econômicas.

    No artigo intitulado “A utopia liberal”, o filósofo esloveno Slavoj Žižek (2008) traça um diagnóstico interessante sobre o neoliberalismo, apresentando-o como modelo econômico inconciliável com a democracia. Partindo de seu argumento, poderíamos dizer que as massas, no que concerne ao sistema capitalista, tendem naturalmente a se posicionar contra o desmonte do welfare State ou a se associar visando edificar um regime de bem-estar, gerando assim uma incompatibilidade intrínseca com o liberalismo.

    Considerando o posicionamento combativo das organizações laborais e sua histórica busca por direitos, fica evidente que a única forma de governo com uma plataforma econômica liberal conseguir enxugar as conquistas sociais para executar seu receituário é recorrendo ao emprego de métodos repressivos ou de teor autoritário, à revelia do diálogo com os sindicatos e com os movimentos sociais. Não é mera coincidência que as lideranças de governos liberais tendam a apresentar baixos índices de popularidade ou assumir características ditatoriais.

    Tais questões são muito bem trabalhadas pelo antropólogo venezuelano Fernando Coronil, que elenca sete consequências resultantes da expansão do neoliberalismo, dentre as quais se destaca a violência legítima de um poder ilegítimo, explicada a partir da eliminação das funções de assistência social por parte do Estado, reduzindo-o à mera agência ilegal de proteção ao serviço das megaempresas e agente de repressão instruído a calar os focos de insatisfação (CORONIL, 2000).

    Em outras palavras, o grande capital – poder ilegítimo – se torna capaz de mobilizar contra seus adversários a máquina repressiva do Estado que, em termos weberianos, é o agente que detém o monopólio da violência legítima dentro de um determinado território (WEBER, [1919] 1985), daí o jogo de palavras na ideia de violência legítima de um poder ilegítimo.

    O receituário liberal traz em seu bojo o embrião da instabilidade, desdobramento da acentuação das desigualdades socioeconômicas e do sentimento de insegurança quanto à renda e ao emprego, coroados com a carência de uma rede pública de assistência. Por conseguinte, compreende-se que a função do Estado mínimo é assegurar o paraíso dos ricos, dado que preza pela defesa da propriedade, da vida, da dinâmica do mercado e do corte de impostos e de direitos trabalhistas, enquanto desdenha de demandas oriundas de outras camadas sociais que, muitas vezes, dependem dos serviços públicos para sobreviver com um mínimo de dignidade.

    Se lançarmos mão do enfoque de longa duração proposto por Thomas Marshall para a compreensão da formação da cidadania, perceberemos que esta ocorre no sentido de uma progressiva demanda por direitos. Na sua classificação, há uma hierarquia de elementos correspondentes a três períodos: (i) o elemento civil, relacionado aos atributos básicos para garantir as liberdades individuais; (ii) o elemento político, manifesto na possibilidade de participação do exercício do poder e; (iii) o elemento social, a busca do livre acesso à proteção social.

    A despeito de seu caráter esquemático, da sua dinâmica eurocêntrica e de algumas exceções notáveis – como o caso da Alemanha, onde o Estado de Bem-estar Social precede a universalização dos direitos civis – o modelo de Marshall contribui para uma apreciação da edificação da cidadania nos marcos de um continuum, apresentando paralelismos com a análise de Jacques Rancière sobre a democracia. A tabela a seguir visa sintetizar os três períodos contemplados pelo autor.

    Deste modo, a exigência de desconstrução do Estado social representa nada mais que uma tentativa de fazer regredir a atual configuração da cidadania para uma dimensão outrora superada. Isto é, o programa liberal exige que a proteção social seja desconsiderada como um direito civil, restando aos cidadãos gozarem apenas das conquistas anteriormente consolidadas, como as liberdades individuais (século XVIII) e o direito universal de participação política (século XIX).

    Daí resultaria, então, toda a sorte de tensões, tendo em vista que os movimentos populares, os sindicatos e os trabalhadores jamais aceitarão tamanho retrocesso. As imposições do liberalismo econômico provocariam tantas consequências deletérias que seu estabelecimento seria permeado por inquietações e conflitos sociais diversos, originados da remoção de direitos considerados pétreos pelo povo.

    A concepção de cidadania de Thomas Marshall
    CIVIL POLÍTICO SOCIAL
    PERÍODO Século XVIII Século XIX Século XX
    INSTITUIÇÃO Estado de Direito Sufrágio Universal Estado de bem-estar social
    DIREITOS
    Liberdade da pessoa
    Liberdade de expressão
    Liberdade de pensamento
    Liberdade de crença
    Direito de propriedade
    Direito de fazer contratos
    Acesso a uma Justiça igualitária
    Elegibilidade
    Direito de voto
    Bem-estar econômico

    Proteção social

    Fonte: Adaptado de DÉLOYE, 1999, p. 87

    Hodiernamente, os países mais vulneráveis da Europa vivenciam um momento particularmente turbulento, caracterizado por passeatas que reúnem milhares de pessoas indignadas, greves gerais e pela emergência de partidos radicais. Estes fenômenos são desdobramentos da conjuntura de arruinamento das esperanças decorrentes da austeridade fiscal imposta pela Troika e da impotência de governos pouco comprometidos com o povo.

    Vale aproveitarmos o espaço que nos resta para apresentarmos uma última incongruência intrínseca à sociedade liberal: o princípio da meritocracia. Tal como explicado, com precisão, pelo sociólogo britânico Anthony Giddens, as metas de isenção fiscal sobre as grandes fortunas e sobre a transmissão de heranças conduziriam a uma natural acumulação de capital nas famílias mais ricas, fazendo com que os indivíduos privilegiados pudessem não só desfrutar deste benefício material sem qualquer ônus, mas transmiti-lo para seus filhos, gerando um processo que se retroalimentaria, colocando-os em uma situação de vantagem perante os demais, o que por fim desfigura a própria meritocracia (GIDDENS, 1999).

    Considerações finais

    A narrativa liberal promete um futuro promissor no qual indivíduos gozam da sua liberdade e habitam um mundo próspero desvencilhado da opressão do Estado e das ideologias, regido por normas racionais oriundas do onipotente e onisciente Mercado. Na prática, o liberalismo impulsiona a concentração de renda, a desigualdade e promove uma involução no significado da cidadania. Em suma, engendra instabilidade social e insegurança generalizada. “O mercado prospera na incerteza”, já alertava Zygmunt Bauman (2000, p. 38).

    Urge desmascarar a falaciosa correlação, atualmente em moda, que tenta posicionar o liberalismo político como espécie de correspondente superestrutural do seu homólogo econômico. Na realidade, conforme tentamos elucidar ao longo deste artigo, a democracia é um projeto ainda inconcluso e de longa duração, somente materializado a partir de movimentos reivindicatórios que remontam ao século XVIII. A democracia não é um donativo do capitalismo, mas uma conquista das massas.

    .

    • Ednei,
      Artigo com análise muito lúcida e interessante!
      Achei particularmente elucidativa a análise quanto à armadilha que o política neoliberal representa para a estabilidade social, evidenciando que seu objetivo não seja outro que confundir o entendimento da sociedade que dificulte a defesa do estado de bem estar pelos agentes que pretendem assalta-lo.
      No meu entendimento, a grande questão do neoliberalismo, é que não foi nada mais que uma estratégia montada pela Plutocracia, para o assalto e patrimonialização pelas elites, das riquezas dos Estados de Bem Estar, através das conhecidas políticas públicas de terceirização, downsizing, rightsizing e privatização através dos seus “agentes” extorsores infiltrados pela maçonaria, matricialmente, em todos os níveis das atividades econômicas e políticas nas democracias ocidentais.
      Aliás, essa é a razão maior dos EUA estarem paulatinamente acabando com todas a ditadura existentes no mundo. Nas ditaduras, é impossível infiltrarem “seus representantes” para dilapidarem as riquezas que lhes interessam “patrimonializarem” naqueles países.
      A concentração patrimonial Sionista-Americana tem sede da monopolização de insumos estratégicos, como petróleo, minerais e água, que se tornaram meta para sua dominação mundial.
      Abrçs

  10. Quem cala …..

    ” O pagamento, disse Pessoa, foi acertado em um restaurante árabe na rua Haddock Lobo, em São Paulo, com Manoel de Araújo Sobrinho, que, na época, era “gerente macro regional da região sudoeste da Presidência da República, Secretaria de Relações Institucionais”. Após Edinho passar a ser investigado no STF por suposta ligação com a Lava Jato, Araújo Sobrinho deixou o cargo de chefe de gabinete do ministro.
    Procurada, a coordenação jurídica da campanha da presidente Dilma Rousseff afirmou que não iria se manifestar já que não teve acesso à íntegra da delação e destacou que Pessoa teria dito, em depoimento à CPI da Petrobras da Câmara que as doações não eram propina. Na noite de sexta (4), quando a Folha teve acesso à delação, Edinho não foi localizado para comentar.

  11. Enquanto achacavam juntos…

    ” Pessoa disse que, em um dos encontros, Edinho afirmou: “O senhor tem obras no governo e na Petrobras, então o senhor tem que contribuir. O senhor quer continuar tendo?”. De acordo com o termo de delação, Pessoa não interpretou a frase como uma ameaça, “mas sim como a afirmação de que se a presidente Dilma ganhasse, tudo continuaria como estava, ou seja, o sistema vigente funcionando”.
    O empreiteiro afirmou que os valores para a campanha de Dilma foram acertados em R$ 10 milhões, mas apenas R$ 7,5 milhões foram pagos a parte restante não foi depositada porque o empresário acabou preso pela Operação Lava Jato em novembro de 2014.

  12. Acredite se quiser…. A Tia nem sabe qual o ministério do Padilha…

    “Questionada se ficou surpresa com o anúncio do ministro, ela afirmou. “Não sei se ele tomou uma decisão definitiva porque não conversou comigo. Aguardo. Não tomo posição sobre coisas que não consigo entender inteiramente.” Questionada sobre as consequências da saída do ministro, ela afirmou: “Não discuto hipóteses, estou velha para discutir hipóteses”.
    Embora tenha rasgado elogios a Padilha, a presidente deu mostras ter pouca familiaridade com o cargo que o peemedebista ocupa no governo. Ao falar sobre ele, afirmou, primeiro que ele ocupava a “secretaria dos portos”. E emendou “desculpe, dos aeroportos.” Errou nas duas tentativas. O nome ocupado pelo peemedebista é ministro da Aviação Civil.
    ( OESP )

  13. Todos têm direito a opinar, mas que esses psicopatas enchem o nosso saco, isso é fato. Temos tolerado que digam essa baboseira, porque a sua ideologia do mal fracassou em todos os lugares e está em fase terminal nas Américas do Sul e Central. Adeus Foro de São Paulo. O seu plano de implantar ditaduras escravizantes, assassinas e impiedosas está indo para as cucuias.

  14. Paulo 24. O homem que usa o rabo para se divertir perdeu toda a dignidade. Você é um infeliz que vive em um mundo de depravação física e moral. Não tens nem coragem de participar com teu nome.Te alimentas de ódio e inveja. Sai para lá lhogolhó.

  15. Estão fazendo a cama da estocadora de vento ….

    ” O vice-presidente Michel Temer é o homenageado de almoço oferecido neste sábado pelo empresário Jorge Chammas, do Moinho São Jorge, em São Paulo.

    Entre os presentes está o governador Geraldo Alckmin (PSDB), com quem Temer pode ter uma conversa reservada sobre conjuntura política ainda no fim de semana.

    O almoço reúne expoentes da comunidade libanesa em São Paulo, muito próxima a Temer, empresários de vários setores e políticos do PMDB.

    A movimentação do vice é acompanhada com atenção pelo governo e pela oposição, que esperam sinais mais claros de como ele vai se posicionar sobre o impeachment de Dilma Rousseff.

  16. O problema do Santayana parece ser, ter ficado preso às dicotomias do passado. O mundo andou, a Nova Ordem, sim, continua focada em nós, mas as relações comerciais se intensificaram e diversificaram e no governo Lula o país expandiu seu comércio.

    Sua obsessiva visão da polarização asfixiante existente até um passado recente, já não se justifica como fundamento ou como para raios de nossos problemas econômicos, como o foco de sua matéria acaba querendo induzir.

    • O golpe do Luppi e o neocoronel…

      ” Questionado sobre a posição do senador e presidente nacional do PSDB, Aécio Neves, Ciro Gomes afirmou que o político está escalando o golpe. “Remédio para governo que não se gosta, remédio para governo ruim, não é interromper o itinerário da normalidade democrática. Porque isso introduz uma variável de instabilidade que demora 20 anos para superar”, disse. O G1 tentou contato com a assessoria de Aécio Neves, mas ninguém foi encontrado.

      O presidente do PDT, Carlos Lupi, também falou com os jornalistas e afirmou que o partido vai “votar contra o golpe”. “Eu acho que esse golpe de um impeachment sem fundamento morre no nascedouro”, opinou.

      “A população não aguenta mais. Mas o remédio pra isso, como falou meu companheiro Ciro, é eleição. Nós temos é que preparar candidato”, afirmou Lupi ao anunciar a candidatura do deputado estadual Sargento Rodrigues à Prefeitura de Belo Horizonte. Neste momento, o presidente do PDT destacou ainda a candidatura de Ciro Gomes à presidência nas eleições de 2018.

      • Esta assim , mas era assim…. Viva as boquinhas ! kkkaas

        ” Já o deputado Sargento Rodrigues afirmou que o PDT trabalha para que a chapa de deputado estadual e deputado federal tenha bons candidatos e seja homogênea. Para ele, a proposta é ampliar as bancadas dos parlamentares. “Há muitos candidatos que representam renovação, liderança nova, e isto é muito importante para o PDT. Esperamos ter um resultado extremamente positivo nas eleições de 2014”, disse. Em relação a coligação, o parlamentar ressaltou que o partido está estudando a possibilidade, mas tem condições de lançar uma chapa própria. “Nós vamos trabalhar e analisar quais são as melhores legendas para que a gente possa se encaixar”, explicou.

        Durante o encontro, os convencionais oficializaram o apoio ao pré–candidato ao Governo de Minas, Pimenta da Veiga, que foi recebido calorosamente por todos. Durante seu discurso, ele afirmou que Minas Gerais consolidou 12 anos de um governo eficiente e que irá projetar um extraordinário avanço em muitos setores. “Queremos fazer muito em Minas, manter o avanço na saúde, na infraestrutura, avançar muito mais, pavimentando as estradas, fazendo um grande programa de saneamento, mas a grande prioridade será a educação”, disse. Na oportunidade, estimulou os pré-candidatos a trabalharem com toda força.

        Em sua fala, o deputado Sargento Rodrigues lembrou que melhorou a vida de policiais militares e civis, bombeiros e agentes penitenciários, e que nada seria possível se não houvesse a sensibilidade dos Governos Aécio Neves, Antonio Anastasia e Alberto Pinto Coelho, transformando a vida desses trabalhadores da segurança pública em Minas Gerais. Segundo Rodrigues, todo trabalho realizado na área de segurança pública no Estado precisa ter continuidade. “Nós vamos pedir a Deus. Contamos com a força do PDT de Minas Gerais. Vamos trabalhar muito para que tenhamos o senhor no Governo do Estado”, disse.

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