O Prêmio Nobel de Benavente

Sebastião Nery

Jacinto Benavente, espanhol, escritor, dramaturgo, foi à Argentina em 1922 e saiu de trem visitando cidades do interior, com a atriz Lola Membrives. Quando chegaram a Rufino, ela foi buscar sua correspondência na agencia dos Correios. Havia um telegrama para Benavente. Contava que Benavente havia ganho o Premio Nobel de Literatura. Lola comprou uma champanhe e foi acordar o escritor para comemorarem.

Benavente resolveu completar a excursão e só depois voltar para a Espanha. A noticia logo se espalhou. Em cada cidade, a primeira pergunta era sobre o que ele, agora famoso, achava da Argentina. Benavente não respondia.

Ninguem perguntava por que ganhou o Nobel. Ele ficava furioso.

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BENAVENTE

Na hora de Benavente embarcar para a Europa, no porto, quando já estavam retirando a escadinha do navio, as perguntas sobre a Argentina eram ainda mais insistentes. O Prêmio Nobel não podia viajar sem dizer o que tinha achado da Argentina e dos argentinos. Ele afinal disse :

-“Formem a outra única palavra possivel com as letras que fazem a palavra “argentino”.

Deu adeus, entrou no navio, sumiu lá para dentro e o navio prtiu. Os repórteres logo decifraram a charada. A outra única palavra que se pode formar com as letras de “argentino” é “ignorante”.

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AGUINIS

Quem conta essa historia não é nenhum inimigo. É um dos escritores mais lidos e respeitados na Argentina, Marcus Aguinis,ex-ministro da Cultura.

No fim de 2002, pouco antes da eleição de Kirchner, ele publicou um livro de muito sucesso, “El Atroz Encanto de Ser Argentino”, cuja edição brasileira foi prefaciada pelo então ministro Pedro Malan. (Livros anteriores dele: – “Carta Esperanzada a um General”, “Um Pais de Novela”, “Elogio de la Culpa”).  Na abertura do “Atroz Encanto”, Aguinis disse :

– “Se tivesse escrito este livro décadas atrás, teria sido condenado como inimigo da Pátria. Meus compatriotas jamais me teriam perdoado. Hoje, é um livro que eles lêem, recomendam e debatem. Este é um dado que, por si só, constitui uma excelente noticia, porque demonstra que os argentinos começam a exercer a autocrítica. Para que a autocrítica exista, é preciso antes eliminar a arrogância. A Argentina encontra-se  mergulhada no sofrimento e chora como nunca ao ritmo de seu tango erótico, descarnado e cruel”.

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ARGENTINA

Na introdução à edição brasileira, ainda em 2002, depois dos desastres dos governos Menem e De la Rua e antes de Kirchner, Aguinis disse mais :

1. – “Se quiséssemos simplificar as diferenças entre Brasil e Argentina, entre brasileiros e argentinos, poderiamos dizer que os primeiros se divertem ao ritmo do samba e os segundos choram ao ritmo do tango. A alegria do Brasil contrasta com a melancolia da Argentina”.          

2. – “Doem-nos a Argentina e seu povo. Por isso é atroz o nosso querer. Até apenas meio século atrás, A Argentina figurava entre os dez paises mais ricos do mundo. Agora, contudo, nossa Republica parece ter perdido o rumo. Pior ainda : está arruinada, maltratada e à beira da agonia. Tem-se a sensação de que ela escorregou para um labirinto onde reina a escuridão. Todo labirinto, não obstante, tem uma saída. É preciso continuar tentando”.

3. – “Naqueles tempos, contrastavamos com nossa mentalidade e surgia uma diabolica contradição. O comediante mexicano Cantinflas sintetizou-a numa frase brutal : – “A Argentina é formada por milhões de habitantes que querem afundá-la mas não conseguem”. Albert Einstein, quando nos visitou em 22, perguntou: -“Como é que um pais tão desorganizado pode progredir”?                                                 

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KIRCHNER

Poucos meses depois desse livro valente, a Argentina reagiu e elegeu  Kirchner, um quase desconhecido governador saido lá das geleiras de sua Santa Cruz, nas bordas da Patagônia (“El Pinguino”), com seus esbugalhados olhos vesgos de peixe morto e seu rosto perplexo de foca encalhada.

Na campanha, em março de 2003, escrevi de lá que ele ia ganhar por ser  o único candidato que mais claramente e vigorosamente denunciava as elites políticas e econômicas argentinas vendidas ao sistema financeiro, que durante dez anos haviam sustentado Menem e a entrega do pais à ladroagem internacional. A Argentina votou em Kirchner contra os bancos e o FMI.

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LULA

Em 2006, com o pais há tres anos crescendo a quase 10%, Kirchner e a Argentina  desabafaram contra a traição de Lula, que rasgou os compromissos da campanha e das alianças sulamericanas, entregou-se ao jugo dos banqueiros internacionais, e, na hora da crise argentina, negou-se a dar-lhes qualquer tipo de apoio, nem sequer formal, quando da difícil e arriscada queda de braço em que, ao final, vitorioso, Kirchner derrotou e humilhou o FMI.

Depois, os Estados Unidos acintosamente pagaram a Lula a traição. Bush mandou sua  pit-bull, a Condolezza Rice, com sua peruca cor de graúna, ao Brasil, Chile e Colômbia, pulando a Argentina. E até hoje o governo Lula, alienadamente, pergunta por que naquela época Kirchner e a Argentina ficaram irados.

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