O presidente Lula e o futuro

Carlos Chagas

Faltando nove meses para o fim do mandato do presidente Lula, vale indagar qual a marca que seu governo deixar registrada para o futuro. Sem precipitaes, claro, porque a Histria no se escreve s pressas nem ao sabor das emoes. preciso que os fatos sejam decantados, mas no custa arriscar uma incurso despretensiosa a respeito do rtulo que o primeiro-companheiro ver colado no pacote de sua passagem pelo poder.

De incio, bom recordar que todos os antigos presidentes da Repblica se inscreveram na galeria da memria nacional, com caractersticas hoje consolidadas. Umas vibrantes, outras nem tanto. Estas edificantes, aquelas lamentveis.

S para ficarmos nos mais populares: Getlio Vargas aparece sob a imagem maior das leis trabalhistas, que criou, transformando-o numa espcie de campeo das massas assalariadas. Juscelino Kubitschek surge como o empreendedor do desenvolvimento nacional, sedimentando as bases da transformao econmica do pas.

E o Lula, candidato bvio a integrar-se no rol dos mais populares?

A glria de ter sido o primeiro operrio a chegar ao governo esbarra no fato de no ter promovido as reformas estruturais de base prometidas e exigidas pelo seu passado, tanto assim que continua como o preferido das elites neoliberais uma contradio que a Histria dificilmente explicar ou perdoar.

Constituir sua marca fundamental apenas o assistencialismo, ou seja, a oportunidade perdida por no haver promovido as mudanas esperadas pela maioria dos que o elegeram? O PAC fica longe do Plano de Metas de Juscelino, ao tempo em que o bolsa-famlia perde de goleada para as garantias do trabalho estabelecidas por Getlio. Em suma, a marca com que o Lula se apresentar para o futuro parece inconclusa. Mas como ainda faltam nove meses…

Ja esto retaliando o poder

No se fala das principais figuras que cercam os dois principais candidatos s eleies de outubro. claro que teriam que gravitar em torno de Dilma Rousseff conselheiros e assessores variados, naturalmente candidatos a ministros, se ela vencer. Como ao redor de Jos Serra, outro time de auxiliares de peso que tambm melhor no fulanizar, para no desagradar outros.

Do que tratamos hoje daqueles representantes ou controladores de grupos, cartis e interesses, que, ao primeiro sinal de eleies, buscam infiltrar-se e cercar os candidatos favoritos, preparados para obter e usufruir os mesmos benefcios do poder que usufruem e obtm atravs dos tempos.

J foram os bares do caf, na Repblica Velha. Os latifundirios, sempre, as empresas petrolferas, depois. s industriais das principais atividades, os banqueiros e os especuladores, que entraram para nunca mais sair. Donos da mdia, tambm. No reverso da medalha, gestores das grandes estatais, dirigentes de centrais sindicais e de movimentos sociais. Sem esquecer uma parcela de intelectuais e alguns chefes de partidos polticos em ascenso.

bom que Dilma e Serra fiquem alerta, porque a corrida j comeou. Diretamente ou por interpostas pessoas, os mesmos de sempre se aproximam. No querem ser ministros, apenas condminos e beneficirios das principais decises de governo.

UVAS VERDES, S PARA CES

A fbula por demais conhecida. A raposa desejou as uvas, no alto da parreira. Pulou, tentou subir, esfalfou-se e no conseguiu pega-las. Dando as costas, comentou: uvas verdes, s para ces…

Com todo o respeito, mais ou menos o que Henrique Meirelles deve estar falando, frustrado que foi ao decidir continuar no Banco Central. A vice-presidncia na chapa de Dilma Rousseff dissolveu-se como um sorvete ao sol. O governo de Gois, ou uma cadeira de senador, tambm.

Pois agora vem o competente gestor da poltica monetria explicando que sua presena necessria no Banco Central para consolidar as conquistas realizadas e evitar a sombra da inflao…

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