O primeiro grande obstáculo

Carlos Chagas 

É prerrogativa do presidente da República nomear e demitir quem quiser,  na estrutura do Poder Executivo. Sendo assim, Dilma Rousseff está no direito de indicar presidentes e diretores de quantas empresas estatais entender. Os partidos que a apoiam e até ajudaram a elegê-la podem sugerir nomes,  sendo até bom que o façam, em nome da harmonia político-parlamentar. Não dá, porém, para aceitar que se sintam donos, senhores feudais de determinadas áreas da administração direta ou indireta. O parlamentarismo, felizmente, ainda não vigora entre nós.
                                                       
Claro que consequências adviriam  da  aplicação  desse princípio presidencialista caso a chefe do governo rejeitasse sistematicamente as indicações do PMDB,  no setor elétrico e em outros setores. Não é o que acontece, pois se as bancadas do partido na Câmara tem sido desconsideradas em seus pleitos, o mesmo não acontece com as bancadas no Senado. José Sarney que o diga, sempre ampliando espaços, desde o governo Lula. 
                                                       
Evitar o choque entre Dilma e  deputados peemedebistas constitui  tarefa do vice-presidente da República, Michel Temer, até pouco presidente institucional do PMDB e ainda agora seu líder de fato. Porque continuando as coisas como vão, logo engrossará a corrente dos  descontentes.  Não vem ao caso verificar que a presidente impõe a escolha de técnicos e os deputados, com raras exceções, praticam a fisiologia. Estão de olho nos bilhões destinados às empreiteiras encarregadas de implantar obras e serviços, no mínimo para agradecer contribuições nas  campanhas eleitorais. No máximo, quem quiser que conclua…
                                                       
Depois de um mês de governo, Dilma Rousseff defronta-se com o primeiro grande obstáculo: o troco que as bancadas do PMDB na Câmara poderão articular quando começar a votação de projetos de interesse do palácio do Planalto, em março. A pergunta que se faz é sobre os danos capazes de registrar-se na base parlamentar do governo, se a crise não for contida.
 
AMADORISMO
 
Bem que  Marta Suplicy poderia ter evitado o primeiro lance amador de sua ascensão à vice-presidência do Senado. Faltou-lhe jogo de cintura, apesar do perfil. Cortou o microfone do ex-marido, comportando-se como a madre superiora do convento, quando a praxe entre os senadores é de tolerância e flexibilização diante do regimento interno. Muita gente fica pensando que se não fosse Eduardo Suplicy, mas qualquer outro representante da Federação, dona Marta teria agido assim.

Deveria valer-se de múltiplos exemplos da crônica da Câmara Alta, inclusive um inesquecível, no início de 1975.  Na presidência dos trabalhos estava Magalhães Pinto. Discursava pela primeira vez Paulo Brossard, denunciando os desmandos do regime militar. Apesar de haver ultrapassado o tempo e não obstante os protestos  do líder do governo Petrônio Portela,  cobrando o corte do microfone, a velha raposa mineira não se mexeu. Deixou o gaúcho falar pelo tempo que bem entendesse. Já não se fazem senadores como antigamente…
 
ANACRONISMO 
 
Lamentável foi o programa de propaganda partidária gratuita do PSDB, na noite de quinta-feira, em rede nacional de televisão. A maior parte   utilizada pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, envolveu desnecessária  volta ao passado, com pitadas de crítica ao Lula. Tudo encenado como se tivesse ocorrido numa sala de aula. Enquanto isso, viu-se por um segundo a imagem de José Serra, concedido o dobro do tempo  a Aécio Neves, Teotônio Vilela Neto e outros governadores. Um pouquinho mais a Geraldo Alckmin. Foi como se em plena era da comunicação eletrônica alguém nos desse para ler o “Fon-Fon” ou a “Careta”…
 
FALTA DE TERRA 
 
Voava sobre Mato Grosso o DC-3  da Varig com a comitiva do candidato Jânio Quadros, em setembro de 1960. Viajava com políticos variados e alguns jornalistas  o companheiro de chapa, Milton Campos, quando se descobriu estar a aeronave perdida, sem conseguir localizar o aeroporto da cidade onde deveria aterrissar. Nem qualquer outro aeroporto. O tempo passava, a tensão aumentava e a gasolina diminuía. Alguém percebeu  o candidato à vice-presidência, cardíaco,  de olhos fechados. Veio a pergunta: “está com falta de ar, dr. Milton?” A resposta devolveu o otimismo aos presentes: “meu filho, estou é com falta de terra…”  Desnecessário dizer que o DC-3 acabou descendo, ainda que numa cidade de Goiás, onde ninguém aguardava a comitiva.
                                                   
A historinha se conta a propósito do clima carregado que se registra no PMDB. Seus líderes estão  perdidos, sem rumo. Falta alguém sugerir que se o partido perdeu o setor elétrico, o remédio é encontrar outro setor…

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