O processo de emprego num mercado de dúvidas

Pedro do Coutto

O Ministério do Trabalho anunciou nos jornais de 23 de junho que, no mês de maio, foram criados 131,6 mil empregos com carteira assinada no país, dando sequência assim a um processo fundamental de retomada de postos de trabalho fechados entre o segundo semestre de 2008 e janeiro de 2009: consequência da crise financeira que atingiu o mundo. E, portanto, alcançou o Brasil. A melhor página sobre o tema, sem dúvida, foi a da Folha de São Paulo com matérias assinadas pela repórter Juliana Rocha e pelo sócio diretor de LCA Consultores, economista Fernando Sampaio. Entretanto dúvidas permanecem e, se não forem esclarecidas agora, serão pelo passar do tempo e pelos números do FGTS. Explico porque.

O resultado de maio, fornecido pelo Cadastro Geral do Ministério do Trabalho, dá a entender que 131 mil e 600 foi o saldo verificado entre as admissões e as demissões em maio. Uma surpresa. Pois até abril as demissões registravam um número mensal em torno de 110 mil. Assim, para que houvesse um saldo positivo de 131,6 mil, era necessário que o total de contratações atingisse algo em torno de 240 mil postos. Difícil.Não estou negando, mas aguardando informações da Caixa Econômica Federal, administradora do Fundo de Garantia, sobre os saques efetuados no mês. O diretor dessa área da CEF é o ex governador Moreira Franco. Quando digo que existe que existia média mensal de 110 mil demissões, baseio-me no relatório anual de 2008 da própria Caixa Econômica, por mim comentado há cerca de dois meses. Inclusive a Caixa divulgou o montante dos saques ocorridos no exercício passado. Somaram 23 bilhões de reais para 16 milhões de demissões sem justa causa. O que evidencia uma incidência média mensal até superior a parcela de 110 mil dispensas. Inclusive, o desembolso realizado representou quase a metade da arrecadação total do FGTS em 2008, que foi exatamente de 48,7 bilhões. Isso de um lado.

De outro, quando o governo fala em recuperação de postos de trabalho (281mil, este ano) contra uma perda acumulada de 797 mil de junho do ano passado a janeiro de 2009, não se refere ao valor do salário médio. Pois, para uma análise socioeconômica completa, é indispensável confrontar-se o salário médio dos demitidos com o salário médio dos admitidos. Porque quando existe uma demanda interna por emprego –o que acontece sempre, já que sem emprego o ser humano entra em crise- e uma oferta retraída, a consequência natural é a queda dos padrões salariais. Lei da oferta e da procura, uma lei natural e eterna. Há, portanto, como estamos vendo, muitos pontos a serem iluminados e esclarecidos. Não podemos nos deixar levar pelo impacto da primeira informação. Os números têm personalidade própria e relativa. Necessitamos focalizá-la e traduzí-la. A vida é uma tradução constante.

Sobretudo porque, como assinala o texto de Juliana Rocha, o setor que menos empregou em maio passado foi o da indústria, proporcionando um aumento de apenas 700 vagas no total anunciado de 131 mil. Algo deve explicar o fenômeno marcado pelo contraste. Pois se a atividade econômica se expandiu ao ponto de surgirem 131 mil vagas novas e adicionais às demissões, qual o motivo que  levou a indústria a empregar tão pouco? Sem atividade industrial não pode haver produção e comercialização. Francamente, penso que foram criadas 131 mil vagas com carteira assinada em maio. Mas a que montante atingiram as dispensas? Está faltando este número.

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *