O professor de grego e a corrupção

Sebastião Nery

RIO – Faustino de Albuquerque era Promotor no interior do Ceará.  Um amigo deu-lhe o filho para batizar e ainda pôs o nome dele no menino. Depois, Faustino foi juiz, desembargador, presidente do Tribunal de Justiça e acabou governador. Uma tarde, entra no palácio o afilhado Faustino de Albuquerque Silva com uma carta do compadre pedindo um emprego para o filho. Não havia vagas. A muito custo, o governador descobriu uma de professor de grego. Nomeou Faustino de Albuquerque Silva.

– Mas, padrinho, eu não sei grego.

– Não precisa saber, porque não há aluno de grego. Vá embora e não me crie problemas.

Todo fim de mês, Faustino de Albuquerque Silva passava no Liceu, recebia seu ordenado de professor de grego. Até que apareceu um ex-seminarista muito piedoso, muito estudioso, querendo estudar grego. O afilhado correu ao palácio:

– Padrinho, me demita que apareceu um aluno de grego.

– Vá embora e não me crie problemas.

No fim do mês, Faustino de Albuquerque Silva foi ao Liceu receber o ordenado, procurou o diretor:

– Onde está o ex-seminarista que queria estudar grego?

– Não sei. Aconteceu uma coisa horrível com ele. Era tão bonzinho, tão piedoso, tão estudioso, andava na biblioteca estudando, veio a polícia, levou. E nunca mais ele apareceu.

FAZENDA E JUSTIÇA

O primeiro ministro da Fazenda do Brasil era corrupto. O primeiro ministro da Justiça do Brasil era corrupto. O governador–geral Tomé de Souza, nomeado pelo rei de Portugal, desembarcou em Salvador em 1549, instalando a primeira capital do Brasil. Os dois principais colaboradores do nascente poder colonial eram fidalgos portugueses com prestígio na corte de Lisboa. O primeiro, Antonio Cardoso de Barros,  “Provedor-mor”, responsável pela arrecadação de impostos. O segundo, Pero Borges, “Ouvidor-mor”, administrava a justiça. Roubaram muito,ficaram riquíssimos

Pero Borges, não veio por vontade própria. Havia sido condenado pela justiça portuguesa por ato de corrupção. Motivo: administrador  da obra, desviara parte do dinheiro destinado à construção do aqueduto de Mafra, cidade próxima a Lisboa. Ao invés da prisão, as relações familiares de prestígio na Casa Real negociaram sua vinda ao Brasil.

Antonio Cardoso de Barros seria o administrador das finanças públicas e gestor da economia. Sua missão: arranjar recursos para a construção da cidade de Salvador e áreas do Recôncavo baiano. Era de fato o ministro da Fazenda, tributando com rigor os poucos engenhos de açúcar existentes. Partes dos recursos eram incorporadas ao seu patrimônio pessoal. Ficou milionário, tornando-se proprietário de engenhos açucareiros, acumulando poder e fortuna. Era o tiro de largada na “roubalheira” do patrimônio público no Brasil.

BOLIVAR E MURILO

Cinco séculos depois, 2014, o professor e cientista político Bolívar Lamounier, no livro “A Cultura da Transgressão no Brasil”, afirma:

– “O Brasil é essencialmente corrupto e precisamos encarar isso. É falso que a elite é ruim mas o povo é essencialmente bom. Essa impressão é profundamente artificial.”

O professor José Murilo de Carvalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, traduziu essa realidade:

– “Há uma cultura generalizada de transgressão que afeta as classes sociais, de alto a baixo. Furtam o político, o empresário, alguns magistrados, de um lado. Furtam, do outro, o profissional liberal, o policial, o trabalhador informal. Tal cultura tem a ver com valores e instituições. O valor republicano de respeito à lei e à coisa pública não existe.”

HELIO DUQUE

O professor Helio Duque, doutor em economia pela Unesp, adverte:

– “Nos próximos meses o Brasil viverá crise institucional de gravidade inédita. A cassação de mandatos será consequência das delações feitas pelo ex-diretor da estatal e pelo doleiro lavador das fortunas desviadas da roubalheira da Petrobrás. Foram mais de dez anos (governos Lula e Dilma) de assalto para favorecer “larápios políticos” investidos de funções públicas. Daí ser fácil entender porque nas recentes CPIS sobre a Petrobrás. a maioria governista sempre foi contra investigações sérias”.

Não adianta nem ensinar grego. O trovão “Sergio Moro” vem ai.

One thought on “O professor de grego e a corrupção

  1. No fundo e no raso, o grande problema de acabar com a corrupção está no fato de que nem corruptores e corrompidos, dão nota fiscal dos malfeitos… mas, seguindo o dinheiro, identificando quem é quem no laranjal, a tese do domínio do fato poderá e deverá ser sempre aplicada. Já deu certo…

    Sei não…

    O grande desafio é encontrar um togado com peito para encarar a bandidagem, enrolada no disco do não sabia…
    O Meritíssimo Joaquim Barbosa, enfrentou e mandou um bando para a cadeia.
    Ameaçado de morte, jogou a tolha se aposentou.

    Muitos dos condenados já estão em casa, gozando na rede da impunidade.

    No momento, o país têm um outro homem da capa preta corajoso.
    Está em Curitiba, atrás de corruptos e corruptores, se esforçando, através da delação premiada, esclarecer o escândalo de US$ 10 bilhões de dólares que envolve a Petrobras, e reúne a raia graúda da política nacional e, evidentemente, empresas, as de sempre, e agora já se estendendo a familiares, esposas, filhos, netos…

    Clássico exemplo de família que rouba unida, permanece unida … e rica… gozando do dinheiro público desviado. O seu, o meu, o nosso dinheirinho…

    Como sempre, o Leão da Receita Federal está mais do que preocupado em mostrar serviço, lupa no cidadão, glosando despesas médicas dos velhinhos aposentados, e retendo suas restituições ad infinitum, se possível…
    Ou tomando conta dos aeroportos, para saber quem passou da cota de 500 dólares…

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