O progressivo endividamento dos clubes de futebol é um mistério. As dívidas aumentam, enquanto os craques, técnicos, empresários e dirigentes ficam cada vez mais ricos.

Carlos Newton

Há determinadas coisas que são inexplicáveis no Brasil. Um bom exemplo é a situação dos principais clubes de futebol. Suas dívidas são astronômicas, mas eles continuam resistindo e existindo. Flamengo e Fluminense, por exemplo, já têm dívidas que ultrapassam a casa do R$ 400 milhões cada.

Atrasam os salários dos funcionários, jamais depositam a contribuição de INSS e as obrigações sociais, as atividades sociais nas sedes são cada vez mais precárias, Nada acontece.  Ao mesmo tempo, os craques, técnicos e dirigentes estão cada vez mais ricos.

Na Europa a situação já é semelhante. O ex-craque e atual dirigente francês Michel Platini têm feito sucessivas declarações alertando para a gravidade do endividamento dos principais clubes de seu país. Mas ninguém parece lhe dar ouvidos. O panorama é semelhante em outras nações.

Esse endividamento progressivo é sinal dos novos tempos, em que ter paixão pelo time não significa mais nada. O importante é se apropriar do dinheiro que circula dentro e fora dos campos de futebol, que nas últimas décadas foram se transformando em gigantescas lavanderias de dinheiro sujo, em benefício das mais diferentes instituições mafiosas, inclusive (e sobretudo) da extinta Cortina de Ferro. Não por coincidência, o “ainda” primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi é “dono” de um grande clube em seu país, o Milan.

Com as raras exceções, dirigente de clube (o antigo cartola, lembram?) hoje é sinônimo de aproveitador, corrupto e mau caráter. E as dívidas vão crescendo, progressiva e inexoravelmente, enquanto os salários de jogadores e técnicos aumentam cada vez mais, uma contradição inexplicável.

No Fluminense, o novo presidente Peter Siemsen demonstra grande preocupação com a dívida, fez dela sua principal bandeira na eleição. Vamos ver o que acontecerá em sua administração. Nos demais clubes, também endividados até a alma, ninguém toca no assunto. É como se não houvesse dívidas.

Os clubes mantêm custosas “escolinhas”, formam os novos craques, mas desde sempre esses adolescentes já estão vinculados a algum “empresário”, que no decorrer da carreira deles eternamente vai tomar (e distribuir aos dirigentes) expressiva parcela dos salários e demais rendimentos que tiverem, inclusive em contratos publicitários.

Muitos especialistas e entendidos defendem a tese de que, para salvar os clubes, é preciso transformá-los em empresas. Em tese, tudo bem, mas na prática, se fizerem isso, em poucos meses os clubes terão suas falências declaradas. Pelo amor de Deus, se vocês realmente gostam do futebol brasileiro, deixem os clubes como estão, não os transformem em empresas.

Quanto à possibilidade de moralizar as administrações, isso não existe. Infelizmente, estamos num país contaminado por uma praxis degradada, onde a corrupção é festejada e a política se transformou numa espécie de programa semelhante ao “Tudo por Dinheiro”, criado por Silvio Santos. Que, aliás, é um exemplo de empresário que sabe escapar de gravíssimas dificuldades financeiras. Silvio Santos devia ser presidente de algum clube. Reorganizaria as finanças rapidamente, com auxilio do Palácio do Planalto, do Banco Central e do que mais fosse necessário.

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