O que é mais eficaz – e também mais perverso – na estratégia de desmoralização da democracia é que o seu sucesso é tanto maior quanto maior é o escândalo perpetrado por seus beneficiários.

Altamir Tojal

Está sendo executada no Brasil uma estratégia de desmoralização da democracia, que tem sido bem sucedida até agora na reprodução do poder. É um processo que naturaliza a corrupção, afasta a população da política e instrumentaliza a indignação popular.

Além de naturalizada, a corrupção é manipulada como espetáculo para fortalecer e assegurar a permanência da aliança de poder do PT, PMDB e demais partidos aliados, sustentada por bancos, empreiteiras e pelo sindicalismo colonizado e demais beneficiários de privilégios oficiais no país.

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RENAN E DELÚBIO

A elevação de mensaleiros e outros acusados de corrupção a posições de relevo no executivo, no Congresso Nacional e no PT tem o valor simbólico de reforçar drasticamente os sentimentos já amplamente difundidos na população de que a política não serve para o povo e que votar não adianta, a não ser em troca de algo tangível, como emprego, cargo, bolsa, cesta, patrocínio ou dinheiro vivo mesmo, em estado natural.

Esta é a lógica de atos de ampla repercussão na opinião pública, como as escolhas de Renan Calheiros para o Conselho de Ética do Senado, de João Paulo Cunha para a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, as de Paulo Maluf e Valdemar Costa Neto para a Reforma Política e por aí vai. O mesmo raciocínio vale para a eleição de Rui Falcão, em nome de José Dirceu, para a presidência do PT, e para o apoteótico retorno de Delúbio Soares ao partido.

A volta desses zumbis aos holofotes da política neste momento não é um acontecimento fortuito nem inocente. O seu protagonismo ao lado da presença eterna de José Sarney no núcleo do poder, tem a força avassaladora de catapultar a desconfiança da sociedade em relação à democracia.

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CLIENTELISMO E ASSISTENCIALISMO

Esta estratégia deliberada busca assegurar, por antecipação, o êxito do modelo eleitoral que deu ao PT e ao PMDB o domínio absoluto sobre o governo, baseado no clientelismo, assistencialismo e aparelhamento do estado, ou seja, o modelo da troca do voto por alguma vantagem.

A desmoralização da política, do voto e da democracia é crucial para isso, porque desqualifica o debate, nivela por baixo todas as opiniões e barateia a cidadania. Ironicamente, a validação do sucesso dessa estratégia é dada pela justa indignação da sociedade. As ressurreições de Renan e Delúbio, por exemplo, episódios mais recentes e emblemáticos dessa estratégia de permanência no poder, produziram milhares de protestos em cartas de leitores, twitters e posts em blogs e redes sociais, quase sempre esculachando os políticos, como espécie, e as instituições políticas todas, com destaque para a comparação do Congresso Nacional com um prostíbulo.

Essa indignação se reproduz aos milhões, em lamentos e impropérios dos que não se dão ao trabalho de teclar e clicar, mas comentam e resmungam em casa com a família, na rua com os vizinhos, no trabalho com os colegas, sem falar nos que nem isso fazem, mas sedimentam na mente a ideia de que política é coisa de ladrão e sentem no peito a frustração por não serem suficientemente espertos para monetizar o próprio voto.

Como em outras ocasiões terríveis da história, a indignação do povo está sendo instrumentalizada hoje no Brasil pelo bloco de poder.

Uma definição precisa desse processo foi dada pelo leitor Mário Barilá Filho, em carta publicada na edição de 30 de abril do Globo: “Com Renan no Conselho de Ética, a volta de Delúbio à vida pública e Palocci no Ministério, imagino que não deve faltar muito para a presidente Dilma reabilitar sua amiga de fé Erenice Guerra, talvez criando algum ministério para ela. A dita oposição poderia resolver a sua crise de identidade organizando uma passeata pacífica de 190 milhões de brasileiros pedindo o fim da ditadura da corrupção”.

O que é mais eficaz – e também mais perverso – nessa estratégia de desmoralização da democracia é que o seu sucesso é tanto maior quanto maior é o escândalo perpetrado por seus beneficiários.

Altamir Tojal é jornalista
e mantém um blog na internet

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