O que fazemos aqui, eu e os leitores, é debater fatos históricos que mudaram o futuro do Brasil. Muitos opinam. Outros, como o repórter, viveram, é diferente.

Respondendo a alguns ou muitos que desejavam que eu contasse fatos entre 1955 e 1964, tive que sumarizar e sintetizar, pois é um espaço de tempo muito grande. Haroldo (que deve ser oficial) e Antonio Santos Aquino (que é), voltaram, o que achei excelente. Não me causa o menor aborrecimento o fato de discordarem de mim, civilizadamente, como fizeram.

Apenas como complemento, devo dizer que em todos esses episódios, eu estava jornalisticamente na primeira fila, vi tudo privilegiadamente. Isso não quer dizer que minhas análises sejam impecáveis, irrefutáveis e irrevogáveis. Muita gente assiste e não sabe dissecar, seja um episódio golpista, uma peça de teatro, um filme. Pelos comentários, a impressão é de que duas pessoas que estavam juntas, viram coisas diferentes.

Os militares sabem muito bem (e o repórter não ignora) que o Exército (e as FAs, assim, como escreveu o Haroldo) se baseia na hierarquia. E mais, complementando: na hierarquia e na disciplina. Sem isso não pode haver Exército, Marinha ou Aeronáutica, (embora o Exército sempre seja o dominador, não houve nenhum episódio com predominância da Marinha ou da Aeronáutica).

É lógico que essas duas armas, a Marinha, a primeira a ser criada, a Aeronáutica, a última, tiveram participação importante em vários episódios, mas jamais chegaram ao Poder. Duas revoltas em 1892 e 1893, chefiadas pelo almirante Custódio. A primeira, chamada de “Revolta da Marinha”, contra o “presidente” Floriano. A segunda, comandada pelo mesmo almirante, intitulada “Revolta da Armada”, surpreendentemente a favor de Floriano. E outros lances não tão  históricos. (Como os dois do Tamandaré, um com bombardeio da cidade, outro sem).

A FAB, criada em 1941, com um ministro civil, como Epitácio Pessoa já fizera, teve grande destaque na “República do Galeão”, e mais tarde nos episódios de Aragarças e Jacareacanga, com Carlos Lacerda envolvido, mas aí inteiramente injustiçado. Fez tudo para evitar as explosões. Mas pelo passado conspirador, não teve força para provar sua ausência e inocência.

Quanto à participação do general Lott na posse de Juscelino, desculpem, foi igual a zero. Por que insistem tanto em dar o crédito ao general Lott e esquecem inteiramente de Denys? Os dois moravam perto de onde é hoje o Maracanã, em residências oficiais.

Por volta das 4 da manhã, Lott acordou para ir ao banheiro, viu luz na casa de Denys, ligou para ele pelo telefone de campanha, recebeu o convite, “venha para cá”. Foi.

Quando enfim saíram de lá, mais tarde, tudo já estava resolvido, articulado por civis, junto com os coronéis gêmeos que citei, José Alberto e Alexinio Bittencourth. Sei que é atípico, mas também é atípico o fato de um cidadão (Juscelino) ser candidato a presidente, ganhar e ter a posse negada ou ameaçada.

Uma pergunta que confirma minha revelação, e que duvido possa ser explicada ou até contestada: porque o presidente eleito e ainda não empossado convidaria o coronel para viajar com ele. A comitiva tinha o presidente e mais 4 pessoas, sendo uma este repórter, e dois representantes do Itamarati. Por que incluir o coronel?

Eu mesmo não conhecia os dois irmãos, fui saber da existência deles na hora dos acontecimentos. Quando Denys e Lott se encontraram, Nereu Ramos, às 6 horas da manhã (em ponto) era eleito presidente da República. Seria o substituto constitucional. (Café já era o vice, Carlos Luz viajava no Tamandaré, Nereu deveria assumir interinamente, preferiram que ficasse efetivo até 31 de janeiro de 1956, posse de JK, o que aconteceu).

***

PS – As réplicas (no bom sentido) do Haroldo e do Aquino, trazem fatos inteiramente separados desses da posse de Juscelino. Como eu disse, nunca existe apenas um golpe, geralmente são dois.

PS2 – O único golpe exclusivo que conheço, ocorreu na Bulgária em 1932. 38 oficiais do Exército, tomaram a localização física do poder (o palácio presidencial), começaram a enviar “ordens radiofônicas para todas a unidades”, foram atendidos e exerceram o Poder se um tiro.

PS3 – De uma certa maneira, foi o que aconteceu no Brasil em 1889, no que chamam de PROMULGAÇÃO da República. O que houve foi a IMPLANTAÇÃO, com dois marechais no comando de tudo, até se desentenderem. (O que aliás já acontecera na estranha Guerra do Paraguai, quando eram coronéis).

PS4 – Ninguém se conformou com a posse de Juscelino, o seu próprio PSD estava em pânico. Mas Juscelino governou os 5 anos, embora as contusões de 1955, reabrissem em 1961, 1963 e finalmente em 1964.

PS5 – Muitos amigos me cobravam livros sobre esses fatos que lembro, inteiramente de memória. Alguns chegam a dizer: “Helio, se você tivesse começado a contar esses fatos em livros, a partir de 1960, de 4 em 4 anos, já teria publicado pelo menos 10 depoimentos”.

PS6 – É possível, é possível. Mas sempre tive, digamos, um certo cuidado a respeito, de relatar fatos e mais fatos, com os nomes dos personagens que participaram em primeiro plano, desses episódios.

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