O que fazer com um partido que é a caricatura de Lula

Sandra Starling

Consigo, finalmente, encontrar coragem para fazer uma volta ao passado e me arrepender do que fiz. Sou levada a isso por um antigo companheiro, que me indagou, diante de meu artigo sobre José Dirceu, se a esquerda seria capaz de rever seus erros. Não sei responder essa pergunta genérica. Sei que eu posso e que posso também apontar o erro principal da maioria em meu antigo partido. Ano Novo é para isso mesmo: momento de reflexão sobre o que foi feito e sobre o que se deve fazer.

(reprodução de Chico/O Globo)

No livro do africano José Eduardo Aqualusa “Teoria Geral do Esquecimento”, sobre a luta pela libertação e pela construção do socialismo em Angola, há um personagem, o Pequeno Soba, cuja descrição me instigou: “possuía mais alento do que talento para as tramas da política”. Viajei na maionese vendo Lula na minha frente. Só que esse, ao contrário, possui de sobra alento e talento para as tramas da política.

O PT nasceu da confluência das comunidades eclesiais de base com as organizações clandestinas de esquerda – leninistas e trotskistas, intelectuais e sindicalistas. Nas quatro vertentes, como acontece em todo lugar, convivem oportunistas, pessoas bem-intencionadas, canalhas e ingênuos. As CEBs sempre endeusaram as classes populares e se maravilharam com Lula, porque ele era um autêntico representante do povo brasileiro. A esquerda – na qual me incluía – vivia, equivocadamente, vendo em um operário – por ser operário – a encarnação do sujeito histórico da revolução.

“INTELECTUAIS”

Os intelectuais adoraram ter um líder não iniciado na militância de esquerda e, portanto, vacinado contra os males do stalinismo. Oportunistas, canalhas e mal-intencionados viram nele a “galinha dos ovos de ouro” há muito esperada. Os ingênuos, afinal, enxergaram alguém em quem poderiam confiar.

Julgo que esse endeusamento de Lula cegou-nos a todos para não vermos desde o início suas grandes virtudes, mas também seus enormes defeitos. Não vou me estender sobre as qualidades. Vou falar dos defeitos. Seu ego imenso, a fuga das “bolas divididas”, os “queridinhos da vez” (Osmarzinho, depois, Jacó Bittar, Olívio Dutra e Guschiken, Weffort, Frei Betto). E seus “escolhidos da vez” ou “descartados da vez”: dentre os primeiros, Dilma Rousseff, agora, Haddad. Dentre os segundos, por exemplo, Humberto Costa, na aventura da Prefeitura de Recife agora, em 2010.

De José Dirceu, ele nunca gostou, tenho certeza. Mas ele pressentia que nada seria sem o comandante incansável, o principal mantenedor da ordem no partido, com capacidade de intervenção fora dele. Deu no que deu. Vencida a fase de consolidação da organização interna, Lula tirou de vez a máscara e se arvorou em dono do partido, processo iniciado com a ajuda do próprio José Dirceu quando Wladimir Palmeira foi impedido de ser candidato ao governo do Rio.

Se José Dirceu for mesmo para a cadeia, e outros problemas não surgirem, será finalmente possível saber o que Lula fará com um partido que virou, como se sabe, caricatura de si mesmo.

(transcrito do jornal O Tempo)

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