O que há no tal nome da tal cidade, “Stalingrado”?

MK Bhadrakumar (Indian Punchline)

A famosa cena do filme hollywoodiano “Círculo de Fogo” capturava bem o espírito do tempo quando, falando a uma sala cheia de militares soviéticos bem no centro do front de Stalingrado na 2ª Guerra Mundial, o recém nomeado Comissário do Exército Vermelho Nikita Khrushchev, enviado especialmente por Joseph Stalin para conter a retirada, sob o assalto dos alemães, berrou:

Meu nome é Nikita Sergeyevich Khrushchev. Vim para tomar as rédeas da situação por aqui. Essa cidade não se chama Kursk, não se chama Kiev, não se chama Minsk. Essa cidade é Stalingrad! Essa cidade leva o nome do Comandante. É mais que uma cidade: é um símbolo. Se os alemães capturarem essa cidade, todo o país cairá em colapso. Agora, que todos levantem a cabeça.”

Fato é que a vitória na Batalha de Stalingrado, na 2ª Guerra Mundial foi um dos momentos decisivos da história soviética. E o nome de Stalin está ligado para sempre àquela batalha heroica. Isso, nem se discute.

Acabam de ser comemorados os 70 anos daqueles dias, com Vladimir Putin presente às cerimônias. Interessante anotar que a cidade de Volvogrado reivindicou para si o nome de “Stalingrado” (que Nikita Khrushchev fez trocar, em 1961), especialmente para aquela comemoração histórica. Foi exigência da população da cidade, a mesma em cuja defesa morreram meio milhão de russos, mártires de uma saga heróica que durou 200 dias. Pois decidiram ser lembrados, 70 anos depois, associados ao nome de Stalin.

SIMBOLISMO

A decisão do Kremlin, de falar não de Volvogrado, mas de “Stalingrado”, nas comemorações atuais, é carregada de simbolismo político. É a Rússia que renasce – e com ela sua autoconfiança –, afinal se reconciliando com sua história profunda.

O ocidente dirá – e já começou a dizer – em tom de crítica, que Putin está ‘ressuscitando’ Stalin. A ironia dessa história é que, sem a mão de ferro de Stalin, a batalha de Stalingrado teria tido história diferente; e toda a história do ocidente teria sido outra, se Stalin, ali, não tivesse feito mudar a maré da guerra.

A Batalha de Stalingrado foi o ponto de virada da 2ª Guerra Mundial. Hitler concentrara o principal grupamento estratégico de seus exércitos entre os rios Don e Volga – 14 divisões nazistas concentravam-se contra Stalingrado – distribuídas numa fronteira de 850 quilômetros.

Os alemães perderam 1,5 milhão de homens na Batalha de Stalingrado. O Exército Vermelho destruiu 3.500 tanques nazistas. Stalin quebrou literalmente a espinha dorsal da Alemanha nazista; Hitler nunca mais se recuperou.

Os sacrifícios russos não teriam alcançado a proporção gigantesca que alcançaram, se as potências ocidentais – a Grã-Bretanha, em especial – tivessem aberto uma frente ocidental. Mas, na ocasião, Winston Churchill contava com que a União Soviética sangraria até morrer, sem apoio ocidental, e não reapareceria para contar a história.

Por que uma nação se envergonharia da própria história? Nada é só belo e bom; tudo vem com a parte que presta e a parte que não presta. A gigantesca contribuição de Stalin na construção da União Soviética também é parte inarredável, imensa, da história da Rússia. Ninguém se dedica a narrar a história dos EUA impondo, no coração da história, a escravidão e o racismo. Nem o banho de sangue da Partition é o único evento que se considera, na história da civilização indiana. É sempre importante relembrar as lições da história.

A RÚSSIA RENASCE

A Rússia está renascendo hoje, sob imensíssima pressão. Os EUA recusam-se a aceitar a ressurgimento da grande Rússia, e não abrem mão de uma sua sempre pressuposta “superioridade nuclear” – que é a única inspiração, a essencial inspiração do ‘novo’ programa dos mísseis de defesa dos EUA.

Os EUA dizem que estão ‘ignorando’ a Rússia, mas o verdadeiro jogo norte-americano é fugir de qualquer tipo de discussão séria e consequente sobre o equilíbrio estratégico global.

O pretexto aparente é que Putin seria ‘autoritário’. Mas a agenda real é quebrar o sistema político russo. Os EUA avaliam que haja rachaduras internas entre as elites russas e as classes médias; e que o edifício que Putin constrói tenazmente, sem descanso, não tem pernas firmes – como qualquer casa dividida. Não há dúvidas de que a Rússia tem, sim, de extrair força e densidade histórica de memórias que são dela: “Que os inimigos da Rússia nunca esqueçam a Batalha de Stalingrado”.

(artigo enviado por Sergio Caldieri)

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