O que mantém a Grécia é a permanente injeção de recursos do FMI e do Banco Central Europeu

Roberto Fendt

Os governos gregos pós-adesão à União Europeia, as agências internacionais de classificação de riscos, o Fundo Monetário Internacional  e o Banco Central Europeu, de um lado; e os bancos privados, de outro, foram cúmplices da tragédia que agora se desenrola. Os primeiros, por não alertarem para os riscos que o endividamento excessivo para financiar o consumo corrente estava provocando; os segundos, por imaginarem que, se criassem um problema grande o suficiente, o FMI e o BCE os livrariam dele.

A tragédia da Grécia não está no passado, mas no futuro, no dia seguinte ao calote de sua dívida externa. Porque não há escapatória: a Grécia não terá como pagar sequer os juros e encargos de sua dívida externa. O que mantém a aparência de normalidade é a permanente injeção de recursos do FMI e do BCE e as promessas do governo de que o país honrará seus compromissos.

Como fazê-lo? O que estamos assistindo é um aporte de recursos públicos das instituições multilaterais, já que estes  recursos pertencem aos países membros dessas instituições, uma vez que os bancos privados agora não mais estão dispostos a colocar dinheiro novo e bom sobre o dinheiro velho e ruim que anteriormente emprestaram.

Para os bancos privados, é necessário que se mantenha a ficção de que os títulos de dívida grega que compraram mantêm o seu valor de face, ou pelo menos não se desvalorizem demasiadamente – o que ocorreria no caso de um calote da dívida, quando esses papéis virariam pó.

Nada disso ainda ocorreu e as taxas de juros para novos empréstimos à Grécia já aumentaram de forma significativa, sinalizando o aumento do risco de um calote. Se qualquer dos dois casos viesse a ocorrer, certamente os bancos centrais dos países dos bancos emprestadores iriam requerer um aumento no capital das instituições.

Alguém poderia argumentar que essa conclusão é exagerada, já que as instituições multilaterais estão injetando dinheiro na Grécia a taxas de juros favorecidas, reduzindo o custo do serviço da dívida do país. O problema é que, a despeito disso, a dívida grega continuará crescendo, mesmo depois que o dinheiro do FMI e do BCE entre no banco central grego.

Atualmente, a Grécia tem um déficit fiscal da ordem de 10% do PIB – e esse déficit é insustentável. Em paralelo a esse déficit, e talvez em consequência dele, o déficit da balança comercial grega é da ordem de 4% do PIB, o maior da área do Euro. Sua manutenção  irá requerer, ano após ano, um aumento do endividamento externo, o que parece fora  de questão atualmente.

Como sair desse impasse? É mais fácil indicar o que precisa ser feito que dizer como fazê-lo. E o que precisa ser feito é simples: primeiro, cortar o déficit público e financiar o que restar dele com fontes internas de recursos; na ausência de fontes externas de financiamento do déficit da balança comercial, a Grécia deverá reduzi-lo, eliminá-lo, aumentando as exportações e reduzindo as importações.

Para isso, será necessário desvalorizar o câmbio, de forma a promover o desejado ajustamento nas contas externas. O problema é que isso não será possível enquanto a Grécia permanecer na área do Euro. A Grécia precisaria de uma “licença” temporária para abandonar o Euro e retornar  à sua antiga moeda, o dracma. Feito isso, o dracma deveria desvalorizar o suficiente para equilibrar a balança comercial.

Tudo isso é mais fácil de dizer do que fazer. Aumentar, via tributação, a receita do governo para cobrir o deficit fiscal de 10% do PIB já seria uma tarefa hercúlea; desvalorizar o câmbio o suficiente para restabelecer o equilíbrio externo poderá ser demais.

(Artigo publicado originalmente
no Diário do Comércio)

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