O que somos e para onde vamos?

Tostão
O Tempo

Há quase 20 anos, fui entrevistado por um pesquisador alemão, que, com a colaboração da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), fazia um trabalho sobre as razões da grande habilidade e criatividade dos jogadores brasileiros. Ele, nem ninguém, imaginaria os 7 a 1 e que a Alemanha tivesse hoje seis atletas entre os 23 melhores do mundo, enquanto o Brasil só tem um. Uma das conclusões do trabalho, esperada, foi a de que a fantasia brasileira surgia na infância, nos campos de terra, na brincadeira com a bola, sem regras e sem professores. Os grandes talentos, em todas as áreas, costumam ser os que continuam brincando, com seriedade.

Hoje, a maioria dos meninos frequenta as escolinhas particulares, públicas ou dos clubes. Os Zé Regrinhas, em vez de deixarem as crianças descobrirem a intimidade com a bola, tentam ensinar as regras, a técnica, o jogo e como competir, antes de elas terem um desenvolvimento psicomotor adequado.Mesmo assim, temos um grande número de jogadores habilidosos e criativos, mas com pouca lucidez e pouca técnica. Não existe arte nem craque sem ótima técnica.

Já os europeus, menos habilidosos, aprimoraram a técnica individual e coletiva. Os grandes jogadores, mesmo quando não brilham, erram pouco. O comentarista Sorín, da ESPN Brasil, após um erro de passe de Kroos, disse, com ironia e criatividade, que a manchete do outro dia já estava pronta: “Kroos errou um passe”. Existe uma antiga discussão se é melhor ter, nas categorias de base, como técnico, um ex-atleta ou um professor de educação física, com formação na área. Não há regras. Há ótimos e ruins treinadores nas duas situações. A maioria dos ex-atletas não se prepara para a nova função. Acha que sabe tudo. Além disso, muitos brilharam nos gramados, sem entender o jogo coletivo. Por outro lado, a maioria dos treinadores acadêmicos tem dificuldade para perceber as sutilezas de uma partida.

APRENDER SOZINHO

A solução para melhorar a formação dos jogadores não é a volta ao passado nem aos campos de terra. Hoje, com ótimos gramados e com mais recursos científicos e tecnológicos, existem muito mais chances de as crianças desenvolverem a habilidade, a criatividade e a técnica, desde que sejam aprendidas no momento certo e que sejam bem ensinadas. O melhor professor é o que ensina o aluno a aprender sozinho. Após a final da Copa de 1970, o cineasta Pasolini disse que a poesia brasileira derrotou a prosa italiana. Na verdade, o Brasil tinha também uma ótima prosa. Hoje, não estamos bem em uma coisa nem outra, não sabemos o que somos nem para onde vamos.

HOMENAGENS

Semana passada, fui homenageado pelo Cruzeiro. Senti-me honrado e contente. Na Toca I, inauguraram uma sala com meu nome, a do coordenador da base Raul Plassmann, companheiro na década de 1960 e excepcional goleiro. Na Toca II, deixei a marca de meus pés, no espaço dedicado aos que fizeram mais de 400 jogos e/ou mais que cem gols. Fiz 245 gols em 378 jogos. Encontrei Gilvan de Pinho Tavares animado com 2015. Ele e toda a diretoria entendem minha posição de colunista esportivo, de ter um distanciamento com o clube e de ter a obrigação de ser isento, na crítica e no elogio. Encontrei também Zé Carlos, um dos maiores meio-campistas que vi atuar. Raramente, errava um passe, como Kroos.

One thought on “O que somos e para onde vamos?

  1. Assim disse Limongi anteriormente

    ‘Tostão ou “Vintém”?

    Tostão – ou será melhor “vintém”? – jogou bola com Gerson, Pelé. Era impossível jogar mal com esta gente. Mas, tornou-se uma vestal grávida, mais uma no oceano de hipócritas que insistem em botar banca na imprensa, travestidos de donos da verdade. Perguntinha que não quer calar: porque Tostão (ou vintém?) não devolve, hoje, o valor do fusca, atualizado em reais, e doa a uma instituição de caridade? Mais: a justiça jamais mandou Maluf devolver o carro. Balela dos reles patrulheiros prontamente retrucada e provada, na FSP, pelo jornalista Adilson Laranjeiras, assessor de Maluf. Claro que temos campeões do mundo passando necessidades. Lamentável! algo precisa ser feito. O tempo passa e alguém precisa fazer algo positivo, urgente. Creio que o governo age bem, se realmente destinar esta quantia aos campeões do mundo. Porque Tostão, o sabidão, a gorda vestal, não vai visitar o fabuloso Nilton Santos, hospitalizado, no Rio, lamentavelmente muito doente. Não reconhece mais as pessoas, e doa um pouco do seu carinho, dinheiro ou apenas solidariedade? É fácil criticar, botar defeitos nas ações do governo. Na teoria. Na prática é que são elas. É preciso procurar vencer as dificuldades, fazer o que com os velhos e fantásticos ex-campeões mundiais? Mandar eles disputarem a São Silvestre para ganhar uma medalha? Ninguém come medalha com arroz nem com feijão’

    Sem reconhecer que

    ‘Até o ano de 1965, o futebol brasileiro se resumia às forças dos times de São Paulo e Rio de Janeiro. Santos, Botafogo, Palmeiras, Fluminense, Vasco, Flamengo, Corinthians e São Paulo, nesta ordem, eram as potências que ditavam o esporte no país. Os clubes de estados como Minas Gerais e Rio Grande do Sul sequer figuravam nessa lista, se restringindo às competições estaduais. Apenas o Bahia, em 1959, que conseguiu quebrar por um momento essa ordem quando levantou a primeira edição da Taça Brasil. Mas, a partir de 1965, um clube azul de Minas Gerais deu as caras e mostrou ao Brasil um futebol brilhante, rápido, leve, artístico, inesquecível. Raul, Procópio, Piazza, Zé Carlos, Dirceu Lopes, Natal, Evaldo e, sobretudo, Tostão, mostraram no Cruzeiro de 1965-1969 que nem só de Rio e SP vivia o futebol nacional. A consagração desse esquadrão foi na final da Taça Brasil de 1966, quando os azuis de Belo Horizonte deram um vareio em ninguém mais ninguém menos que o Santos de Pelé, ao aplicar 6 a 2 em Minas e 3 a 2 em São Paulo, conquistando pela primeira vez o principal torneio do Brasil à época. A vitória cruzeirense foi tão marcante e importante que nunca mais o estado de Minas foi esquecido. Melhor, o eixo mudou para sempre e foi criado, já em 1967, o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, embrião do que seria mais tarde o Campeonato Brasileiro, em 1971. É hora de relembrar as façanhas do time que é, até hoje, xodó da torcida azul’

    Isso é pinima com o Tusta. Tostão jamais jogou com Nilton Santos. Pelé foi visitar o lateral ? Bem, Pelé não visita ninguém, nem seu companheiro de tabelas (me).

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