O regresso de quem, estando no mundo, volta ao sertão

O advogado, jornalista e poeta pernambucano Carlos Pena Filho (1929-1960) vive “O Regresso de Quem, Estando no Mundo, Volta ao Sertão”. Considerado um dos mais importantes poetas pernambucanos da segunda metade do século XX, teve sua carreira prematuramente encerrada em virtude de sua inesperada morte em 1960, quando ele ainda estava com 31 anos de idade.

O REGRESSO DE QUEM, ESTANDO NO MUNDO, VOLTA AO SERTÃO
Carlos Pena Filho

Eis-me agora, rio acima,
construindo o entardecer.

Desta planície azulverde,
cidade de rio e mar,
irei até onde a terra
deixou terras por achar,

nas claras ruínas do sol,
de chão cego aos vegetais
e que de amor tem apenas
as patas dos animais.

Entre canas, pelo rio
claríssimo, aí começo,
sob o sol duro do estio,
meu luminoso regresso.

Árvores gordas se espalham
nesta flora feminina;
chão de açúcar, terra doce
que se arredonda em colinas.

Outrora, aqui, os engenhos
recortavam a campina.
Veio o tempo e os engoliu
e ao tempo engoliu a usina.

Um ou outro ainda há que diga
que o tempo vence no fim:
um dia ele engole a usina
como engole a ti e a mim,

pois foi essa mesma fera
que engole moça e criança,
que fez o barão, gerente,
e a baronesa, lembrança.

E mais fará, noite adentro
na sombra onde a morte aguarda
e põe nos corpos dos homens
doença, faca, espingarda.

Mas, como tudo no mundo
com o tempo a gente se esquece
do tempo e nem vê que é nele
que a gente acorda e adormece…

Daqui eu já vejo o vale
do Capibaribe lento
e, enquanto vejo, descubro
que o verde, ao longe, é cinzento.

Pois, como tudo o que nasce,
a cor também se elabora,
como o minuto que se une
ao outro e organiza a hora,

como esta vasta planície
que foi semeada agora,
a chuva mistura a terra
e explode o verde da flora.

Depois as plantas expulsam
o excesso de cor violenta
e o céu recolhe do espaço
o azul de que se alimenta.

Este céu que cobre o mundo
de arruados sem mistério;
cada qual igreja e sino,
cadeia, alvo cemitério.

Do alto de um morro qualquer,
ou da Serra dos Cavalos,
vejo as cercas de avelozes
que são verdes intervalos

dividindo terras secas
onde só cresce o abandono,
mostrando a qualquer passante
que o nada também tem dono.

O agreste é, às vezes, surpresa:
num pé de serra qualquer,
enxada, casa, fumaça,
menina, homem, mulher.

Um boi que procura a sombra,
água limpa na levada,
menino alegre por ter
sua dor organizada.

E em volta, nas terras secas,
onde só cresce o abandono,
os avelozes indicam
que o nada tem dono.

Bem depois desse lugar
por Arcoverde chamado,
caminho no duro chão
do sertão desidratado.

É fama quando havia
solidãonestas paragens,
um mascote interrompia
aqui, as suas viagens.

Seu cavalo adormecia
sem ter sombra de ramagem
e o mascote, quando a noite
descoloria a paisagem,

ia a uma venda que havia
neste ponto de passagem.
– Minha comadre Maria
dê-me aguardente e coragem

que o tempo é ave bravia
nesta campina selvagem
e o mal, cadela vadia,
passeia solto, na aragem.

Minha comadre Maria,
dê-me agurdente e coragem,
para esperar pelo dia
nesta campina selvagem.

Mas, quem regressa, bem sabe
que o demônio aqui não mora,
que ele não tem pés de cabra
e nunca viu uma espora.

Dele é apenas este sol
que brilha e tudo devora
ou a alma de algum passante
que chegou, vindo de fora.

Como eu, que vivi tão longe,
sempre o renegado, embora,
mas que dormi alta noite
e não vi nascer a aurora.

Que passei anos a fio
sem ver bois, sem ver cavalos,
sem ver nem mesmo avelozes,
esses verdes intervalos

que lá no agreste dividem
a terra despedaçada
mas que um dia hão de crescer
enchendo de verde o nada.

Eis-me agora, sem um rio,
neste duro entardecer.
Nesta planície amarela,

terra sem rio nem mar,
de onde saí mas deixei
e, por isso vim buscar

as claras ruínas do sol
onde não me hei de perder,
embora não tenha um rio
neste duro entardecer.

  (Colaboração enviada por Paulo Peres – Site Poemas & Canções)

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