O Reizinho do BNDES

Sebastião Nery

Meses depois da renúncia em agosto de 1961, Jânio Quadros voltou da Europa em 1962 e se candidatou a governador de São Paulo, com um slogan do saudoso deputado baiano, cassado em 1964, João Dória: -“A renúncia foi uma denúncia”.

Por sugestão de José Aparecido de Oliveira, Luís Lopes Coelho, presidente do “Barzinho do Museu”, em São Paulo, reuniu alguns jornalistas e intelectuais amigos, de São Paulo e do Rio, na casa dele, para uma conversa com Jânio: Rubem Braga, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Mário Neme, Darwin Brandão, eu, outros. Jânio estava alegre, até que Darwin perguntou:

– Presidente, o senhor prometeu que, quando voltasse da Europa, denunciaria as “forças ocultas” que o levaram à renúncia. Quais foram?

Jânio ficou irritado: – Meu caro Darwin, não falei em “forças ocultas”, mas em “forças terríveis”! É o que disse. E mantenho. Forças muito poderosas!

Revirou os olhos e se calou. Pegou o uísque, levantou-se, chamou Paulo Mendes Campos a um canto da sala:

– Meu caro Paulinho, quero dizer-te uma coisa. Não é fácil renunciar a tanto poder. O Presidente, neste País, meu caro Paulinho, é um rei. Fui um reizinho! Um reizinho, Paulinho, tu sabes!

A reunião acabou. Sobre a renúncia, nada. Morreu sem explicar.

LULA

O Brasil está com um reizinho de coroa suja, agora enlameada na Operação Lava Jato. Lula saiu do governo e criou algumas arapucas para fabricar dinheiro fácil.  Ele diz que o Instituto Lula e o LILS (Palestras, Eventos e Publicidade) são para articularem suas “conferências”.

Mas que “conferências”? Quando, onde, sobre que assunto? Ele chama de “conferências” suas baboseiras nas reuniões do PT. Quem já assistiu a uma “conferência” de Lula? Ele não faz “conferencias”. Faz “transferências”. Só a Camargo Correia transferiu 3 milhões de dólares para o cofre do Instituto Lula e mais 1 milhão e meio para o cofre do LILS.

Apesar da conhecida esperteza do reizinho, o escândalo ia acabar nas manchetes dos jornais como Globo e capas de revistas como Época e Veja.

BNDES

Todo reizinho tem seu trono. O de Lula está instalado no BNDES. É lá que ele fatura seus lobes viajando pela America Latina e África nos jatinhos das empreiteiras, de preferência a serviço de um ditador corrupto.

1.-No primeiro trimestre deste ano, o BNDES tinha R$ 202 bilhões do Fundo de Amparo ao Trabalhador, 40% do total dos recursos do FAT. Com a transferência de dinheiro do Tesouro, o banco tinha uma carteira para investimentos de R$ 500 bilhões. O governo paga a taxa selic de 13,75%, ao ano, elevando a dívida pública, pela transferência de dinheiro caro para subsidiar os banqueiros “amigos”.

  1. – As dez maiores empresas brasileiras concentram 40% dos recursos destinados aos investimentos interno e externo. Juros baixos e prazos longuíssimos caracterizam esses empréstimos. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje está em 6% ao ano, com prazos variáveis de 10 até 25 anos. Nos últimos anos, as empresas apelidadas de “campeões do desenvolvimento” concentraram a quase totalidade dos investimentos.
  2. – Obrigado pelo TCU e STF, o BNDES divulgou obras realizadas por empresas brasileiras de engenharia. Elas têm do banco, lá fora, crédito mais barato do que os praticados quando o investimento é realizado no Brasil. Aqui, na área de infraestrutura, o financiamento mais barato é o Programa de Investimento em Logística (7% ao ano).Em Honduras, em junho de 2013, em financiamento de US$ 145 milhões, o BNDES fixou juros em 2,83%. Em Angola, os juros foram de 2,79%.

MÃE DILMA

  1. – O BNDES investiu US$ 11,9 bilhões em projetos das empreiteiras lá fora. As maiores beneficiárias são Odebrecht (US$ 8,2 bilhões, 69% dos recursos), Andrade Gutierrez (US$ 2,81 bilhões), Queiroz Galvão (US$ 388 milhões); OAS (US$ 354 milhões); Camargo Correa (US$ 255 milhões).
  2. – O BNDES, com garantia do Tesouro, a taxas de juros “amigas”, opera em Angola com empréstimos de US$ 3.383 bilhões e juros de 5,32%; na Venezuela US$ 2.252 bilhões e juros de  4,29%; na República Dominicana US$ 2.204 bilhões e juros 4,85%, na Argentina US$ 1.872 bilhão e juros de 4,83%, em Cuba US$ 847 milhões e juros de 5,38%.
  3. – Em Moçambique US$ 444 milhões e juros de 4,89%, na Guatemala US$ 280 milhões e juros de 4,94%, no Equador US$ 228 milhões e juros de 3,75%; em Gana US$ 216 milhões e juros de 3,75%, em Honduras US$ 145 milhões e juros de 2,83%; e Costa Rica US$ 44,2 milhões e juros de 4,07%.

Aqui dentro é a “Mãe Dilma” do PT. Lá fora, a “Filha de Lula”.

4 thoughts on “O Reizinho do BNDES

  1. Jânio Quadros e Lula fizeram caminhos inversos: Lula era o candidato da esquerda, da moral da ética da defesa dos interesses nacionais, eleito se bandeou para a direita, para os banqueiros, para as multinacionais, para o enriquecimento da companheirada. Jânio era candidato da direita, do poder econômico, da elite e da UDN, eleito se bandeou para esquerda, condecorou Che Guevara, foi a Cuba, peitou os americanos, pediu a Jango que fosse aos países comunistas abrir relações comerciais, havia comentários que iria colocar em pauta a lei de remessa de lucros e reforma agrária. Será que por tudo isso não seria motivo de golpe. que os golpistas, vinham tentando desde o governo de Vargas. O golpe na renúncia de Jânio só não foi dado graças ao Brizola, com a cadeia da legalidade. Meu Candidato era o Gal. Lott, mas não posso me furtar a dizer que pela história de golpes nos países da América Latina, só há em governos nacionalista. Enquanto governos corruptos que privilegiam os banqueiros e o poder econômico, não sofrem perigo de golpes.

  2. Hayek x Keynes: o debate revisitado
    Por Luiz Carlos Mendonça de Barros
    Com o fim do keynesianismo da Unicamp e do PT, o debate econômico no Brasil está se dirigindo para uma nova polarização. A briga agora será entre os valores corretos de Keynes e o quadro ideológico clássico de Frederik Hayek. Na última semana tivemos um primeiro confronto explícito de ideias tendo a mim como um dos participantes – entrevista no Valor – e Luis Stuhlberger do lado do economista austríaco. Como sei que poucos tomaram conhecimento deste primeiro confronto vou hoje explorar este conflito de visões tão diferentes.
    Começo pelos comentários sobre um livro interessantíssimo que li nas últimas semanas. Chama-se “Keynes versus Hayek, The Clash that defined Modern Economics”. Escrito por Nicholas Wapshott, descreve os quase 30 anos em que estes dois gigantes conviveram no mesmo espaço temporal.
    Hayek defendia que o governo deveria manter-se fora do jogo econômico, deixando as forças de mercado agir com total liberdade. Nesta situação, a tendência natural das economias seria a de viver eternamente em equilíbrio. Já Keynes negava a existência desta ordem natural do equilíbrio e ponderava que o risco de graves crises cíclicas estaria sempre presente sem a intervenção do governo. Não acreditava em racionalidade econômica estrutural dos mercados e pregava que, em momentos de desequilíbrio, uma ação dos governos, por meio principalmente de uma política fiscal ativa, é necessária para compensar a falta de demanda privada adequada.
    A presença do governo na dinâmica econômica é um elemento necessário, apesar dos riscos envolvidos
    Keynes nos ensinou que não existe a tal ordem natural das economias, mas que elas operam dentro de um espaço influenciado pelo ser humano, tanto ao nível do indivíduo como do coletivo. E o Homem econômico de Keynes tem todos os defeitos e qualidades do cidadão comum e a política econômica tem que ser construída em um mundo imperfeito e sujeito a desequilíbrios periódicos.
    Já Hayek trabalha com a ideia de que o perfeito é possível e que, por isto, deve sempre ser buscado. Em outras palavras, tem uma visão radical de que não há saída possível fora de seu quadro teórico de uma economia racional e livre de qualquer interferência do Estado. Sua posição idealista sobre a natureza do homem econômico se contrapõe à visão mais cínica de Keynes em relação ao ser humano e seu funcionamento em sociedade.
    Trazendo estas diferenças para o Brasil de hoje é que se pode entender minha entrevista no Valor e o negativismo de Luis Stuhlberger em relação ao Brasil nas páginas amarelas da “Veja”.
    Para não ficar apenas no nível da abstração, um exemplo das nossas divergências é o BNDES e sua função na economia brasileira. Esta instituição financeira é para mim – que fui seu presidente por três anos – um dos instrumentos importantes do desenvolvimento brasileiro das últimas décadas. Para os seguidores de Hayek, como Stuhlberger, é um dos demônios a ser extirpado de nosso arranjo institucional.
    Inicio este debate fazendo a defesa vigorosa desta instituição financeira, apesar de críticas que tenho sobre alguns aspectos da gestão Luciano Coutinho. E para ser bem específico nesta defesa cito logo uma questão central que hoje está presente na mídia brasileira: o apoio do BNDES à indústria de processamento de carnes, principalmente à empresa JBS.
    Este programa começou na minha gestão com o objetivo de trazer este segmento para o setor formal da economia. Em 1996, quando começou o apoio do BNDES, quase 70% dos frigoríficos brasileiros viviam na informalidade total, sem pagar impostos – principalmente o ICMS – e fora do controle sanitário do setor público. À época quase 50% do abate de animais no Brasil era realizado clandestinamente.
    O BNDES iniciou um programa com um grupo restrito de empresas do setor e que tinham à época uma estrutura operacional mais organizada. Não havia outra forma de iniciá-lo sem esta etapa inicial de escolha de certo número de empresas, identificadas segundo critérios objetivos.
    Decorridos vinte anos, o setor de frigoríficos no Brasil está quase que totalmente formalizado, com rigoroso controle sanitário, exportando para os mercados mais importantes do mundo. O chamado abate informal representa hoje apenas 8% do total. A JBS e a Marfrig têm presença internacional marcante e suas ações são negociadas na Bovespa, o que é um indicador importante da mudança na governabilidade destas empresas. Com este novo arranjo institucional, a pecuária brasileira transformou-se em uma das líderes mundiais, com um volume de exportações expressivo e crescente.
    Outro exemplo exitoso da ação do BNDES é a Embraer, uma das empresas líderes no sofisticado mercado de aeronaves civis e mesmo de aviões militares. Colocada em uma posição de destaque na indústria brasileira, representa um caso único na nossa história, dada a fragilidade tecnológica de nossas empresas. Não tenho dúvidas em afirmar que a Embraer não existiria sem a presença do BNDES em nosso sistema financeiro.
    Poderia citar outros momentos em que, como presidente do BNDES, vivenciei a importância dessa instituição. Mas o importante é trazer de volta um dos ensinamentos que Keynes deixou para todos nós: a presença do governo na dinâmica econômica é um elemento necessário nas economias modernas apesar dos riscos envolvidos, e que podem aparecer em função de erros na sua gestão.
    Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, é diretor-estrategista da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações. Escreve mensalmente às segundas.

  3. O rei esta nu. Enquanto os países da America latrina estão melhorando sua infraestrutura com o nosso dinheiro. Os brasileiros sofrem com carências em diversas áreas.

  4. É preciso levantar novamente a informação de qual é a geração de empregos a partir dos repasses que o BNDES faz à iniciativa privada em nossa economia interna.

    Até onde acompanhei, o a cada um milhão de reais emprestados pelo BNDES, o banco criou 22 empregos – diretos, indiretos e por efeito renda.

    Mas, é preciso lembrar o custo disso para a população. Até onde acompanhei, o peso para a dívida pública era de R$9.000,00 (nove mil reais) para cada emprego gerado.

    Ou seja, não adianta fomentar a economia de maneira artificial, criando desequilíbrios estruturais e de mercado nem aumentando o endividamento, pois, a conta acaba se tornando alta para a própria sociedade.

    Numa conta grosseira, se retirar o montante do endividamento público (R$3,5 trilhões) do PIB (R$5,5 trilhões), tem-se uma visão aproximada do quanto a economia brasileira está comprometida com o endividamento público, e quanto custa a intervenção estatal na economia.

    Definitivamente: NÃO É SUSTENTÁVEL e nem inteligente, de maneira que o subsídio só carreará vantagem ao detentor do empréstimo subsidiado.

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